Mulheres contra o golpe: qual é a relação?

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*Por Nathalia Hóss

Tenho percebido que muitas feministas de esquerda têm se esquivado do debate da nossa conjuntura atual, como se fosse possível desvincular uma coisa da outra. Não é.

Feminismo não se limita (ou pelo menos não deveria se limitar) ao debate da desigualdade de gêneros, da legalização do aborto e do direito ao nosso corpo. Feminismo é sobre as condições sociais as quais estamos inseridas, sobre o Governo que está no poder e que consequentemente adota políticas que refletem na vida de nós mulheres.

Estar contra o Golpe é estar contra a onda conservadora que tenta conduzir os rumos da política brasileira, é estar contra os retrocessos que acometem a classe trabalhadora, é estar a favor da vida das mulheres.

Se a presidenta Dilma cai, quem assume é o Temer. Se a chapa de ambos é cassada, quem assume é o Cunha, ou seja, se o impeachment chegar às vias de fato, o PMDB colocará em prática o seu projeto de aniquilamento das políticas sociais e o ajuste fiscal se aprofundará. Num cenário como esse, o salário mínimo diminuiria, a mão de obra seria completamente terceirizada, os gastos com políticas sociais seriam reduzidos e as estatais privatizadas. Os direitos sociais conquistados até o momento pela CF/88 seriam totalmente suprimidos em nome de um equilíbrio fiscal, e a mulher trabalhadora carregaria nos ombros as consequências desse retrocesso.

Feminismo, em última instância, é decidido na esfera política. É através dessa esfera que a árdua luta dos movimentos sociais se manifesta, é através dessa esfera que se pode incidir diretamente na vida das mulheres.
O Bolsa Família, por exemplo, tem mais de 93% dos seus titulares do gênero feminino. O programa não só enfrentou a fome e a miséria, como foi um dos sustentáculos para que as mulheres ganhassem certa autonomia e não mais dependessem financeiramente de seus maridos. Muitas (de maioria negra), vítimas da violência doméstica, começaram a esboçar o desejo de se divorciar após o ganho do benefício. O governo petista reforçou também a titularidade das mulheres no Minha Casa, Minha Vida: em caso de divórcio, a mulher fica com a casa.
O Rede Cegonha, visando a saúde materno-infantil, mudou a realidade de milhões de gestantes brasileiras e alcançou os confins dos Estados que antes desconheciam o planejamento familiar, o pré-natal e o direito ao nascimento seguro. Enquanto isso, o PMDB defende, através do “Uma Ponte para o Futuro”, o fim da obrigação de os governos destinarem um percentual fixo de seus orçamentos para a saúde pública. O avanço neoliberal proposto pelos pmdbistas enterraria diversas conquistas advindas do SUS, e nós já sabemos: as mulheres serão as principais vítimas, mais uma vez.

O aumento do desemprego, também consequência desse projeto, é especialmente cruel com as mulheres, visto que numa entrevista de emprego, a mulher sempre será preterida em relação aos homens. As mulheres ocupam também, em detrimento aos homens, profissões mais desregulamentas, como o trabalho doméstico e o telemarketing, e sentirão na pele a perda desses direitos sociais.

Conclui-se então, que adoção de uma política social pode inicialmente visar a erradicação de um problema específico, mas acaba por mudar toda estrutura. Combater a pobreza, erradicar a fome, ampliar os gastos com assistência à saúde e educação, promover a distribuição de renda, criar políticas para as famílias agricultoras, valorizar o salário mínimo, garantir direitos trabalhistas são todas formas de defender a vida das mulheres. E nós não podemos nos calar diante do golpe que está em curso.

O Governo Dilma é altamente criticável e o nosso país está muito longe de acabar com as desigualdades, mas não se pode ficar inerte frente a onda conservadora que pôde ser notada na votação do último domingo. Não é honesto dizer que PT e PMDB são a mesma coisa. Vc pode não coadunar com as políticas adotadas pelo Governo Dilma (como eu não coaduno), mas vc não pode ficar ao lado do fascismo, do conservadorismo, da supressão aos direitos sociais, da LGBTfobia, do racismo, do machismo, daqueles que citam o nome de um Deus (cristão) e da família tradicional como forma de impor o que querem. E nós sabemos o que eles querem… e não é o fim da corrupção.

Por isso, ocupemos as ruas em defesa da classe trabalhadora! Vamos mostrar pro lado de lá que o nosso grito é bem mais forte. Porque a luta das mulheres apenas começou!

*Nathalia Hóss é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

Comments

  1. Parabéns pela reflexão, pela posição crítica em relação à conjuntura política do país e pela convocação à luta. Entretanto, fiquei intrigado com o seguinte trecho do primeiro parágrafo: “[…] muitas feministas de esquerda têm se esquivado do debate da nossa conjuntura atual […]”. Por que a especificação de “feministas de esquerda”? Não estariam as “de direita” também se esquivando deste debate?

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