O que é ser mulher na política?

*Mariana Ceci

25557558284_10bc2ea9a9_o

Foto: Isa Mendes

Depois da votação do último domingo (17/04), vários aspectos da política brasileira que ignoramos diariamente (mas que estão sempre lá) ficaram escrachados para a população. Não me refiro a corrupção, a falta de noção do que é público, a falta de solidariedade e de respeito a constituição. Falo de aspectos mais escondidos, mais enraizados. Aspectos que muitas e muitos de nós não questionaram, inclusive durante a votação, e que reproduzimos ao gritar, nos momentos de raiva, certas palavras para os deputados que votaram contra a democracia: o machismo, o racismo e a lgbtfobia que regem no congresso nacional e a nossa sociedade.

Nós, mulheres que ocupamos espaços políticos, sejam eles coletivos, partidos, organizações, DCEs, CAs, associações de moradores, secretarias municipais, estaduais, câmaras e grêmios sabemos o que é tentar se fazer ouvir em um espaço construído por e para os homens. Espaços nos quais precisamos gritar 5x mais alto para sermos ouvidas e nos quais, paradoxalmente, ao fazer-lo, somos chamadas de loucas.

Sabemos que temos que planejar com muita antecedência tudo aquilo que queremos fazer e todas as atividades políticas que queremos tocar nesses espaços. Não temos o privilégio de poder deixar nada para em cima da hora e, ao mesmo tempo, sabemos como é ver nossos companheiros, muitas vezes sem planejamento algum, conseguirem com uma facilidade que nos deixa perplexas tudo aquilo que precisam para tocar suas pautas. Não por serem mais ou menos importantes, mas porque as portas abrem-se mais facilmente.

Sabemos como é (ainda) ter que optar muitas vezes entre a família e a política, porque a sociedade não quer que tenhamos os dois. Sabemos como não se quer que se seja mãe e agente política, avó e agente política, namorada, companheira, esposa e agente política. Sabemos como ocupar cada um desses espaços já é, por si só, um ato de resistência. Sabemos o que é ser isolada de um espaço político ao ter uma discussão com um homem da organização, porque eles, via de regra, protegem uns aos outros.

Sabemos como é ter medo – e não nervosismo, medo – de fazer uma fala em um espaço que não é auto-organizado (e as vezes até mesmo nos auto-organizados) porque nunca sabemos se nossa fala está a altura, porque tudo parece hostil (e é). Sabemos como é, mesmo tendo se preparado por dias para um espaço, não se sentir jamais preparada totalmente. Sabemos o que é sempre “deixar pra lá” alguma coisa que gostaríamos muito de falar em um espaço, mas que não falamos por medo de ser bobo, inútil.

Sabemos como é ter portas batidas em nossa cara quando vamos em instituições pedir parceria para tocar nossas pautas e ver essas mesmas portas sempre abertas a nossos companheiros homens. sabemos como é entrar em uma sala, fazer uma fala repleta de conteúdo político e ver apenas comentários destinados a sua aparência, sejam eles positivos ou negativos.

Sabemos o que é engolir o choro e ir fazer uma fala, porque o sistema não nos permite fraquejar. vemos nossos companheiros cometerem erros políticos como qualquer ser humano é passível de cometer, e ter seus erros políticos tratados como tal, mas vemos nossos erros políticos sendo levados para o âmbito pessoal, sempre, e jamais vistos como políticos.

E é por saber de tudo isso que, na votação de domingo, não chorei com o resultado final. Chorei ao ver Margarida Salomão, tentando se fazer ouvir em meio a todos aqueles homens que gritavam de todos os lados querendo calar sua voz, ao ver o pronunciamento de Luizianne Lins mulher, nordestina, defendendo sem medo o voto de mais da metade do povo brasileiro. Chorei ao ver Jandira Ferghali não abaixar a cabeça nem por um momento e apontar o dedo na cara de Eduardo Cunha, desafiando não só um homem, mas todo um sistema e dizer-lhe tudo aquilo que muitos homens não tiverem a coragem de dizer.

13055526_970046633093679_9030011068106754805_n

Mudar a política para mudar a vida das mulheres. Foto: Catarina Santos

Chorei ao olhar para o lado e ver que, dos vários companheiros e companheiras que me cercavam, eram as mulheres que mais vibravam, gritavam e comemoravam a cada voto “NÃO” que ecoava na tela, porque sabiam que sob suas vidas o impacto daquela decisão teria um peso que nenhum homem ali poderia imaginar. Chorei ao pensar em Dilma Rousseff: presa, torturada na ditadura mas com uma postura tão digna, tão serena diante de tantos impropérios dirigidos a ela, que não há como não se emocionar.

Chorei por todas as minhas companheiras que lutam diariamente para ocupar cada espaço, para levantar a mão em sala de aula e colocar uma opinião, para fazer uma fala em uma assembleia estudantil, para organizar um encontro de estudantes do curso, para organizar uma batucada em seu bairro, para criar uma diretoria de mulheres em seu centro acadêmico da área das engenharias.

Chorei não de tristeza, mas de orgulho.

Naquele domingo, as deputadas que ousaram se erguer contra os trogloditas assassinos da democracia, nos ajudaram a lembrar que resistimos e que resistir não é fácil. Escolhemos o caminho mais difícil, mas sem um pingo de arrependimento, e escolheria tudo de novo, quantas vezes fossem necessárias.

Às heroínas da democracia que RESISTEM nesse congresso PODRE, e em todos os outros espaços que ocupam, todo meu respeito, toda minha admiração. Olhar para vocês me dá forças nos dias mais difíceis. Às mulheres que estão no meu dia a dia: força.

Lembremos a nós mesmas (algo que eu às vezes esqueço) e a nossas companheiras que somos também humanas. erramos, falhamos e, por mais que o sistema tente nos fazer acreditar nisso, não somos incapazes, não somos menos. Somos gente. Sejamos pacientes e gentis com nós mesmas, com nossas companheiras. não é uma tarefa fácil mas, de áspero, já basta o mundo. Somos nós que já estamos mudando esse país.

*Mariana Ceci é militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Norte

Comments

  1. Rosilda Portas says:

    Concordamos plenamente e deixamos a certeza de jamais nos resignaremos, a luta continua!

  2. Muito bem Mariana, você disse tudo de verdadeiro que sempre está nas entrelinhas ou até no inconsciente coletivo dos homens.O não dito precisa ser clarificado para todos e todas se informarem, refletirem e legitimar a força interna que cada uma de nós possui para resistir até o fim de nossa existência. SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ TODAS, SEJAMOS LIVRES !

Trackbacks

  1. […] Ceci é militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: