Mídia machista, meu lar é o palanque

Por: Marília Sampaio*

A matéria (se é que isso pode ser chamada de uma) publicada nessa segunda-feira pela revista Veja nos mostra para onde estamos caminhando. Para trás.

Saímos do “toda menina pode sonhar em ser uma presidenta da República” para “lugar de mulher é nô âmbito doméstico, à sombra de um homem”.

Saímos da figura de Dilma, uma mulher cujo slogan de campanha era “coração valente” para entrar na figura de “Marcela, a bela moça recatada de vestidos na altura do joelho”.

Saímos do “lute como uma garota” para entrar em “sua função no mundo se resume à sua aparência física”.

Politica se faz com símbolos.

veja-machista

Não se enganem, o golpe de domingo não é somente contra a democracia, é contra a Dilma, MULHER (sim!) e tem muita misoginia e ódio por ser uma MULHER (sim!) ocupando aquela cadeira.

Nunca aceitaram sequer a flexão do gênero na palavra PRESIDENTE. É um “A” que eles não aceitam. Para eles, nosso lugar é no tanque, é em casa, é na reunião de “pais” dos nossos filhos.

Sobre a Dilma, simbolicamente falando, pesa o manto do patriarcado e do machismo.

Não é pouca coisa ser a primeira mulher a governar um país do tamanho do Brasil. Junto com isso (ou também por causa disso) as mulheres foram se organizando cada vez mais e não-mais se silenciando, num movimento que foi chamado, ano passado, de “A Primavera das Mulheres”. A gente se levantou de novo. Muitas mulheres tomaram as ruas pela primeira vez, saíram “do lar” de onde não queriam que saíssemos – assim como a Casa Grande surta quando a Senzala aprende a ler.

2015 foi um marco civil e político no feminismo brasileiro, um movimento reavivado nas ruas e redes. 2016 já aponta para o retrocesso.

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Fora Cunha em SP. Foto: Bruna Provazi.

Fiquem atentos: num dia um parlamentar exulta um torturador, estuprador e assassino de mulheres. No outro, já querem vender o modelo ideal do que é ser mulher: e essa mulher é jovem, branca, magra, “se dá ao respeito”, usa saia comprida e NÃO FALA.

Primeiro-damismo é das coisas mais atrasadas da nossa sociedade. Significa afirmar que nascemos com função secundária. Não aceito sequer esse termo, que ao meu ver, já devíamos ter superado.

Quem já foi presidentA jamais se conformará em voltar a ser primeira dama. Tá avisado.

E à VEJA fica o recado: minha saia seguirá curta. Continuarei sendo não-recatada e meu lar é o palanque. Não nos calaremos nunca mais. Nunca mais. N-U-N-C-A M-A-I-S.

* Marília Sampaio é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Brasília (DF).

Comments

  1. Lélia Teresinha Lemos de Quadros says:

    Seguiremos em Marcha, por Dilma, pelos nossos direitos, por respeito, contra o machismo e o patriarcado. Seremos Livres

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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