Somos todas loucas?

Por: Clarissa Nunes*

Os movimentos feministas populares sempre se posicionaram ao lado da democracia e pontuaram a igualdade e necessidade de autodeterminação das mulheres para a construção de uma sociedade justa, desprezando qualquer tipo de ataque aos direitos e garantias fundamentais e pautando a necessidade de transformação do atual sistema capitalista, racista, machista, misógino, lesbofóbico, transfóbico e homofóbico.

Os tempos sombrios que hoje vivemos reside justamente nos ataques sistemáticos (e sintomáticos) ao Estado Democrático de Direito, explicitados especialmente através do completo desrespeito ao princípio da legalidade e da imparcialidade do Judiciário.

Têmis, a Deusa da Justiça, é internacionalmente representada com uma venda nos olhos, o que simboliza a forma igualitária com que julga e ‘pesa’ os fatos e o direito. No Brasil, contudo, os últimos acontecimentos demonstram que apenas o olho direito da deusa permanece vendado, enquanto que o esquerdo encontra-se em um alerta que, para além de ser exacerbado, é também ludibriado pela tendenciosa mídia golpista e pela sede de poder institucional e econômico.

Os últimos ataques de caráter sexista à Presidenta Dilma desmascaram ainda mais a ausência de fundamentação legal para o impeachment, além de evidenciar a prática hegemônica de reprodução e reafirmação do machismo nos “principais” meios de comunicação do País, os quais permanecem umbilicalmente aliados aos interesses capitalistas e a lógica do mercado estrangeiro, apoiando a venda de empresas estatais e o comprometimento da soberania nacional.

texto 5 de abril

Questionar o equilíbrio emocional (como fez atualmente a revista Isto É) e a vida sexual (como já fez a Revista Época) da mulher é uma prática antiga de opressão. Fazer uso disso é disseminar a ideologia vazia e discriminatória de que nós mulheres somos ou loucas ou dependentes dos homens para fazer política. É a tentativa de nos manter fora dos espaços políticos, impedindo nosso protagonismo e participação em debates e em esferas que nos dizem respeito.

Controverter uma mulher – qualquer mulher – criticando a sua sanidade mental é perpetuar (seja para a esquerda, seja para a direita) este discurso. Embora se faça completa oposição ao discurso da Senhora Janaína Paschoal, deve-se garantir a ela o direito de ser rebatida politicamente, questionando não sua saúde mental, mas a propagação de um discurso de ódio, sem fundamento legal e notoriamente totalitário.

O silêncio da mídia hegemônica sobre este último episódio demonstra ainda mais que a sua atuação contra a Presidenta não é espontaneísta, mas arquitetada claramente com a intencionalidade de deslegitimar sua capacidade psicológica, posicionando-a como uma mulher histérica.

A esquerda não pode – e nem deve – comparar-se a esse tipo de prática. Ao contrário, deve politizar o debate e mostrar que discursos totalitários não passarão e que seguiremos nas ruas pela defesa da democracia e contra o golpe.

“Sinto que sou um bosque
que há rios dentro de mim,
montanhas,
ar fresco, ralinho
e parece-me que vou espirrar flores
e que, se abro a boca,
provocarei um furacão com todo o vento
que tenho contido nos pulmões.”
Gioconda Belli

*Clarissa Nunes é militante da Marcha Mundial das Mulheres – Núcleo Soledad Barrett (Recife/PE) e advogada.

Comments

  1. Ótimo texto.

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