Pela liberdade e contra o golpe corrupto, as mulheres resistem!

*Por Clarisse Paradis

O acirramento das ofensivas contra o governo Dilma e o programa de 2014 ganhou, neste mês, contornos cada vez mais nítidos de ruptura da democracia. As instituições que deveriam exercer controle sobre as regras e alertar e defender a sociedade das ameaças aos seus direitos, passaram a convergir, em disputa desigual dos rumos da crise política, com objetivo de promover um ambiente de total impossibilidade de existência do governo eleito. O discurso do golpe combina instrumentalização da crise econômica, enfraquecimento da imagem da Presidenta Dilma, criminalização do Partido dos Trabalhadores, espetacularização dos escândalos de corrupção e supervalorização da insatisfação de setores como o da classe média. A partir desse discurso busca-se sedimentar uma ideia de convergência total ao impeachment, em diferentes camadas e instituições da sociedade.

A caracterização desse discurso como golpista se dá exatamente porque ele é falacioso. Segundo a tradição política do republicanismo, o respeito às garantias constitucionais são a condição para que cada indivíduo e toda a sociedade seja livre. Isso significa que, quando indivíduos e instituições ferem as leis constitucionais, à revelia da expressão da vontade geral das/os cidadãs/ãos, o ato é em si uma corrupção, logo um atentado à nossa liberdade. O cenário imaginado do pós-golpe é aquele que nenhuma cidadã ou cidadão possa ter certeza do respeito aos seus direitos.

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Marcha das Mulheres Negras. Foto Ana Carolina Barros

Se o golpe é a própria corrupção, o projeto pós-golpe é a materialização da retirada de qualquer garantia aos nossos direitos. Sem legitimidade política, como será possível que as instituições deêm respostas aos conflitos? É somente em tal cenário, que existem as condições para que as forças políticas do golpe possam implementar uma agenda de ataque aos direitos sociais, ambientais, trabalhistas, sexuais, relegando ao mercado a regulação da vida social e esvaziando a política como arena da liberdade.
No entanto, a empreitada do golpe choca-se com um mar de resistência – as forças progressistas estão em luta e demonstraram ter capacidade organizativa e respaldo político para disputar os rumos das atuais disputas.
No conjunto dos esforços de resistência das forças progressistas, é preciso reconhecer o papel das mulheres na construção do discurso em defesa da democracia. Denunciamos as manifestações machistas e misóginas contra a presidenta Dilma, fomos às ruas enfrentar as forças conservadoras no Congresso e seu imbricamento com o programa golpista, especialmente a partir do dep. Eduardo Cunha, contribuímos em estabelecer uma tônica irreverente para os protestos, em conjunto com as classes artísticas, a juventude, entre outros, traduzindo a defesa da democracia em uma agenda do amor contra o ódio, da alegria contra a intolerância, da igualdade contra o elitismo, da liberdade contra a corrupção.
É preciso reconhecer que historicamente as mulheres lutaram bravamente para a conquista da cidadania. Por muito tempo mulheres, negros e entre eles o conjunto da classe trabalhadora, estiveram a margem dos direitos cidadãos. Foi somente muito recentemente na história brasileira, que a ideia de igualdade e liberdade estiveram vinculadas ao aprofundamento e ampliação da democracia.
Resistir ao golpe é especialmente simbólico para as mulheres: sabemos quem paga a conta no interior das famílias, quando o Estado é reduzido, sabemos como a nossa vida e nossos corpos são fortemente controlados com a ampliação das esferas do mercado e como o racismo e o patriarcado são fundamentais para as engrenagens do projeto de exclusão do pós-golpe.

Sabemos quanta luta foi necessária para a conquista da democracia e quanta bárbarie se pode cometer na ausência dela.

*Clarisse Paradis é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Minas Gerais.

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