Mulheres contra o golpe e em repúdio à ação truculenta da PM na PUC-SP

Por: Julia Ferry, Ingrid Guzeloto, Nathalia Hóss Rocha e Fernanda Damato*

A conjuntura nebulosa que enfrentamos atualmente tem se refletido de forma muito clara dentro das universidades de todo o país. Não tem sido diferente na PUC-SP: o ato em defesa da legalidade democrática ocorrido na última quarta-feira (16/03), promovido pelo Centro Acadêmico de Direito, polarizou o ambiente universitário e fez com que as alunas e alunos se posicionassem perante os ocorridos na política nacional.

Descontentes com o resultado do ato, muitos estudantes alegaram não se sentir representados pelo Centro Acadêmico do curso de Direito, iniciando um boicote a todas as propostas advindas do grupo político da atual gestão. Não demorou para que um outro ato, dessa vez promovido por setores da direita, fosse arquitetado: o ato pró-impeachment.

12443101_1266958223321595_877321716_n

Crédito: Projeção CACS.

Tal ato, realizado na noite de ontem (21/03), na rua Ministro de Godói – Perdizes, contava com a confirmação de mais de 3 mil pessoas no evento do Facebook, mas poucas se fizeram presentes. Contrários, membros do Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CACS), projetaram imagens e frases nas paredes de um prédio próximo à região, como forma de intervenção a manifestação golpista que ali ocorria.

A Policia Militar foi então acionada, dividindo a rua em duas: de um lado, o fascismo, de outro, o grito pela democracia. E foi nesse contexto que a PM resolveu agir, atirando bala de borracha e gás lacrimogêneo, nos manifestantes contrários ao golpe, atingindo dentro e fora do prédio novo da universidade, inviabilizando a permanência das pessoas nele. As balas feriram o rosto de uma criança de 7 anos que passava por ali e dois estudantes, todos foram internados.

Se uma ação violenta da Polícia Militar como essa ocorre em um bairro de classe média, sobre os alunos de uma universidade que em sua grande maioria compartilham a mesma condição material, como a conjuntura atual irá se mostrar em ambientes diferentes? Sobretudo, como essa força policial irá se mostrar nas periferias, onde a intervenção militar já se faz presente hoje, diariamente, exterminando a população negra e pobre?

12910904_1266958249988259_1533916528_n

Crédito: PUC Contra O Golpe.

Há 39 anos, foram essas forças que invadiam a PUC-SP durante o sombrio período da ditadura. Diante disso, torna-se urgente uma análise quanto ao posicionamento da Polícia Militar. O que ocorreu na PUC-SP nessa segunda-feira não foi um ato isolado: é uma demonstração do posicionamento defendido por essa Instituição.

Não é a toa que nas grandes manifestações que têm disputado esse país há uma enorme divergência quanto à atuação da Polícia em relação aos manifestantes. Em atos pró-impeachment, os policiais não agem de maneira truculenta, não abusam do poder – pelo contrário, são vangloriados pelos manifestantes, como fizeram os manifestantes da PUC sob os gritos “viva a PM”, aplaudindo a ação policial.

Isso não ocorre em manifestações pró-democracia. A atuação da Polícia é violenta, assim como é usual em atos organizados pelas frentes da esquerda – como também tratam a população pobre e negra, visto pelos dados absurdos do genocídio da população negra, que marca esse país desigual e racista.

Fica claro que esse golpe está amparado pela Instituição da Polícia Militar, que responde às demandas do governador Geraldo Alckmin e do sistema judiciário. Em conjunto com a grande mídia e detentores do capital, esses setores conservadores e reacionários encabeçam um enorme retrocesso em questão de direitos, principalmente no que se refere à classe trabalhadora.

12903992_1266958403321577_356127364_o

Crédito: PUC Contra o Golpe.

Como desdobramento, em resposta a violência policial do dia 21 de março, segunda-feira, os centros acadêmicos organizaram duas manifestações dentro da PUC-SP de Perdizes. A primeira no período da manhã e a outra à tarde, com a proposta de ocupação de um espaço da faculdade, com o microfone aberto, para discutir o episódio ocorrido, fazendo um enlace com a atual conjuntura. Buscou-se abordar os acontecimentos do dia anterior, manifestando um repúdio à violência policial e a manipulação midiática.

Durante essas intervenções, participaram frentes de movimentos diversos, com diferentes posicionamentos, havendo falas fora de contexto e silenciamento de companheiras.

 

Isso nos leva a pensar sobre os atritos existentes dentro desse núcleo acadêmico. A PUC-SP é uma universidade bastante elitizada, uma vez que cobra mensalidades absurdas (em média 2.500 reais). O acesso das pessoas de baixa renda é ainda bastante restrito, mesmo com o programa “Prouni”, do Governo Federal, que permite o acesso desses estudantes em uma Universidade que antes era única e exclusivamente ocupada pelas elites.

Dessa forma, demonstra-se a importância de pensar sobre a invasão da Polícia Militar nesse espaço que já é uma ilustração da luta de classes. A resistência desses alunos e alunas prounistas se mostra bastante grande, demonstrado pelas denúncias de silenciamento e preconceito sofrido por parte de outros estudantes que se opõe ao programa. Estudantes tais que demonstram um sentimento de ressentimento com medidas provenientes do estado que visam diminuir a desigualdade tão marcante nesse país.

12910635_1266958266654924_922301096_n

Crédito: Ingrid Guzeloto.

Manifestações seguem durante a semana, e alunos e alunas da PUC-SP fizeram diversas ações, como caminharam até a Avenida Francisco Matarazzo defendendo a democracia. Ao caminhar pelo bairro de Perdizes, o ato foi atingido por ovos lançados dos prédios e pelo som de um panelaço local, onde fica implícito como se posiciona ideologicamente a população desse bairro, com um horror às bandeiras progressistas.

De tal maneira, todos esses episódios descritos descrevem para nós um cenário bastante conflituoso que é a atual conjuntura. Estamos presenciando uma disputa de classes, de forma que reforça a necessidade um posicionamento de resistência dos setores progressistas e movimentos sociais organizados na defesa da garantia de direitos das classes populares, que encontram-se cada vez mais ameaçados pelas forças golpistas.

*Julia Ferry, Ingrid Guzeloto, Nathalia Hóss Rocha e Fernanda Damato são estudantes da PUC-SP e militantes da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: