Ocupar e resistir ou a derrota do espírito conservador

 

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*Por Milena Gomes Soares

Nos últimos meses de 2015, cerca de 200 escolas no Estado de São Paulo foram ocupadas por estudantes com o objetivo de enfrentar o projeto de “reorganização” imposta pelo Governo de Geraldo Alckmin, que na prática significava o fechamento de salas de aula e estabelecimentos de ensino. A mobilização, mais do que atingir grandes proporções, teve efeitos avassaladores. A vitória da organização estudantil foi inegável: o governo do Estado recuou da proposta de reduzir o número de escolas e concentrar ciclos em um mesmo prédio. Além disso, alunas e alunos envolvidos nas ocupações imprimiram novo fôlego às lutas de seu tempo.

O ato político de ocupar as escolas se desdobrou em outros setores da sociedade e mobilizou estudantes, famílias, comunidades, movimentos sociais e intelectuais.

Para além da proposta de barrar o projeto imposto pelo governador, a juventude se mostrou mais do que capaz de ser protagonista deste processo, conduzindo não apenas seu posicionamento contrário, mas pautando e debatendo o cotidiano da vida escolar, relacionado às salas superlotadas, mobilidade, currículo escolar e falta de estrutura.

A forma como as e os estudantes conduziram as ocupações é acúmulo de uma longa trajetória de conquistas que a esquerda construiu ao longo dos anos, acúmulos que discutem e debatem a sociedade, fazendo uma crítica ao modo ultrapassado de fazer e pensar a educação, no qual as estruturas se sustentam por meio de opressão e desigualdade.

Dentro das escolas ocupadas a dinâmica foi diferente daquilo que ocorre no dia a dia escolar. A organização contou com divisão de tarefas, incluindo meninos na cozinha, meninas na segurança, cronograma de horários para atividades de debates e, muito mais que isso, meninas com a tarefa de mobilização e articulação política.

Não por acaso as discussões contaram com rodas de bate papo sobre temas dos quais as e os próprios estudantes escolheram e, nesse leque de opções, a pauta da igualdade circulou pelos corredores, salas e em todos os espaços. Para além da divisão de tarefas, foram debatidas questões como desigualdade salarial, violência, autonomia, entre outras.

O cenário político proporcionado pelas ocupações corresponde à síntese da luta das mulheres e dos programas de esquerda dos últimos anos, como por exemplo, a Lei Maria da Penha, que evidenciou que violência contra a mulher é uma questão a ser discutida e combatida. Também houve importantes avanços por meio das políticas públicas da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal (SPM). Se houve, portanto, interesse sob a pauta da igualdade durante as ocupações, é porque houve um histórico de lutas nessa questão.

Assim, as ocupações derrotaram na prática comportamentos que a sociedade nos impõe desde criança, como, “azul é para meninos”, “rosa para as meninas”, “boneca para meninas carrinho para meninos”. Dentro das atividades estipuladas nas ocupações, o lazer e a cultura também passaram por essa dinâmica. Meninas com skate, jogando bola, meninos na limpeza, uma divisão de tarefas que deixou de lado regras sociais impostas, de comportamento e de gênero.

Ao assumirem posição de liderança nesse movimento, as estudantes apontam para uma nova alternativa quanto à questão da educação, demonstrando que de fato é importante discutir um novo modelo de educação, que traga à tona as desigualdades que sofremos, o racismo, a homofobia e tantas outras formas de opressão e violência presentes na sala de aula.

Uma educação mais justa e igualitária deve ser aquela que de forma horizontal e democrática, altera a sociedade por meio do debate e da construção com todos e todas estudantes e por meio da superação do machismo e dos padrões que nos oprimem.

 

*Milena Gomes Soares é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Americana, São Paulo.

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