A cultura do estupro e a necessidade de democratização da mídia

Globo

Não percas a compaixão, mas teme tudo que te conduz

a negar-te a palavra, a esconder quem és,

tudo que te obrigue a abrandar-se

e te prometa um reino terrestre em troca

de um sorriso complacente.

(Conselhos para a mulher forte, Gioconda Belli)

*Por Clarissa Nunes e Elisa Maria

O Anuário Nacional de Segurança Pública lançado em novembro de 2014 constatou que, só em 2013, 143 mil mulheres denunciaram terem sofrido violência sexual. Isso resulta na realidade de que a cada 04 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Não podemos deixar de levar em conta que esses dados não compõem toda a realidade, já que uma grande quantidade das vítimas desse tipo de violência não chega a denunciar.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, na pesquisa de Tolerância à violência contra mulher, revelou que 61,5% dos entrevistados concordam com as afirmações de que a culpa do estupro é da mulher “por não saber se vestir”, “não saber se comportar adequadamente”, dentre outras. Dos entrevistados, 58,5% concordam com a afirmação de que se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupro no Brasil.

Na minissérie “Ligações Perigosas”, em 07 de janeiro de 2016, exibida pela Rede Globo, foi veiculada uma cena onde a personagem da jovem Cecília, mesmo recusando-se explicitamente a manter uma relação sexual com Augusto, foi forçada ao sexo. Ainda assim, a direção da minissérie optou por mostrar a personagem sentindo prazer durante a violência, o que fez com que muitos sites e blogs afirmassem que a personagem na verdade “cede” à insistência do estuprador.

A cultura do estupro é reproduzida desde os assédios na rua até a violência sexual física, culminando na responsabilização da vítima e não do estuprador. Outra face desta cultura é o silêncio sobre o assunto, o que permite que se criem mitos como os de que os estupradores são desconhecidos e/ou possuem algum tipo de doença, quando na realidade a maioria dos estupros acontecem dentro do ciclo social da vítima e o violentador é alguém próximo, tal qual pai, irmão, tio, amigo, namorado e, inclusive, marido.

Justamente como forma de manutenção da violência, cenas como a descrita acima, agem. Ao romantizar este fenômeno, assistimos se naturalizar o comportamento dos homens em não respeitar a vontade das mulheres, colaborando com a perpetuação da concepção patriarcal em que a recusa da mulher na realidade significaria um “sim”, considerando que os seus corpos estão à disposição.

Assim, a minissérie, bem como todo conteúdo veiculado nas grandes mídias, a exemplo da objetificação feminina difundida em propagandas televisivas, reforça ainda mais a cultura do estupro e indica uma contradição em si, pois que caso se confirmasse que as mulheres consentem no estupro, isto descaracterizaria o ato forçado. Ao contrário de questionar os telespectadores sobre porque se evita ouvir o “não” da mulher, sedimenta na cabeça dos brasileiros e das brasileiras que a conquista por parte do homem – ainda que forçada – não é violenta, demonstrando assim uma completa ausência de responsabilidade, diante dos dados alarmantes das pesquisas sobre violência contra as mulheres e a cultura do estupro, indo ao encontro da necessidade das mulheres em resistirem vivas.

A culpabilização das vítimas e a desresponsabilização por parte dos poderes (in)competentes não nos causa surpresa. A comunicação no Brasil é dominada por algumas empresas privadas, que funcionam como extensão de um número menor de 10 famílias brasileiras. Os protagonistas dessas corporações são chefes políticos, homens, burgueses, brancos que comandam a mídia nacional. Essa mídia hegemônica é evidentemente porta voz de um projeto de sociedade que insiste na manutenção da ordem capitalista, racista e patriarcal, irremediavelmente contrário ao nosso projeto feminista e popular.

Tal projeto de poucos se expressa na criminalização dos movimentos sociais e das lutas populares; na superestimação dos atos de rua da direita brasileira e invisibilidade dos atos da classe trabalhadora; no terrorismo econômico e desvalorização da maior empresa estatal; na ética seletiva, denunciando só os casos de corrupção que lhes interessam; coniventes com o extermínio da juventude negra; a mercantilização do corpo das mulheres; a invisibilidade ou forma esteriotipada com que representa as mulheres negras, indígenas, camponesas, jovens, lésbicas e trans.

Portanto, não leva em consideração a pluralidade e diversidade de todas nós. Ao contrário, fortalece a imposição de um padrão de beleza racista e reforça os papeis de gênero, além de naturalizar todo o tipo de violência que sofremos, compactuando com a idéia de culpabilização e responsabilização da vítima, romantizando a conquista do estuprador, sem problematizar as circunstâncias de opressão e de submissão vivenciada pelas mulheres dentro do modelo de um sistema no qual as mulheres não tem voz e nem vez.

Democratizar a comunicação se faz urgente à vida das mulheres. E isto passa por resgatar a responsabilidade do Estado sobre a regulamentação da mídia e criação de mecanismos que inibam a violência contra a mulher também nos meios de comunicação. Por sua vez, resgatar o papel do Estado é refundar a democracia brasileira, através de uma Constituinte Exclusiva e Soberana para a Reforma do Sistema Político que coloque fim a relação de promiscuidade entre os políticos eleitos institucionalmente e os meios de comunicação.

Não nos silenciaremos diante da exaltação da violência contra as mulheres. Seguiremos em Marcha pelas reformas estruturais de que o país necessita e pela consolidação de outro projeto de sociedade, inclusivo, diverso, participativo, feminista e popular!

Lá vou eu, lá vou eu

Vou lutar com as feministas

Repudiar a Globo

Emissora machista e racista, lá vou eu!

Confira a música feita pelas companheiras da Marcha Mundial das Mulheres da Bahia, núcleo Negra Zeferina

*Clarissa Nunes e Elisa Maria são militantes da Marcha Mundial das Mulheres em Pernambuco.

Trackbacks

  1. […] *Por Clarissa Nunes e Elisa Maria – militantes da Marcha Mundial das Mulheres em Pernambuco. […]

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