Por uma comunicação de esquerda e feminista na ocupação das escolas

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*Por Fabiana Oliveira

Em campinas, cerca de doze escolas somaram-se as mais de 200 unidades escolares que foram ocupadas pelas/os estudantes, em protesto ao projeto de “reorganização escolar” no estado de São Paulo. O que o governador Geraldo Alckmin, a frente do projeto neoliberal administrado há mais de duas décadas no estado, denomina reorganização, é, na verdade, um nítido golpe contra a educação pública e de qualidade, direito fundamental prescrito em nossa Constituição.

O fechamento de escolas acarreta na superlotação de salas, precarização da qualidade do serviço público, precarização das relações de trabalho e outros muitos prejuízos para a vida das/dos estudantes e seus núcleos familiares. A transferência para escolas distantes dos lares e divisão por ciclos significa, por exemplo, que as mulheres, responsabilizadas historicamente pelos cuidados dos filhos, tenham que arcar com uma locomoção ainda maior até a escola (e os custos e prejuízos de diversos tipos que isso acarreta), tenham filhos em unidades escolares diferentes, entre outras questões que nos afetam diretamente. Essa proposta desconsidera totalmente a humanização na prestação dos serviços públicos.

Mas “a dor da gente não sai do jornal”, dizia a canção. Até sai, mas chamam as ocupações das escolas de “invasão”, por exemplo. Invade-se o que é do outro. Ocupa-se o que lhe pertence, por direito, e “escola é para todas/os”, como tem nos ensinado as/os estudantes secundaristas nesse processo de resistência contra a truculência com que o governo estadual trata manifestantes.

A grande mídia dá mais atenção às figuras públicas (famosos, cantores e artistas) que apoiam a ocupação das escolas do que as reivindicações e pautas que o movimento pela educação tem a apresentar. Além disso, há um “silêncio militante”, usando palavras de Perseu Abramo, sobre diversos aspectos desse processo. Há seis dias, a Folha de S. Paulo, por meio da TV Folha, publicou um vídeo sobre as escolas ocupadas, com depoimentos dos alunos, apontando para o estado de precariedade das escolas. Nesse dia, Geraldo Alckmin esteve no jornal durante o horário do almoço, como registrado no próprio impresso. Por “coincidência”, no mesmo dia, o vídeo foi tirado do ar. “Podemos tirar, se achar melhor” é um mantra dos grandes veículos de comunicação do país.

É por isso que diversas escolas têm reconhecido a importância de produzir a própria comunicação. As ocupações têm páginas nas redes sociais, onde socializam tudo aquilo que lhes acontece, todos os dias. São fotos, textos e denúncias. A Marcha Mundial das Mulheres, por outra comunicação, de esquerda e feminista, tem apoiado as escolas, das variadas formas possíveis e a produção de conteúdo está entre elas.

Realizamos, na Escola Estadual Francisco Glicério, em Campinas, uma oficina de vídeo. O objetivo foi atender a uma demandar da ocupação: buscar o apoio da comunidade, que, também por conta da mídia, desconhece o que de fato está acontecendo nas escolas. As/os estudantes produziram o próprio conteúdo.

Na Escola Estadual Eduardo Barnabé, também em Campinas, na oficina de comunicação, falamos um sobre as redes sociais, sobre a cobertura jornalística e sobre vídeos. Sobre as redes sociais, discutimos o quanto essas plataformas são problemáticas, posto que pertencem a grandes grupos de comunicação, que roubam nossas informações e comercializam todos os dias. Entretanto, também pontuamos o alcance que elas têm e a melhor forma de utilizá-las.

Sobre a cobertura jornalística, as/os estudantes apontaram para as distorções feitas pelos jornais sobre as ocupações e, através disso, foi fácil reconhecer o quão importante é produzir o próprio conteúdo. Quanto aos vídeos, salientamos a importância de registrar tudo o que acontece, especialmente em momentos de insegurança, dentro das ocupações e nas ruas, visto que os movimentos sociais são frequentemente alvos de violência e criminalização.

Essas experiências, assim como todas que vamos vivenciando como militantes da MMM, nos fazem cada vez mais firmes na ideia de que a nossa comunicação ou será de esquerda e feminista, ou não será.

*Fabiana Oliveira é militante da Marcha Mundial das Mulheres de Campinas e integra o Coletivo de Comunicadoras da MMM

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