Construindo o feminismo popular nas escolas ocupadas

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* Por Laís Dutra

Há cerca de vinte dias, 197 escolas estaduais do estado de São Paulo foram ocupadas pelas/os estudantes do ensino médio como forma de resistência ao projeto de “reorganização escolar” proposto pelo governador do estado Geraldo Alckmin, do PSDB. Esse projeto, desenvolvido pela Secretaria Estadual do Estado de São Paulo, pretende fechar 93 escolas, alegando que existem escolas com salas de aula sem utilização, sendo que hoje, 793 colégios estaduais de São Paulo têm salas superlotadas. Contra essa decisão, centenas de estudantes ocuparam suas escolas em protesto, e estão vivenciando na prática, a luta por um direito fundamental que é o da educação de qualidade.

Em resposta, o governo estadual está tentando obter na justiça autorização para realizar a reintegração de posse das escolas ocupadas. Ainda não conseguiu – mas a decisão judicial pode mudar a qualquer momento, e em muitas escolas a Policia Militar tem agido com violência e truculência contra @s estudantes, mostrando mais uma vez o quanto a educação de qualidade nunca foi uma prioridade do atual governo.

Porém, no campo político, essas ocupações tem tido um saldo positivo no sentido de despertar n@s alun@s a necessidade da auto-organização, e mostrando que é através dela que se constrói coletivamente ações necessárias para transformar a sociedade, e que somente através da união e organização coletiva será possível atingir o objetivo principal da ocupação que é impedir o fechamento das escolas.

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Alunas e alunos tiveram que pensar juntos a divisão das tarefas. Quem fica responsável pelas refeições, limpeza dos banheiros, salas, pátio e a chave do portão. Organizaram “escalas de trabalho” para que tod@s se impliquem e se responsabilizem pela organização e conservação da escola. Muitas pessoas da comunidade e de alguns movimentos sociais tem colaborado com a ação d@s alun@s, contribuindo com oficinas, doações de alimentos e produtos de limpeza, rodas de conversa, saraus, apresentações culturais e etc. Ou seja, a escola dirigida pelos alunos e pela a comunidade é, sem dúvida, muito melhor do que a escola dirigida pelo Estado.

Nesse sentido, é imprescindível que @s estudantes, ao se organizarem na luta por direitos, se atentem que ainda hoje em nossa sociedade esses direitos não são concedidos da mesma forma para homens e mulheres. E que a ocupação da escola só fará sentido se meninas e meninos se dispuserem a desconstruir as desigualdades de gênero não só na sociedade como também no espaço escolar.

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Com isso, militantes da Marcha Mundial das Mulheres do ABC paulista tem apoiado as ocupações da região e levado o debate do feminismo popular para dentro das escolas. Na última semana, em uma das escolas ocupadas na cidade de Diadema, foi realizado uma oficina sobre Gênero na Escola e Feminismo, onde foi discutido com @s alun@s de que forma poderíamos construir uma escola livre do machismo e garantir que essas práticas machistas não sejam reproduzidas durante a ocupação.

Ao tocar nesse assunto as meninas logo denunciaram: “Quando fomos montar a comissão da limpeza e da cozinha, os meninos falaram que só as meninas deveriam assumir essa tarefa…” e fomos, aos poucos, problematizando e debatendo as diferenças dos papéis sociais que existem entre mulheres e homens, e que essas diferenças são geradoras de desigualdades, tornando-se assim responsáveis pela sobrecarga do trabalho doméstico, pelo aumento da violência sexista, pelo assédio, entre outras coisas.

É fundamental que a escola seja um espaço de desconstrução do sistema patriarcal. Sabemos que não é uma tarefa fácil, ainda mais porque no campo educacional sequer discute-se gênero, porem sabemos que essas e outras desigualdades como as de classe, raça/etnia e orientação sexual também repercutem nos espaços escolares. E acreditamos que somente a luta das mulheres é capaz de transformar a sociedade e as relações de poder, e que a escola, também possui um papel fundamental para combater a produção e reprodução dessas desigualdades.

“As estudantes, são nossas amigas

Mexeu com elas chamou pra briga!”

 

* Laís Dutra é militante da Marcha Mundial das Mulheres no ABC

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Comments

  1. Essa meninada,esta dando aulas de cidadania a gente!!!!

  2. Maria Inês Batista Dutra says:

    Parabéns a Marcha Mundial de Mulheres do Brasil por terem acolhido a lutas dos e das estudantes neste momento tão difícil em que a grande mídia está como sempre esteve a favor do governador.Entender que a reorganização é um estagio para agilizar mudança para depois privatizar o ensino é fundamental, e é neste sentido que o movimento cumpre seu papel de fortalecimento das relações, para que os jovens ganhem acumulo e força para enfrentar e continuar fazendo a luta em 2016, O que está proposto é uma mudança que será ruim para os estudantes paulista e para a categoria de professores em todo o Estado de São Paulo.

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