Longe da autonomia, perto do patriarcado: viralizar o feminismo libertando nossas ferramentas

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Ato Mulheres Contra Cunha (São Paulo, 30/10/15). Foto: Bruna Provazi.

Por: Bruna Provazi

Nos últimos tempos, temos visto um crescimento do feminismo pelo Brasil, principalmente entre as jovens e nos grandes centros urbanos. Um feminismo fortemente conectado à internet, e que usa a rede não apenas como fonte de informação, mas também como ferramenta de mobilização política. Prova disso é a viralização recente das hashtags #MeuPrimeiroAssédio, #MulheresContraCunha, #AgoraÉQueSãoElas, #PrimaveraDasMulheres e #MeuAmigoSecreto. Embora a mídia tradicional tenha quase que uma fixação em eleger “o novo feminismo da vez”, esse fenômeno não é tão novo, e é cíclico: faz parte de um processo maior de tomada de consciência das mulheres, que está em curso no Brasil há pelo menos dez anos, com momentos de maior ou menor efervescência. Talvez o componente realmente novo seja a ampliação, cada vez mais forte, do uso da internet para a articulação política. Entretanto, apesar dessa relativa sensação de avanço, agravada muitas vezes pelas bolhas digitais nas quais empresas como Facebook agrupam suas usuárias e usuários, a contra-ofensiva machista (racista, lesbofóbica, bifóbica e transfóbica) continua a operar a pleno vapor, tanto nas redes quanto nas ruas, e precisamos estar sempre alertas também à escolha de nossas ferramentas de luta.

Esse feminismo em rede se inspira fortemente também na luta das mulheres organizadas em seus movimentos, sindicatos, coletivos, partidos e organizações. Não podemos nos esquecer que foram 70 mil mulheres organizadas, do campo, das águas e das florestas, as pioneiras em pautar o Fora Eduardo Cunha durante a Marcha das Margaridas, em agosto, em Brasília. Mas esse feminismo vem se expandindo, cada vez mais, pra além do campo de esquerda e do meio virtual, conectando redes e ruas em grandes atos contra o Projeto de Lei 5069 de Cunha, pela legalização do aborto e pelo fim da violência contra a mulher, os quais levaram muitas jovens às ruas pela primeira vez. Um feminismo que ainda tem, sim, um recorte de classe, raça, idade e região, mas que agrega cada vez mais mulheres diversas, e que se espalha com uma potência gigantesca. E que não pode ser ignorado nem mesmo pela mídia tradicional, como pudemos ver estampado nas capas das revistas Época, Isto É e Cult no início de novembro. Ainda que utilizando-se de velhas práticas jornalísticas em suas coberturas, a mídia de massas não pode mais ignorar um movimento que toma as ruas e viraliza-se instantaneamente nas redes.

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Ato Mulheres Contra Cunha (São Paulo, 30/10/15). Foto: Bruna Provazi.

Apesar de tudo isso, por mais em alta que possa parecer o tema, não eliminamos do dia pra noite velhas desigualdades, como a responsabilização exclusiva da mulher pelo trabalho de cuidados, a criminalização do aborto ou os altíssimos índices de violência sexista. As campanhas recentes #MeuPrimeiroAssédio e #MeuAmigoSecreto escancararam o quanto ainda estamos tão longe de nossa autonomia e tão perto do patriarcado. Nós feministas sabemos como ainda é difícil fazer os homens, inclusive os companheiros de esquerda, largarem velhos comportamentos pra além das hashtags do momento e tratarem as mulheres com igualdade de fato. Não é com #meaculpa que vamos acabar com os privilégios masculinos numa sociedade capitalista e patriarcal. Vivenciamos diariamente as diversas expressões do machismo, seja por meio de olhares, cantadas e encoxadas no transporte público, seja pela desqualificação no ambiente de trabalho, seja pela persistente objetificação de nossos corpos e desejos. E essa violência não se restringe ao offline.

Não podemos nos esquecer de que, nas últimas semanas, diversas páginas de Facebook e blogs feministas foram invadidos e retirados do ar. Nos solidarizamos com os coletivos e as ativistas feministas responsáveis por essas páginas, pois sabemos que a violência sexista que sofremos nas ruas também se reflete nas redes, e que todas nós mulheres estamos sujeitas a essas expressões do machismo cotidianamente.

A internet não cria comportamentos, mas a possibilidade do anonimato através de perfis falsos ou a simples proteção que uma tela de computador pode oferecer podem, sim, servir para amplificar discursos de ódio já tão bem entranhados na sociedade. Quem nunca recebeu comentários como “assassina”, “vadia” ou “vai lavar uma louça”, seja em posts sobre a legalização do aborto, seja sobre qualquer assunto que paute a autonomia das mulheres?

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Ato pelo Fim da Violência Contra a Mulher (São Paulo, 25/11/15). Foto: Bruna Provazi.

Quando denunciamos nossas opressões em nossos blogs e perfis, incomodamos tanto quanto quando ocupamos as ruas em uma manifestação protagonizada por mulheres. Receber comentários ofensivos e ameaças enviadas por homens quando publicamos um texto sobre a legalização do aborto ou sobre violência sexista não é diferente de receber xingamentos de homens que passam pelas ruas quando estamos em passeada. E a tentativa de calar a nossa voz buzinando ou acelerando o carro em cima de nós, como muitas vezes acontece durante esses atos, não é diferente da tentativa de calar nossa escrita nos espaços virtuais, invadindo e derrubando nossas páginas.

Precisamos exigir que os invasores das páginas sejam encontrados e punidos? Com certeza. Mas também precisamos ter em mente que a construção de um novo mundo e de novas relações não pode se dar sob as bases de um modelo capitalista, e isso significa repensar nossas ações na rede pra além do combo Whatsapp-Facebook-Google-Windows-Apple. Pra além de serem empresas bilionárias que lucram com a venda de nossos dados e comportamentos na rede, o caso Edward Snowden nos Estados Unidos provou que não é paranoia dizer que está em curso um projeto de vigilância massiva da população. Trazendo mais pra onde a água bate na bunda, temos uma proposta de lei anti-terrorismo avançando no Congresso brasileiro, com aval do Governo, com o potencial de transformar a todas e todos nós reles militantes em potenciais terroristas. Por essas e outras, precisamos ter em mente que qualquer comunicação que passe por essas (e tantas mais) ferramentas proprietárias hoje está sendo interceptada.

Evidentemente, não temos todas as respostas pra sair desse campo minado do capitalismo patriarcal high-tech, mas debater saídas coletivas e democratizar o acesso ao conhecimento técnico nos ajudam muito. Precisamos disseminar o uso de ferramentas livres e da criptografia, e empoderarmo-nos umas às outras, para que possamos cada vez mais tornarmo-nos produtoras de comunicação, mas também de tecnologia, e colocá- la a serviço do novo modelo de sociedade que queremos construir. Afinal, sem feminismo não tem software livre, e sem software livre não tem feminismo.

Nosso desafio enquanto feministas é grande, e vai além de descobrir os amigos secretos das companheiras ou de optar por essa ou aquela tecnologia mais ou menos segura. Faz parte de nossa luta enquanto movimento estarmos organizadas em coletivos de mulheres que discutam suas questões e definam suas próprias estratégias para mudar a vida das mulheres e para mudar o mundo, assim como faz parte de nossa luta tocar mais e mais corações e mentes, pelas redes, pelas ruas e pelos roçados, sobre a importância de conquistarmos nossa autonomia e igualdade. Até que todas sejamos livres.

* Bruna Provazi é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo e integrante do Coletivo de Comunicadoras da MMM.

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