Meu amigo secreto, nosso inimigo em comum

Por: Carla Vitória*

Hoje explodiu nas redes sociais a hashtag #meuamigosecreto. Através dela, mulheres contaram casos de machismo que já tinham vivenciado, seja nas suas relações interpessoais, seja por pessoas desconhecidas ou pouco íntimas com as quais conviviam – nas rua, na escola e no trabalho. Não foi preciso apontar os nomes dos homens dessas histórias para que outras mulheres automaticamente se identificassem, como se fossem as próprias personagens desses tristes relatos.

Por que será que conseguimos nos ver nas narrativas de mulheres que estão do outro lado da tela, do bairro, do país e do mundo? Será que todas nós nos relacionamos com os mesmos homens ou seriam todos os homens iguais?

Nem um, nem outro. A resposta para essas perguntas está numa força que rege e organiza toda a sociedade. Essa força opera sobre o trabalho, a sexualidade e os corpos das mulheres, incluindo a cabeça. E martela, martela todos os dias para que nós, mulheres, não pensemos como as sujeitas livres que devemos ser.

O nome dessa força é patriarcado.

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O patriarcado é um sistema social, econômico e político no qual os homens controlam as mulheres individual e coletivamente. Ou seja, não é só no âmbito das relações interpessoais que ele se expressa, mas também através das instituições que comandam a nossa sociedade. Trata-se de um conjunto de regras, valores e políticas que se baseiam na suposição de que existe uma superioridade natural dos homens enquanto seres humanos.

Esse sistema consagra o poder masculino e elabora violências e exclusões. Porém, o patriarcado não é o único responsável pelas injustiças que vivemos. Seu entrelace com o capitalismo e com o racismo garante que a maioria das mulheres esteja em uma situação de inferioridade cultural, desvalorização social e desigualdade econômica, prontas para serem vistas como objetos para consumir e serem consumidas.

O patriarcado funciona a partir da ideia de que na nossa vida há uma clara divisão entre uma esfera pública e uma esfera privada. A primeira delas é considerada o lugar das ruas, da produção, do político, do mercado e da razão. E a segunda o lugar da casa, do pessoal, da família, da natureza e da emoção. Essa divisão naturaliza que as mulheres sejam as responsáveis por fazer todo o trabalho doméstico e de cuidados com as pessoas próximas, e ainda por cima considera esse trabalho como uma inevitável expressão de sensibilidade e amor, fruto de habilidades natas. Assim, o conceito de trabalho fica reduzido a aquilo que pode ser medido através do dinheiro e se esconde tudo que é feito para garantir a sustentabilidade da vida humana.

E agora? O que podemos fazer para mudar essa realidade?

Se o patriarcado atua na vida das mulheres no planeta todo não é apenas transformando os nossos pensamentos e comportamentos individuais que poderemos nos libertar dele. É preciso, sobretudo, transformar as estruturas das instituições que nos cercam – a economia, a política, as artes, etc. Quando vamos juntas para as ruas protestar contra o que nos incomoda, além de estarmos um passo mais próximas dos nossos direitos, mostramos que o lugar das mulheres é também no espaço público. Mudar o mundo e a vida das mulheres ao mesmo tempo é trabalho de formiguinha, mas vale a pena!

Carla Vitória é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo.


Referência:

Cartilha “Prostituição: uma abordagem feminista”, SOF-Sempreviva Organização Feminista. Baixe aqui a cartilha.

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