Do Rio Doce à lama tóxica: para o feminismo, o capitalismo não tem eco

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*Por Cíntia Barenho

Já faz tempo que as feministas da Marcha Mundial das Mulheres denunciam as práticas criminosas e degradantes das multinacionais que exploram nossos bens naturais. E igualmente faz tempo que denunciamos os impactos que essa exploração traz para a vida das mulheres, especialmente aquelas que promovem sua autonomia econômica e garantem a sustentabilidade de suas famílias através da agricultura familiar, da Agroecologia.

Em agosto de 2013, mulheres de 48 países denunciavam as práticas predatórias da mineradora Vale e seu real projeto para o meio ambiente e para vida das mulheres, durante o 9º Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres. Em Moçambique, onde agora está nosso Secretariado Internacional, cerca de 1500 famílias estão sobre repressão desde 2004. Por lá há violação dos direitos dos trabalhadores, especialmente no território centro-norte por onde está sendo construída linha férrea.

Em 2012 também estivemos engajadas para garantir a eleição da Vale como a pior empresa do mundo, prêmio que tem por objetivo expor violações ambientais e sociais das corporações internacionais.

Não diferente, em 2015, onde durante nossas atividades da IV Ação Internacional reunimos cerca de mil mulheres em Varzelândia (MG) para denunciar e apoiar a resistência das mulheres contra a mineração. As mulheres resistem no Norte de Minas Gerais e pautam a agroecologia como forma de resistência.

Infelizmente, faz quase 20 dias que a Vale escancarou que capitalismo é sinônimo de acumulação e morte, com o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, mineradora localizada no município de Mariana-MG (região Central de Minas) e controlada pela Vale e a BHP Billiton. Um tsunami de lama tóxica, com mais de 50 milhões de metros cúbicos, riscou do mapa o distrito de Bento Rodrigues e de Paracatu de Baixo, arrastando consigo não só a história e memória dessa comunidade rural, mas especialmente muitas vidas humanas e não-humanas. O tsunami chega ao oceano, “livre” para ampliar ainda mais o impacto ambiental provocado, especialmente em uma área de estuário, desova de tartarugas, de expressiva produção pesqueira, de preservação de recifes de corais no Parque Nacional de Abrolhos, para dar apenas esses exemplos.

O crime-tragédia ambiental ocorrida em Mariana escancarou ainda mais as nefastas conseqüências da presença da mineradora Vale em nossas comunidades. E mais, escancara como para o Capital a questão ecológica é tratada.

Lá no Norte de Minas, as mulheres resistem a mais de cinco projetos de mega empreendimentos de mineradoras, a dois de minerodutos, que devem causar danos ambientais irreversíveis. Impactos como falta de água, falta de terra para plantar e despejos são diretamente sentidos pelas mulheres, pois ainda somos nós as responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados, por manejar as hortas, por cuidar dos pequenos animais, pelo conhecimento ecológico tradicional com o manejo de plantas medicinais.

Para quem vive nessas comunidades, não há possibilidades de escolha. O Estado não garante que possam permanecer em suas terras, garantir seu sustento e promover um desenvolvimento local. Uma vez definido que um mineroduto “tem” que passar por determinada área (quem define?) praticamente a vida naquela propriedade fica inviabilizada.

Mesmo que este não passe pela propriedade é a água que vira bem escasso. Também o Estado não garante a água como direito para as comunidades. A água vira transportadora de minérios dentro dos minerodutos que percorrem longas extensões do território. Sem água para manutenção da vida, viver em tais comunidades se torna inviável.

Se não é nem o mineroduto, nem a água para transportar minérios, pode ser uma barragem de rejeito, onde viver pressupõe um medo constante que a mesma possa romper-se, como infelizmente agora aconteceu em grandes proporções. Ou mais, pode ser viver perto da mina de exploração (que ironicamente chamava-se “Alegria” no município de Mariana), como constantes explosões, poeira e fuligem, bem como com possibilidades de contaminação com metais pesados usados para extração dos minérios.

Perpetua-se o Brasil Colônia, onde a exportação de bens naturais e commodities segue sendo a forma dita como possível do Brasil se desenvolver. A captura do Estado Brasileiro às corporações evidencia-se, pois vemos o poder público zelar pelo interesse privado em detrimento do público. E destrói-se qualquer tentativa de pensar outro desenvolvimento possível.

Assim, nos resta seguirmos em marcha para continuar vivendo com decência, seja no norte de Minas, seja em todos os demais territórios em disputa pelas grandes corporações. Queremos que o desenvolvimento seja visto não como possível somente quando há grandes empresas, que exploram e esgotam a natureza (leia-se nós também exploradas), mas como mecanismo que pressupõem múltiplas estratégias e iniciativas, como a agroecologia construída pelas mulheres faz-se muito tempo.

* Cintia Barenho é militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul e bióloga do Centro de Estudos Ambientais

Comments

  1. Muito lindo e importante esse texto

  2. Muito interessante e oportuno. É necessário rever conceitos, e o Fórum Social Mundial 2016 Porto Alegre 15 Anos já vinha se mobilizando para debater o novo Marco da Mineração, onde informações citam vários deputados federais que estão analisando o projeto como patrocinados por empresas de mineração. Temos de defender que os recursos minerais são do “povo brasileiro” e não de uma estatal, de alguns funcionários ou pior ainda, de empresas ou pessoas estrangeiras.

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