Como o feminismo da MMM transforma nossas vidas [#02 – Marianna Fernandes]

Por: Marianna Fernandes (Mari Cota)*

Fuzarca Feminista. 4ª Ação Internacional da MMM no RJ (30/08/15).

Fuzarca Feminista. 4ª Ação Internacional da MMM no RJ (30/08/15).

Minha bisavó era uma leonina de 25 de julho que se chamava Anna. Quem a conheceu diz que ela era uma pessoa especial, uma mulher a frente do seu tempo, e que justamente por isso era incompreendida pela sociedade que a cercava. Tinha talento pras artes, provavelmente tinha muito amor pra dar, muitos sonhos pra concretizar, muita coisa a dizer. Gostava de vermelho. Foi diagnosticada com distúrbios psicológicos na época do eletrochoque, caminhou por dois dias e duas noites sem parar para fugir de coisas que eu nem posso imaginar – mas as vezes sinto em mim.

Escreveu um livro que eu infelizmente nunca li, mas eu gosto de imaginar que ela escreveu esse livro com batom vermelho e não tem um dia que se passe sem que eu me pegue imaginando, no ônibus, antes de dormir, no intervalo pro xixi no boteco, em frente a floricultura, enfim, não tem um dia que se passe sem que eu deseje com todas as minhas forças que alguém encontre esse livro e que eu possa ler e ter acesso a um pouquinho do que se passava dentro dela – talvez na busca de compreender um pouco melhor o que se passa dentro de mim.

O feminismo me permitiu compreender que eu, enquanto mulher, sou sujeito político e de direito. Isso, por si só, já transformou a maneira como eu enxergava o mundo e a maneira como eu me colocava nele. Mas a militância me fez entender que de nada vale eu transformar apenas a mim mesma e me enxergar enquanto sujeito sem entender que componho um sujeito coletivo. A militância me fez aprender a importância de se doar pra algo que é muito maior do que os limites desse corpo ou dessa vida.

E quem me ensinou isso foi a militância que pisa nas ruas, que se coloca lado a lado das mulheres que resistem em seus territórios, seja na Vila Autódromo, na Maré, no Méier, em Benfica, no Jardim Catarina… a militância que constrói um entendimento que de nada basta emancipar indivíduos sem que haja uma emancipação coletiva, que paute uma sociedade que não construa novas categorias de opressão, mas que permita que as mulheres sejam o que elas querem e podem ser.

Mulheres da Vila Autódromo (RJ) em Marcha contra as remoções. Foto: Marianna Fernandes (08/15).

Mulheres da Vila Autódromo (RJ) em Marcha contra as remoções. Foto: Marianna Fernandes (08/15).

Entender que fazemos parte de um sujeito coletivo nos permite entender que não seremos livres até que a última corrente de opressão seja rompida no último canto desse mundo, nos permite entender que com a solidariedade vem a responsabilidade de sentir em nós a dor que aqueles outros corpos sentem. Entender nossa condição de sujeitos coletivos nos permite sentir pulsando no útero nossas avós, mães, tias, irmãs, filhas, amigas, todas aquelas que vieram antes e as que virão depois, aquelas que foram queimadas nas mais diversas fogueiras que a história nos impôs, as que tiveram seus corpos e vida tratados como pedaços de carne sem valor, aquelas que tem seus filhos assassinados todos os dias, aquelas que esfregam o chão pro playboy sujar, as que sofrem com as surras do pai alcoólatra…

Entender a nossa condição de sujeitos coletivos nos permite sentir compaixão, que é o sentimento mais lindo do mundo junto com a solidariedade, e nos permite imaginar as dores de todas essas mulheres e a dor de todas elas passa a ser a nossa dor. E aí a gente passa a acordar todos os dias pra lutar junto dessas mulheres e a querer dedicar a nossa vida a ajudar a transformar as vidas de outras mulheres.

Esse final de semana, muitas mulheres se reuniram no Rio de Janeiro pra debater e trocar experiências sobre a desmilitarização das nossas vidas, nossos corpos e nossos territórios. Conseguir construir uma Ação RJ nas dimensões da que construímos não foi um produto do acaso, que surgiu da noite pro dia. Foi o resultado concreto de um processo amplo e articulado com múltiplas sujeitas, em que a juventude colocou a cara a tapa pra garantir que a Marcha Mundial das Mulheres estivesse onde ela tem que estar, nas ruas. Ocupando o espaço público com cultura feminista, com resistência e empoderamento.

Foi um processo cansativo, salgado e suado, mas que deixou muito nítido pra mim que as respostas que estamos buscando no âmbito da alta política estão escancaradas na nossa frente, nas ruas, nos territórios. E que nós, enquanto juventude feminista e que dialoga com sujeitas das mais diversas raízes e quereres, temos a dura missão de ajudar a ampliar as vozes das ruas e dos territórios e de fazer com que, de uma forma ou de outra, elas sejam ouvidas.

Temos a tarefa de ajudar a fazer das praças desse mundo espaços de empoderamento coletivo, e eu não vejo isso acontecendo sem que a gente olhe com mais atenção, e levando muito a sério, a disputa na cultura. Mujica, a pessoa que sintetiza em carne e osso o que há de mais próximo do que podemos dizer que é a nossa utopia, pediu que a gente não cometesse os mesmos erros que a geração dele, e o feminismo que pautamos esse final de semana aponta pra consolidação desse entendimento. Sem dúvidas, cometeremos erros. Sem dúvidas, existem múltiplas contradições nos processos. Sem dúvidas, existem questões relativas às estruturas que perpassam gerações, tempos e espaços. Porém, caminhar atentas aos erros do passado, cientes de quem somos, pra construir uma nova possibilidade de futuro é necessário nesse momento de inflexão.

A história nos pede desesperadamente que estejamos muito atentas. As asas da bruxa da história, esse final de semana, foram mais fortes do que a tempestade que se instalou debaixo delas. Teve muita vitória das mulheres na Praça Rio Grande do Norte, na voz da Aika Cortez e das companheiras MCs que representaram lindo demais. Teve muita solidariedade e muita irmandade junto a todas as companheiras que colaram pra somar e pra fortalecer. Sou muito grata por aprender tanto, todos os dias, com minhas companheiras e por construir, passo a passo, a estrada que usamos pra caminhar rumo à nossa utopia. Em homenagem a minha bisavó Anna, que eu possa ser tudo o que o patriarcado não permitiu que você fosse e, assim, através de mim, que você seja.

* Marianna Fernandes (Mari Cota) é militante da Marcha Mundial das Mulheres e da Fuzarca Feminista no Rio de Janeiro.

Este texto faz parte da série temática “De dentro pra fora, de fora pra dentro: como o feminismo da MMM transforma nossas vidas”. Inspire-se você também e envie seu relato para: comunicadorasMMM@riseup.net 😉

Comments

  1. Lélia Lemos de Quadros says:

    Ótimo texto, bela reflexão. Estou começando uma discussão com as mulheres idosas preparatória para a ação da Marcha. Adorei teu texto para trabalhar com elas. Participo do núcleo da Marcha em Bagé no RS estamos preparando nossa ação internacional em Santana do Livramento/Rivera. As idosas querem muito participar, já participaram da Conferencia que realizamos aqui, estão se preparando para a ação internacional.

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