Como o feminismo da MMM transforma nossas vidas [#01 – Bruna Rocha]

Por: Bruna Rocha*

O feminismo salvou minha vida. Isso não é fundamentalismo, muito pelo contrário. O feminismo descortinou meus olhos dos muros de aço que o Patriarcado coloca para nos cegar. Para não enxergarmos umas as outras, mesmo sendo nós mesmas que sempre estivemos e estamos do nosso lado.

Mães, avós, irmãs, tias, primas, amigas, companheiras de luta. O feminismo me fez entendê- las como principal inspiração para qualquer processo revolucionário. A solidariedade é mais que um princípio ou uma utopia. É uma metodologia inventada por nós pra sobreviver. É uma novíssima forma de sociabilidade inventada por nós para resistir ao patriarcado violento, bélico, racista, irracional.

Aprendi tudo isso com a Marcha Mundial das Mulheres. Aprendi também que solidariedade não corresponde a fraqueza ou sentimentalidades. Diz respeito a uma puta força e lucidez sobre nosso horizonte estratégico: construir um outro mundo, um mundo de paz. Uma incrível inteligência política que passa longe dos bancos acadêmicos e mais tem a ver com quem limpa o chão das salas de aula; com a tia do lanche; com a sabedoria de Nanã; a esperteza de Oxum; a força de Yansã; a serenidade de Obá.

Foto: Bruna Provazi (RJ, 29/082015)

Oficina de batucada feminista na 4ª Ação Int. da MMM no RJ. Foto: Ana Paula Farias (RJ, 29/08/15).

Nesta Ação Internacional que construímos no Rio de Janeiro, essas verdades ficaram muito mais evidentes. O entendimento de que as mulheres que estão na base social de nossas cidades precisam estar no centro do nosso debate, formulando e dirigindo os processos revolucionários. Falas como a de Mônica, do projeto Moleque, mostram como essas mulheres tem a capacidade de alterar a correlação de forças duríssima que está colocada pela ofensiva neoliberal sobre nossos corpos, nossas vidas e nossos territórios. E isso porque estes corpos, estas vidas e estes territórios carregam em si a vivência da resistência e da construção cotidiana de alternativas reais e possíveis de viver em harmonia.

Para mim, a grande lição que levo da Ação Internacional, é que sem o protagonismo destas mulheres não há feminismo. E sem feminismo não há desmilitarização. E sem desmilitarização não há possibilidade de construir um novo mundo.

Foto: Bruna Provazi (RJ, 29/08/2015)

Desfile africano (Odara Mania de Ser). 4ª Ação Int. da MMM no RJ. Foto: Bruna Provazi (29/08/15).

Volto pra casa com a lembrança doce do desfile de roupas de nações africanas e da imagem daquelas lindas senhoras negras dançando a beleza de África em plena praça pública, libertárias, libertadoras. Do olhar emocionado das jovens e de sua dedicação e cuidado para que tudo saísse perfeito pra nossas irmãs. Do sentimento transgressor das nossas intervenções urbanas, do lambe, do stencil, da batucada no metrô. Das risadas descontroladas, da coragem de gritar, xingar e dançar como queremos.

Se toda mulher soubesse ou quiçá pudesse viver isso ao menos uma vez, o feminismo não seria uma escolha, mas a única opção viável de viver.

* Bruna Rocha é militante da Marcha Mundial das Mulheres na Bahia e Diretora de Mulheres da UNE.

Este texto faz parte da série temática “De dentro pra fora, de fora pra dentro: como o feminismo da MMM transforma nossas vidas”. Inspire-se você também e envie seu relato para: comunicadorasMMM@riseup.net 😉

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