Tirem suas pedras do nosso caminho, pois nós vamos passar.

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“Princesas decadentes”, de Dina Goldstein.

*Por Yara Manolaque

Em João 8, 3-11, Maria Betânia ou Madalena, não se sabe ao certo, foi apedrejada por ser considerada a adúltera, a pecadora. Salva, por um homem, que acusou os demais de serem pecadores também, as “Marias” invisibilizadas pela história, escrita por homens, mostra o papel histórico das mulheres, divididas entre ‘putas” (Eva, Maria Madalena ou Betânia) e santas (Maria, mãe de Cristo) e todo o julgamento e controle que há em sermos “as putas”. Na verdade, essas são as mulheres independentes e autônomas que ocupam os mais diversos espaços públicos, não mais restritas ao espaço privado, e por isso são atingidas pela ala conservadora presente na atualidade.

No regime Taliban, a prática de apedrejamento, abolida há 8 séculos por Jesus e retomada nos dias atuais por meio da Lei da Sharia, mata mulheres em público acusadas de manterem relações sexuais fora do casamento. Quando não são mortas, as mulheres sob este regime autoritário e violento sofrem as mais diversas humilhações, a RAWA (Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão) elencou em 29 pontos as crueldades as quais as mulheres são submetidas.

Em junho no Rio de Janeiro, uma garota de 11 anos foi apedrejada e insultada por dois homens fundamentalistas, que não aceitaram o fato da garota estar vestida de branco e por ser do Candomblé. O caso foi registrado na 38ª Delegacia de Polícia de Irajá, Rio de Janeiro, como lesão corporal e intolerância religiosa, pelo artigo 20 da Lei 7.716, que prevê multa e punição com prisão de dois a cinco anos para a prática, indução ou incitação da discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Na Grande Vitória, ainda em de junho de 2015, um garoto de 14 anos foi morto a pauladas e a pedradas por gostar de desenhar e confeccionar roupas de bonecas. A mãe em entrevista relatou: “Muitas pessoas implicavam com ele, caçoavam e o xingavam. Implicavam com o jeito dele andar e por ele fazer roupas. Ele sofria muito, por isso meu filho era uma pessoa de poucos amigos e muito fechado” .

Judith Butler relata em vídeo um caso de um garoto de 14 que foi morto também por se apresentar feminino. No vídeo, Judith declara o medo, o pânico de pessoas presas às normas de gênero, ou seja, da imposição social que há em se seguir um padrão heteronormativo, masculino, não se seguindo esta norma a punição será a morte.

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“Princesas decadentes”, de Dina Goldstein.

E é na escola que essas imposições heteronormativas se apresentam para manter as relações de poder, a docilidade, reforçar as desigualdades, contribuir para que os papéis sociais de homens e mulheres heterossexuais sejam mantidos, ou seja, o pai (marido) trabalha enquanto a mãe (esposa) cuida do lar e dos filhos. E isso é visto nos livros didáticos e paradidáticos, nos quais não há personagens homossexuais; naquelas brincadeiras de criança, nas quais meninas brincam de casinha e meninos de carrinho; nas disciplinas diversas que anulam pessoas LGBTs, entre outros controles, como os dos corpos dxs alunxs, os quais são repreendidos por seu comportamento oposto ao padrão e no controle dos corpos dxs professorxs, que precisam manter um perfil heteronormativo a ser seguido, anulando assim o seu direito de ser e de desejar. Porém, há algo mais grave e silenciado: a agressão homofóbica na escola, como citou Judith Butler no vídeo acima, se não se segue a norma, xs sujeitxs serão punidos com violência física e verbal.

No mês de junho, municípios de todo o país encaminharam seus Planos Municipais de Educação para serem votados nas Câmaras e após votação, sanção dos prefeitos. Numa ação bem organizada e orquestrada, fundamentalistas religiosos de todo o país foram às Câmaras com faixas e cartazes expor aos vereadores reacionários seus ideais machistas e LGBTfóbicos. Conseguiram, de forma organizada, barrar todas as propostas que impediriam a continuação dessa educação heteronormativa, excludente e avessa aos Direitos Humanos e à diversidade. Seguravam faixas que diziam: “Educação sem gênero”; “Defendo a família”; “Respeito à família”; “Não à ideologia de gênero”; “Educação sexual compete aos pais”; “Joãozinho você não é menino – Eu não quero professor falando isso para meu filho”, entre outros dizeres preconceituosos e alienantes.

Vivenciamos uma conjuntura política, na qual forças reacionárias avançam na retirada de direitos das mulheres, dxs LGBTS, dxs pobres e dxs nergxs, ou seja, de todas as minorias. Precisamos, todas e todos, retirar as pedras do caminho para defender uma sociedade mais justa, diversa, livre e igualitária.
Nenhum direito mais será retirado! Seguiremos em marcha até que todxs sejamos livres!

*Yara Manolaque é professora e militante da Marcha Mundial das Mulheres de Pernambuco.

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