Hoje é dia 15 de maio: 67 anos da Nakba

“Dreams and Nightmares” by Nimer Al Azzeh - Centro Lajee - do Campo de refugiados de Aida - 2009

* Por Beatriz Troncone

Hoje é dia 15 de maio de 2015. Todo dia 15 de maio os ecos da Nakba – a tragédia da expulsão em massa dos palestinos de suas casas e da sua terra, quando da criação oficial do Estado de Israel – se fazem ouvir mais alto. Em todo o mundo fora dos territórios ocupados, refugiados palestinos espalhados pelo mundo relembram a tragédia e suas consequencias, a tragédia do passado ainda em andamento, ainda em execução. Hoje é dia 15 de maio de 2015. Completam-se hoje 67 anos de um ainda silenciado genocídio em andamento.

Há 67 anos deste ainda silenciado genocídio em andamento, fala-se em numeros altissimos de expulsões, deslocamentos forçados e em massa, violação de direitos humanos básicos, ocupoação ilegal de terras e aguas. Assassinatos.

E já que há 67 anos ainda precisamos de números, entre 750 mil e um milhão de palestinos foram expulsos e feitos refugiados por forças paramilitares sionistas israelenses durante a criação de Israel em 1947-49. Entre 250.000 e 350.000 de palestinos foram expulsos de suas casas por forças paramilitares sionistas entre a aprovação do plano de partilha da ONU em novembro de 1947 e declaração de Independência de Israel em 15 maio de 1948 – antes do início da guerra com os estados árabes vizinhos. 7,1 milhões de refugiados palestinos deslocados a partir de 2009, incluindo sobreviventes da Nakba e seus descendentes. Israel nega o seu direito garantido pela lei internaciona de retornar à sua terra natal simplesmente porque eles não são judeus. 150.000 palestinos permaneceram dentro do que se tornou as fronteiras de Israel em 1948, muitos deles ainda como deslocados internos. A esses palestinos (às vezes chamados “árabes israelenses”) foi concedida a cidadania israelense, mas foram despojados da maioria de sua terra e colocados sob lei marcial até 1966. Hoje 1,6 milhões de cidadãos palestinos vivem em Israel como cidadãos de segunda classe em sua própria pátria, sujeitos a mais de 50 leis que os discriminam, porque eles não são judeus. Aconteceram pelo menos duas dúzias de massacres de civis palestinos pelas forças sionistas e israelenses, que desempenharam um papel crucial na fuga forçada e em massa de palestinos de suas casas. Aproximadamente 100 civis palestinos, incluindo mulheres e crianças, foram mortos no massacre de Deir Yassin em 9 de Abril de 1948, por membros do Irgun e Stern Gang, organizações terroristas sionistas pré-Estado que eram lideradas pelos futuros primeiros-ministros israelenses Menachem Begin Yitzhak Shamir, respectivamente. Mais de 400 cidades e vilas foram sistematicamente destruídas pelas forças israelenses ou repovoadas com os judeus entre 1948 e 1950.

Cerca de 4.244.776 hectares de terras palestinas foram desapropriadas por Israel durante e imediatamente após a sua criação em 1948. E estima-se que os palestinos perderam entre 100 e 200 bilhões de dólares americanos, durante a criação de Israel.

Inundada de números, porque se precisamos de numeros há 67 anos deste ainda silenciado genocídio em andamento, é porque eles não bastaram, até agora, para parar o avanço colonialista e a continuidade da tragédia palestina. Hoje, 15 de maio de 2015, há 67 anos deste ainda silenciado genocídio em andamento, eu não gostaria que a minha voz, apenas, se fizesse ouvir, além dos números desumanamente não internacionalmente impressionantes, mas que todos os Tons de Raiva pudessem gritar nessa folha branca.

Tons de Raiva
(Rafeef Zyyada)

Permitam-me que fale minha língua árabe
antes que eles ocupem a minha língua também.
Permitam-me que fale minha língua-mãe
antes de colonizar a sua memória também.

Eu sou uma mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de raiva.

Tudo o que sempre quis meu avô foi
acordar de madrugada e ver minha avó ajoelhar e rezar
em uma vilinha escondida entre Jaffa e Haifa.

Minha mãe nasceu num pé de oliveira
num solo que eles dizem não ser mais meu,
mas eu vou cruzar suas fronteiras, seus postos militares, seus malditos muros do Apartheid
E vou voltar pra terra que é minha.

Eu sou uma mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de raiva.

E você ouviu ontem a minha irmã gritando
dando à luz em um barreira de verificação
com soldados israelenses esperando entre suas as pernas
pela a sua próxima Ameaça Demográfica
sua bebê chamada Jenin¿

E você ouviu Amni Mona gritando
por trás das grades da prisão enquanto eles lacrimogeneizavam sua cela
“A gente está voltando para a Palestina!”

Eu sou uma mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de raiva.

Mas me diga você, e este útero dentro de mim
só vai trazer sua próxima terroristinha
o barbudão, balançando a arma, um Salin, um seu Said.

Me diz você, eu envio os meus filhos para morrer,
mas são seus os helicópteros, são seus os F16 em nosso céu
E sobre este negócio terrorismo, só por um segundo,
Não foi a CIA que matou Allende e Lumumba
e que treinou Osama em primeiro lugar

Meus avós não correram como palhaços
com as capas brancas e capuzes brancos em suas cabeças brancas linchando pessoas negras!

Eu sou uma mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de raiva.

“Então, quem é essa mulher marrom gritando na manifestação?”
Oi? Eu não devo gritar?
Esqueci-me de ser seu sonho orientalista
Gênia na garrafa, dança do ventre, harém, mulher árabe de fala mansa
Sim Mestre, não Mestre.

Obrigado pelos sanduíches de pasta de amendoim
enquanto seus F16 chovem sobre nós, Mestre.
Sim, meus libertadores estão aqui para matar os meus filhos
e chamá-los de “danos colaterais”

Eu sou uma mulher árabe de cor e nós vimos em todos os tons de raiva.

Só deixa eu te falar uma coisa, esse útero dentro de mim
só vai trazer sua próxima rebelde
Ela terá uma rocha em uma mão e uma bandeira palestina na outra

Eu sou uma mulher árabe de cor…
Cuidado!

Cuidado, minha raiva…

Rafeef Ziadah é uma poeta palestina refugiada e ativista, vive atualmente em Londres.
Ficou conhecida por seus poemas “Shades of Anger” e “We teach life, sir!”, este ultimo sendo inspiração para uma mostra de fotografia que aconteceu no Parlamento escocês, “We teach life: Sons of Occupation “.

*Beatriz Troncone é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: