Mulheres no Ensino Superior: Conquistas e Desafios

Por: Bruna Rocha*

A pauta das mulheres está na agenda do dia. Toda luta empreendida pelas mulheres em todas as partes do mundo se reverberaram em uma agenda, cujo potencial disseminador ganhou dimensões espetaculares com as novas tecnologias da informação, as redes sociais e a internet. No Brasil, os programas de transferência de renda, a institucionalização de políticas públicas voltadas para as mulheres, sem dúvida, foram fundamental para o nosso crescente empoderamento. A universidade está no centro deste projeto de emancipação.

De acordo com o Censo de 2010,  as mulheres representam 55,5% das matrículas nas instituições de ensino superior, e  59,2% entre concluintes. Na Bahia, esse número está em torno de 58,9%. Entretanto, estes dados nada têm a ver com o discurso triunfalista que diz que já conquistamos tudo que queríamos, uma vez que este universo corresponde apenas a 7,49% das mulheres baianas. Ainda convivemos com um modelo patriarcal de universidade, calcado no machismo institucional e no sexismo epistemológico. O que isso significa? Que ainda há uma divisão sexual das áreas de conhecimento, tendo cursos ditos como “femininos” – normalmente relacionados às áreas do cuidado, como pedagogia, secretariado e enfermagem – e os cursos ditos como “masculinos”, que dizem respeitos às áreas mais “produtivas” e “técnicas” como as engenharias, sobretudo. Isso tem total implicação na diferença de salários com os homens.

O Censo mostra que mulheres com 25 anos ou mais de idade estão em maior proporção nas áreas “Educação” (83,0%) e “Humanidades e Artes” (74,2%), cujo rendimento mensal médio  é mais baixo. Em profissões com certa equivalência na ocupação de cargos por homens e mulheres, como na de “Ciências Sociais, Negócios e Direito”,  identifica-se que mulheres recebiam 66,3% do rendimento dos homens.

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Mulheres Negras e desafios mais profundos

Não é novidade que, nós, mulheres negras caminhamos a passos mais lentos na empreitada geral das mulheres, tanto no acesso à educação quanto a outros direitos básicos,  como saúde e trabalho.

Voltando aos índices do IBGE, vemos que somos 30,1% entre as mulheres universitárias,  sendo que representamos apenas 11,2% do conjunto de mulheres negras com acesso ao ensino superior. Em compensação,  somos 57% das trabalhadoras domésticas e 62,3% das trabalhadoras sem carteira assinada. Se levarmos em consideração o fator regional, os números são ainda mais agravantes.

No Nordeste, 50,8% das mulheres negras têm rendimento até um salário mínimo, bem como 59,3% das mulheres nas áreas rurais desta mesma região.

Machismo/Racismo Institucional: como enfrentar?

O machismo institucional é um importante entrave no desenvolvimento acadêmico e até mesmo na permanência das mulheres nas universidades. Este fenômeno social vai desde ao assédio moral e sexual (como as piadas machistas de alunos e professores, os trotes violentos que leiloam calouras e até mesmo os casos de estupro), até à ausência de condições estruturais que afetam sobretudo as mulheres mais vulneráveis socialmente, a exemplo das mães. As creches universitárias e escolas de aplicação são uma reivindicação histórica deste setor e precisam ser implementadas enquanto política de combate ao machismo nas universidades.

É fundamental ainda rever a política de expulsão de mulheres que engravidam das residências universitárias, pois quase sempre, nestes casos, estas mulheres acabam abandonando seus cursos e voltando para suas cidades, por não terem onde morar com seus filhos. A assistência estudantil tem um impacto ainda mais relevante para mulheres negras, que são maioria entre as cotistas.

É imprescindível consolidar instrumentos efetivos de coerção dos casos de violência sexista nas universidades, combatendo o machismo, a lesbofobia, a transfobia, tornando a vida acadêmica das mulheres mais saudável e livre para a formulação, a produção do conhecimento, o empoderamento político. Ter disciplinas obrigatórias em gênero e raça está no centro desta agenda.

Também é preciso combater o machismo e o racismo nos espaços do movimento estudantil. Não raro sabemos e vivenciamos casos de violência e constrangimento por parte de companheiros nos Centros Acadêmicos, Diretórios Centrais e até mesmo nos espaços estaduais e nacionais. Acreditamos no feminismo enquanto ferramenta essencial de empoderamento das mulheres nas universidades e em todos os espaços da sociedade.

Auto-organizadas enfrentamos o machismo, superamos a violência e nos ajudamos no dia a dia, com práticas solidárias e coletivas.

Com muita luta chegamos até aqui chegamos até aqui e visualizamos no nosso horizonte uma universidade calcada em valores feministas, anti-racistas e consonante com a incrível diversidade presente em nosso estado.

Pré-EME da UEB, Salvador-BA 2015.

Pré-EME da UEB, Salvador-BA 2015.

6° EME da UNE

O 6° Encontro de Mulheres Estudantes da UNE, que acontece de 1 a 3 de maio, em Curitiba,  será um espaço fundamental para fortalecermos nossas pautas e traçar os próximos passos desta luta. Para além de acumular sobre as demandas já apresentadas, devemos nos preparar para enfrentar a agenda conservadora em curso no Congresso Nacional, a qual atinge sensivelmente as mulheres,  e mais ainda, as mulheres negras.

Lutar contra o PL 4330,  repudiar a PEC da Redução da Maioridade Penal e reafirmar valores progressistas é, inequivocamente, um desafio central para a mulherada da UNE. Mais democracia! Mais direitos! Diante da luta das mulheres estudantes e trabalhadoras, nenhum passo atrás. A Reforma Política é também uma questão dorsal para que tenhamos maior representatividade nos espaços de poder e não tenhamos mais que conviver com um legislativo tão conservador e fascista como o atual.

Até que todas sejamos livres!

Bruna Rocha é Diretora de Mulheres da União dos Estudantes da Bahia (UEB) e militante da Marcha Mundial das Mulheres da Bahia.

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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