Sobre descobrir-se: identidades (des)construídas e a importância do reconhecimento

*Por Fernanda Kalianny

A 19º Parada do Orgulho LGBT de São Paulo traz como tema esse ano “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim: respeitem-me”. A princípio, poderíamos, estando longe da realidade LGBT, achar um tema interessante. Mas será mesmo que todas/os nascemos, crescemos e sempre seremos assim? Ao nos encontrarmos e reconhecermos em alguma identidade estamos apenas trazendo à tona aquilo que nós sempre fomos e seremos?  A princípio, diria que não. Mas explico: pensando não apenas minha experiência enquanto mulher negra e lésbica, mas também na experiência de outras mulheres que poderiam ser encaixadas nas mesmas categorias, todas essas identidades são assumidas por nós a partir de uma desconstrução do que nos é colocado, isto é, através de um processo em que nos reconstruímos ou descobrimos.

Para começar, podemos pensar a questão racial. Vivermos em um país miscigenado não é novidade. E não o é porque é evidente, tanto no pensamento impregnado de que somos um povo pacífico e que não existe racismo, como na tentativa de nos fazerem pensar que nem somos tão negras/os assim.   A forma de pensarmos as pessoas negras e brancas não segue uma regra que é explicitada pela sociedade, nem uma única regra. No caso de pessoas como eu, filha de mãe negra e pai branco, encontramo-nos em uma fronteira entre identificarmo-nos enquanto negros ou apenas como “não-brancos”. No decorrer de nossas vidas, vários são os adjetivos utilizados para referirem-se à nossa cor/raça: moreninha, morena jambo, escurinha, mulatinha… A lista cresce rapidamente. Até entendermos que somos negras/os e que não precisamos nos utilizar de nenhuma dessas categorias leva um longo tempo. Foi apenas no convívio com um professor do movimento negro, aos 18 anos, que me reconheci como negra. E foi apenas a partir das experiências em uma universidade elitista, quando sai do lugar que me era reservado pela sociedade, que senti de forma mais marcante o racismo e a discriminação.

Mas mesmo quando pensamos em ser “mulher” não podemos pensar em uma identidade fixa, que está estabelecida desde sempre. Retomo a famosa máxima de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se”. E ao tornarmo-nos mulher, nem sempre tomamos consciência de qual é o fardo ou o processo que carregamos. O contato com o movimento feminista, com as leituras que pensam o gênero e a divisão sexual como um dos primeiros processos que estabelecem a diferenciação e a distribuição de poder na sociedade, em meu caso, veio depois de me reconhecer como negra. Perceber que “ser mulher” ou “ser homem” nada tem a ver com genitália, mas com uma construção de uma identidade de gênero, portanto, foi algo posterior, e que eu diria, inclusive, mais custoso. Nessa junção, ao descobrir-me negra e ao mesmo tempo mulher, houve um processo de perceber que as situações vividas por mim não se restringiam a mim. Identificar-se com um coletivo – mulheres negras, nesse caso – é como conseguir, a partir disso, encontrar um lugar que podemos ocupar ou, melhor que isso, reconhecer-se enquanto um indivíduo que possui pares, nos possibilita encarar e reagir aos acontecimentos que perpassam a nossa existência.

Com relação a sexualidade, não é algo diferente. Nem todas as pessoas tem clareza sobre sua sexualidade desde crianças ou adolescentes. No caso das mulheres especificamente, somos educadas para buscar alguém que nos preencha – mas esse alguém não é qualquer pessoa: é um homem. Entendenddo a heterossexualidade como algo “natural”, nunca nos perguntam se somos heterossexuais. A pergunta vem sempre no tom de descobrir se somos parte ou não dos “desviantes”, daqueles que representam uma “anormalidade” dentro das normas. Pensando nas mulheres negras, o mais cruel dessa heterossexualidade, que também implica em uma noção de família com “papai, mamãe e filhinhos”, é que na divisão entre “santas” e “putas”, que ainda perdura de algum modo no imaginário social, estaremos sempre mais próximas das “putas”. O direito a ter uma família, portanto, será continuamente negado.

O reconhecimento do próprio corpo, dos prazeres, sensações não é assim um dos pontos mais centrais na vida das mulheres. Pode levar anos até que uma mulher possa se reconhecer como lésbica ou bissexual. Há, normalmente, uma sexualidade direcionada a dar prazer, a mostrar o quanto se pode oferecer e quase nunca uma preocupação com o que se recebe em troca. Perceber-se como uma mulher que gosta de outra mulher torna-se, portanto, um processo que muitas vezes só é possibilitado a partir do momento em que individualmente – por vezes através do apoio de outras amigas les.bis – nos abrimos para nos conhecer e desconstruir o que entendemos como amor, prazer ou tesão. Esse processo pode ser duplamente libertador: primeiro porque possibilita uma redescoberta e reconstrução enquanto mulher, do próprio corpo, bem como das emoções; e segundo porque possibilita fugir desse ideal de família implícito, que em muitos casos vira um tipo de escravidão em uma busca por um “príncipe” perfeito.

Nas três condições tratadas aqui – racial, de gênero e sexualidade – não há nada que seja assim tão óbvio, enquanto crescemos (o que muda, na questão racial, se falarmos de pessoas negras com o tom de pele mais escuro; ou se falarmos em pessoas trans que se reconhecem assim desde crianças; e em diversos outros casos, que não me vem à mente agora, mas que tenho consciência que existem).  E pensando precisamente em gênero e sexualidade, talvez não exista nada assim tão fixo. Talvez possamos pensar mais em estados do que em “ser” duramente algo específico. Mas tudo isso para rebater que nem todas/os “nascemos, crescemos e seremos sempre assim”, o que não nos faz menos negras/os, lésbicas, mulheres ou bissexuais. O poder de desconstruir-se e construir-se é algo que nos é possibilitado e que pode ser delicioso. Portanto, não nos fechemos em caixinhas, abramo-nos para descobrir onde seremos felizes, sabendo que a felicidade virá quando nos sentirmos livres e plenas. Avancemos em busca de uma sociedade com menos caixinhas, onde existir possa ser algo mais parecido com um leque colorido de opções, em que cada um possa viver como se quer viver.

 *Fernanda Kalianny é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo.

Comments

  1. sonia Maria dos santos says:

    Parabéns Fernanda , texto ótimo

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