Não, não é engraçado

Certamente, todos aqueles que têm o hábito de acessar a internet veem e compartilham, no caso do facebook, uma série de piadas que os fizerem rir, acompanhando essas piadas também podem ser vistas nos comentários dos amigos uma série de reações as mesmas, ou ainda o compartilhamento das notícias de processos em cima desse ou daquele humorista por conta de uma piada. Diante de tal observação, muitos falam que são reações exageradas porque é “só uma piada”, acusando aqueles que manifestam sua revolta ou que se sentem ofendidos de “não terem senso de humor”. Esses incompreendidos e inocentes humoristas online costumam basear a sua defesa no fato de que uma coisa engraçada não carrega um discurso político, acontece que esse é um grave equívoco. A começar pelo fato de que a piada é um gênero que veicula uma visão sintetizada dos problemas de uma sociedade através, sobretudo, de estereótipos, dessa forma é muito ingênuo pensar-se que não existe uma significação para além do riso, o qual não está presente naqueles que percebem a opressão presente nesse discurso.
Como estamos no mês em que se é comemorado o Dia Internacional das Mulheres, garanto que no dia oito de março houve uma grande movimentação sobre o tema nas redes sociais, no entanto apenas uma pequena parcela foram manifestações de reconhecimento das mulheres como inidvíduos que merecem a garantia dos direitos, a condição de vida, a liberdade de escolha, a soberania sobre seu corpo e o respeito que devem ser atribuídos a qualquer ser humano. A parte aos parabéns e às rosas, que não contemplam o que este dia representa e apenas reforçam o estereótipo da mulher frágil, além de não represetar mais do que a hipocrisia, pois os mesmos homens machistas que oprimem e subjulgam as mulheres de seu convívio enchem a boca para falar um “parabéns” que soa mais como um “continue quietinha e submissa”, e a parte a muitos outros comportamentos contestáveis, vamos tratar das piadas que ganharam lugar nesses dias.
Uma hora ou outra, vagando pelo facebook ou ao ligar a televisão, fomos obrigadas a ver imagens, ou ouvir piadas de mesmo conteúdo, que traziam uma cesta com materiais de limpeza embrulhados para presente ou rosas embrulhadas em notas de cinquenta além de outros exemplos, todas com a legenda de “feliz dia da mulher”, algumas até afirmando que é necessário se comemorar com bom humor. Por isso, nós convidamos a uma reflexão sobre o que significa este tipo de discurso.
Colocamos a piada como discurso, a partir da definição introduzida por Foucault, em Arqueologia do Saber, de formação discursiva que é caracterizada como grupos de enunciados que atuam no campo da história e na qual o discurso, o sujeito e o sentido se encontram. Ou ainda pela definição de Pêcheux que afirma, em Semântica e Discurso – uma crítica à afirmação do óbvio, que a formação discursiva é o lugar onde se articulam o discurso e a ideologia. Desse modo, ainda que alguém reproduza uma piada de forma ingênua, ela está juntamente a isso reproduzindo um determinado discurso e uma ideologia.
Agora nos resta perguntar, qual o tipo de ideologia veiculada por esse tipo de piada?
Ao reproduzirmos os estereótipos da nossa sociedade machista e patriarcal, estamos atribuindo maior alcance a esse tipo de discurso que coloca as mulheres como seres naturalmente ligados ao lar e aos filhos, ou seja, à reprodução, sem que nem ao menos as atividades domésticas que lhe são atribuídas sejam reconhecidas como trabalho, ao mesmo tempo em que o homem se matém sob o mito do provedor e daquele que detem o controle, ou ainda discursos que insistem em classificar as mulheres como santas ou profanas, ou em afirmar uma feminilidade supostamente natural nas mulheres. Logo, todas essas piadas caracterizam a reprodução e a manutenção de um discurso de opressão atuante historicamente, por isso afirmamos que não, não é engraçado. E ao invés de nos acusarem de pessoas sem senso de humor, procurem compreender a significação por trás do discurso que está transmitindo e as consequências disso.
Por Isadora Pontes
militante do coletivo Maria Maria, núcleo da Marcha Mundial das Mulheres em Juiz de Fora

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