Jin, Jiyan, Azadî: Abertura da IV Ação Internacional no Curdistão

Por: Mariana Armond Dias Paes*

A 4ª Ação Internacional da MMM

De cinco em cinco anos, a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) realiza uma ação internacional para denunciar o patriarcado e a opressão das mulheres em todo o mundo. Neste ano, mulheres de diversos países sairão às ruas para demandar igualdade, liberdade, justiça, paz e solidariedade. As atividades se iniciaram no 8 de março – Dia Internacional da Mulher – e continuarão até 17 de outubro – Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

Na Europa, as diversas coordenações da MMM decidiram lançar uma Caravana Feminista que percorrerá todo o continente durante os setes meses da 4ª Ação. A Caravana teve como ponto de partida a cidade de Nusaybin, no Curdistão turco, e terá como ponto de chegada Coimbra, em Portugal. Serão percorridas as seguintes regiões: Turquia, Grécia, Balcãs, Itália, Suíça, França, Bélgica, Alemanha, Polônia, Hungria, Áustria, Catalunha, País Basco, Galícia e Portugal. O objetivo é conhecer as diversas lutas travadas pelas mulheres contra o patriarcado e o capitalismo. Conhecendo essas experiências, será mais fácil conectar as diversas lutas por liberdade e emancipação das mulheres ao redor do mundo.

O povo curdo e o Confederalismo Democrático

Mas por que o Curdistão foi escolhido como o ponto de partida da Caravana Feminista? Para entender essa escolha, é necessário descrever alguns aspectos da organização política do povo curdo.

Os curdos são aproximadamente 26 milhões de pessoas e são a maior etnia do mundo sem Estado. Após a I Guerra Mundial, eles ficaram divididos entre Turquia, Síria, Iraque e Irã. Em muitos desses países, o povo curdo foi duramente reprimido. Na Turquia, país que abriga aproximadamente metade de toda a população curda, foram adotadas, até 1991, diversas medidas para sufocar a cultura curda: o uso da língua curda era ilegal; havia proibição da expressão da identidade étnica, como, por exemplo, a comemoração do ano novo curdo (Noruz, 21 de março); eram vedadas transmissões de rádio e televisão em curdo; dentre outras.

No final da década de 1970, foi fundado o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), sob liderança de Abdullah Öcalan. Entre 1984 e 1999, o PKK promoveu uma luta armada contra o Estado turco. Nesse período, a Turquia se viu imersa em uma guerra civil, com as reações do Estado turco aos ataques do PKK e com a prisão de muitos militantes, inclusive, Öcalan. No começo dos anos 2000, o PKK alterou sua orientação política. Os atos de violência cessaram e se iniciou um período de negociações com o governo turco.

Paralelamente, formulou-se uma ideologia chamada de “Confederalismo Democrático”. O Estado Nacional passou a ser visto, por eles, como uma estrutura hegemônica que produz e reproduz opressões, devendo, portanto, ser superado. Por isso, atualmente, os curdos que se identificam com as teorias de Öcalan clamam por autonomia dentro de Estados democráticos (Turquia e Síria). Eles não querem mais se separar desses Estados e formar um Estado Nacional próprio, mas viver com autonomia dentro de regimes democráticos. Desde então, partidos curdos foram criados na Turquia, como, por exemplo o People’s Democratic Party (HDP) e o Democratic Regions Party (DBP).

O povo curdo tem procurado implementar as premissas do Confederalismo Democrático na Turquia, mas encontra resistência. Já na Síria, a situação é diferente. Aí, eles conseguem colocar em prática um novo sistema de organização política. Atualmente, o povo curdo tem o controle, de fato, de três regiõeMapa Rojavas sírias: Afrin, Jazira e Kobani. Esses três cantões, que são geograficamente separados, formam a região de Rojava. Doze cidades fazem parte de Rojava, sendo Qamishli – cidade “gêmea” de Nusaybin, onde teve início a Ação Internacional – a maior delas. Rojava tem uma população de, aproximadamente, 3 milhões de pessoas. A região é controlada pelo Democratic Union Party (PYD), partido curdo da Síria que também defende as premissas do Confederalismo Democrático. Aí, o povo curdo está travando duas batalhas: barrar o avanço do Estado Islâmico (ISIS) na região e implementar o Confederalismo Democrático.

O Confederalismo Democrático se apoia em premissas anti-Estado e anti-capitalistas. São os seus fundamentos teóricos que estão na base da constituição adotada pelos cantões: o Contrato Social dos Cantões de Rojava na Síria. Rojava não se organiza em torno de um sistema representativo, mas de uma democracia direta. Os cantões são governados por Assembleias Populares. Em cada cantão, há, ainda, uma co-presidência, composta por um homem e uma mulher. Esse poder executivo funciona como um coordenador das decisões tomadas nas Assembleias Populares e pode ser destituído a qualquer momento. As primeiras eleições ocorreram há, aproximadamente, seis meses e não ocorrerão periodicamente: o governo será mantido ou destituído de acordo com o que o povo considerar necessário. Os outros grupos étnicos e religiosos que habitam Rojava também têm participação na administração dos cantões.

Em relação à economia, procura-se superar o sistema capitalista. No entanto, ainda não está muito claro que modelo será implantado na região e estão sendo criadas academias econômicas para que esse ponto seja discutido. Por ora, a economia está sendo organizada por meio de cooperativas. Por ser rica em petróleo e oliva, muitas empresas estão atentas ao que se passa na região. Porém, os partidos afirmam que são contra monopólios e privatizações.

No que diz respeito à segurança da região e ao combate contra o ISIS, o povo curdo se organiza em brigadas armadas, chamadas de Unidades de Proteção do Povo (YPG) e Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ). As YPJs são compostas e comandadas por mulheres curdas e foram as grandes responsáveis pela derrota do ISIS na cidade de Kobane, há alguns meses. Após essa vitória, as YPJs tiveram relativa visibilidade na grande mídia internacional. Porém, a luta das mulheres curdas contra a opressão e o patriarcado começou há mais de vinte anos e é muito mais abrangente do que a luta armada contra o ISIS.

O movimento de mulheres curdas

“Jin, Jiyan, Azadî”. “Mulher, vida, liberdade”. Essas foram as palavras de ordem entoadas durante toda a abertura da Caravana Feminista. As mulheres curdas têm uma longa história de enfrentamento ao patriarcado e, durante a abertura da Caravana Feminista, diversos aspectos dessa luta ficaram visíveis. A cultura “tradicional” curda é machista e opressora em relação às mulheres e, mesmo dentro de organizações e partidos de esquerda, as mulheres curdas enfrentavam o silenciamento de sua voz e, a partir daí, perceberam que só seriam ouvidas por meio da auto-organização. Com o tempo, baseados em teorias feministas de esquerda, os partidos começaram a criar mecanismos que garantem a participação das mulheres na vida política. O feminismo passou a ser visto como um requisito para a liberação do povo curdo.

A publicação da Ideologia da Liberação das Mulheres fortaleceu a proposta de auto-organização das mulheres. Naquele período, as mulheres curdas organizaram várias associações, dentre elas o Congresso de Mulheres Livres (KJA), que atuou junto com a MMM na organização do último 8 de março no Curdistão turco. Hoje, a participação das mulheres na política figura como um dos pilares do Confederalismo Democrático: além do sistema de co-presidência nos órgãos executivos, garante-se, nos órgãos colegiados, uma participação de mulheres de, no mínimo, 40% das vagas do órgão em questão. Os partidos curdos que atuam na Turquia defendem, no parlamento, medidas em prol das mulheres e das questões LGBT. O HDP garante, em suas listas eleitorais, uma cota de 50% para mulheres e 10% para LGBTs. Os homens com histórico de violência doméstica e poligamia são excluídos das organizações.

Mudanças também estão sendo feitas no ordenamento jurídico da região. O Código Civil proíbe o casamento de pessoas menores de 18 anos; casamentos forçados; mercantilização de casamentos; poligamia; dote; etc. Por outro lado, garante igualdade no direito de herança entre homens e mulheres e igualdade no trabalho. Foi também promulgada uma lei que estabelece que os testemunhos judiciais de mulheres têm igual valor aos dos homens. Antes, vigorava no direito sírio a regra de que o testemunho de um homem valia o de duas mulheres.

As mulheres curdas também estão conscientes de que só a mudança nas leis não é suficiente para acabar com o machismo e a violência contra a mulher. Por isso, atuam no âmbito da educação, principalmente com as Academias de Mulheres; no amparo às mulheres, com uma estrutura de Casas de Mulheres, com apoio jurídico, psicológico, médico, etc.; na autonomia econômica da mulher, mediante cooperativas de mulheres.

Início da Caravana Feminista

Diante desse quadro de implementação de uma nova ordem social e do papel fundamental que as mulheres estão desempenhando nesse processo, o Curdistão turco foi escolhido como ponto de início da Caravana Feminista e de lançamento da 4ª Ação Internacional da MMM. O lançamento se deu no dia 6 de março, em Nusaybin, cidade turca na fronteira com a Síria. Nesse primeiro dia, as representantes da MMM de diversos países se reuniram com as mulheres locais em um centro de convenções. Também estavam presentes mulheres curdas de outras regiões como, por exemplo, Rojava.

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No período da manhã, ocorreram duas conferências simultâneas. Uma sobre a Revolução de Rojava e outra sobre ecologia. O painel sobre a Revolução de Rojava contou com a participação de Hiva Erabo, presidenta da Corte de Justiça do Cantão de Jazira. Ela ressaltou a participação das mulheres na construção de uma nova organização social e frisou o papel que a educação representa nesse processo. Também falou a coordenadora do KJA, Melike Karagöz, que discorreu sobre o Confederalismo Democrático. Da mesa sobre ecologia, participaram as ambientalistas Trude Muyrath e Ulrike Brown, que fazem parte da MMM na Alemanha, e Zeynep Akıncı, do Mesopotamia Ecology Movement. Após discutir sobre as relações entre a construção do Estado Nacional turco e a destruição da natureza, as expositoras propuseram a formação de um Comitê Ecológico da MMM. As discussões dos painéis foram seguidas de um vídeo sobre os movimentos de mulheres curdas e sua luta armada contra o ISIS.

Na parte da tarde, ocorreram outros dois painéis simultâneos: um sobre trabalho e violência contra as mulheres e outro sobre Jineologî, uma epistemologia baseada no conhecimento tradicional das mulheres curdas. Participaram do painel sobre trabalho e violência contra as mulheres Mukaddes Alataş, da KJA; Mariana Dias Paes, da MMM do Brasil; Vania Martins, da MMM de Portugal; e Gülistan Atasoy, secretária de mulheres da Confederation of Public Workers’ Unions (KESK). Mukadess Alataş explicou o funcionamento da rede de proteção às mulheres no Curdistão. Mariana Dias Paes tratou das relações entre a desvalorização do trabalho das mulheres brasileiras e a violência contra elas, bem como do impacto dessas questões na participação feminina na vida política. Vania Martins abordou o tema da insuficiência dos abrigos para mulheres vítimas de violência na Inglaterra e em Portugal. Gülistan Atasoy tratou da exploração das mulheres pelo capitalismo. Já o painel sobre Jineologî contou com a presença da bióloga Necla Köroğlu; de Yeter Barba, da Young Women’s Assembly; e Çimen Işık, membro do comitê de administração local do DBP. Yeter Barba argumentou que a auto-defesa é um princípio importante para a Jineolojî, já que as mulheres são, há séculos, massacradas pelos homens. Necla Köroğlu descreveu as iniciativas educacionais do projeto sobre Jineolojî. Çimen Işık argumentou que Jineolojî é uma epistemologia nascida do conhecimento próprio das mulheres.

No dia seguinte, 7 de março, foram realizadas duas manifestações. Na parte da manhã, as mulheres marcharam na fronteira que separa Nusaybin da Síria. Do lado sírio, também havia mulheres realizando uma marcha simultânea. O que separava essas mulheres era um campo minado e tanques, mas sua luta por paz e liberdade era comum. Grande parte da população local se juntou à marcha ao longo do percurso. Em um dado ponto da fronteira, havia um palco montado, no qual diversas mulheres realizaram discursos. Entre um discurso e outro, eram entoadas canções curdas que descreviam a luta do povo por reconhecimento e sua batalha contra o ISIS.

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Na parte da tarde, as militantes da MMM foram para Mardin, uma cidade turca há aproximadamente 70 km a noroeste de Nusaybin. Em Mardin, também participaram de uma manifestação pela paz e pelo fim da violência contra as mulheres. Foi a primeira marcha de mulheres da história da cidade. Ao final, as mulheres curdas fizeram uma apresentação de músicas típicas.

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No dia seguinte, 8 de março, as militantes da MMM foram para Diyarbakir, uma das maiores cidades do Curdistão turco. A princípio, Diyarbakir tinha o nome curdo de Amed, mas o governo turco substituiu todos os nomes curdos de cidades por nomes turcos. A manifestação do 8 de março contou com forte presença da polícia. Os policiais estavam portando armamento de maneira ostensiva e, para se chegar ao local onde o palco estava montado, era necessário passar por revista policial. Assim como no dia anterior, houve discursos de mulheres e muita música curda. Em um dado momento, militantes da MMM da França subiram ao palco e expressaram sua solidariedade à luta das mulheres curdas contra o patriarcado.

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A Caravana Feminista seguiu, então, o seu caminho, passando por outras cidades da Turquia até chegar à Grécia. Na Turquia, a passagem da Caravana foi coberta pela Jinha, uma agência de notícias composta só por mulheres.

Reflexões para fazer avançar o feminismo popular

Foram três dias de convívio diário com pessoas diretamente envolvidas na construção de uma sociedade mais igualitária. Muitas vezes, a comunicação era difícil, pois muitas mulheres só falavam curdo. Mas era evidente que estavam muito felizes com a presença das estrangeiras e queriam, a todo momento, saber o que pensávamos de sua revolução. Era claro que, para aquelas pessoas, a aprovação internacional é algo importante e joga um papel fundamental na consolidação do novo regime.

Rojava, no entanto, ainda não é um lugar perfeito, onde todas as opressões foram abolidas. Um relatório recente da Human Rights Watch, por exemplo, denunciou a existência de prisões arbitrárias na região e condenou o recrutamento de jovens menores de 18 anos para as forças armadas. Além disso, as mulheres ainda enfrentam situações de opressão e lutam cotidianamente para fortalecer as instituições que criaram.

Outra questão é a militarização da sociedade. O discurso do povo curdo – e também do seu movimento de mulheres – é muito marcado pela militarização. As combatentes são exaltadas como verdadeiras heroínas e é muito forte o culto às “mártires”, que morreram lutando. Tudo isso causa certo desconforto a militantes de esquerda pacifistas que nunca presenciaram uma situação de guerra. Em sua defesa, as mulheres curdas argumentam que a luta armada é defensiva, tem como único objetivo frear o avanço dos membros misóginos do ISIS, uma organização que vende mulheres capturadas como escravas sexuais.

Mesmo com todos os problemas, o fato é que um novo modelo de sociedade está sendo implementado no Curdistão e, em especial, em Rojava. É um modelo mais igualitário e inclusivo, na construção do qual as mulheres têm um papel fundamental. Assim, o movimento feminista internacional e os movimentos de esquerda em geral deveriam voltar um pouco sua atenção para essa região longínqua do mundo. Pode ser que aí estejam sendo gestadas novas ideias que permitam a criação de sociedades mais justas e igualitárias.

Alguns vídeos:

*Mariana Armond Dias Paes é militante do Núcleo Helenira Resende da Marcha Mundial das Mulheres.

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