Estupro não é roteiro de stand-up comedy

*Por Marília Sampaio

Foi ao ar na semana passada, no programa do já conhecido por suas declarações sexistas, racistas e homofóbicas, Rafinha Bastos, uma entrevista com o ator (?), comediante (?), subcelebridade pornô, Alexandre Frota. Nela, Frota declarou, sob aplausos e gargalhadas do apresentador e da plateia, ter feito sexo sem consentimento com uma mulher, que fez questão de frisar, era uma mãe de santo. Confessou assim, em rede nacional, ter praticado um crime hediondo: o estupro.

Narrando o ocorrido com muita naturalidade e um tanto de orgulho, Frota afirmou ainda que a mãe de santo chegou a ficar desacordada, devido o uso exagerado de força em seu pescoço, mas mesmo assim ele finalizou o ato. Terminada a narração, o apresentador Rafinha pediu palmas. Nada surpreendente para quem há alguns anos afirmou que “toda mulher que é estuprada é feia” e que mulher feia ser estuprada “não é crime, é oportunidade” e que elas (ou nós) deveriam agradecer por isso.

A entrevista, na verdade é uma reprise, mas somente agora tomou grande repercussão. Frota alegou que “é uma história contada em forma de piada, com humor”, alegando que tem a liberdade de “criar e roteirizar”. Rafinha o defendeu no Twitter: “É uma história inventada”.

Ainda que a história fosse mentira, que tipo de entretenimento é esse que banaliza o estupro como algo aceitável e pior, engraçado? O fato da mulher em questão ser de uma religião de matriz africana e o modo como ele ironiza, debocha e ri dessa peculiaridade demonstra ainda traços de racismo e preconceito religioso. 

frota2Porém, mais chocante do que o absurdo da confissão, o pedido de palmas do apresentador e as gargalhadas das pessoas presentes são os textos e alguns comentários na internet, onde alguns defendem que “não fica claro que o sexo não foi consensual”. Por acaso numa relação sexual consentida alguém precisa empregar força demasiadamente? É comum após o ato sexual deixarmos o parceiro, no caso, a parceira desacordada?

Não é necessário nenhum grande esforço de interpretação para perceber que a história se trata, sim, de um estupro. Os argumentos pra tentar provar que o sexo foi consentido (porque, na narrativa, Frota não falou que ela gritou, pediu para parar ou lutou contra) são na verdade mais uma tentativa do machismo de nos induzir a pensar que a culpa é sempre da vítima, que ela pediu ou desejou a violência.

Ainda que o estupro não tivesse ocorrido ou que a história fosse inverídica, não diminui a violência simbólica que é essa declaração em rede nacional, a todas nós, mulheres do Brasil. Aqui, uma mulher é estuprada a cada quatro minutos e sabemos que esse número alarmante é ainda maior, considerando que nem todos os casos são registrados. Essa estatística é produto de uma cultura que valoriza e banaliza a violência sexual.

A cultura do estupro fomenta a objetificação dos nossos corpos e rouba o protagonismo da nossa sexualidade, consolida o discurso do assédio, da desigualdade entre gêneros e dissemina o ódio às mulheres. Isso fomenta novos estupros. De fato, o estupro é decorrência de inúmeras outras violências praticadas contra nós, nessa cultura misógina e opressora. É preciso romper esse ciclo.

frotaNão podemos permitir que a violência que nos machuca diariamente, que mata, que oprime, seja motivo de piada e audiência, em uma emissora de televisão concessionária de serviço público. Estupro é crime, não é roteiro para stand-up comedy. A Rede Bandeirantes, o apresentador Rafinha Bastos e Alexandre Frota devem responder judicialmente pela incitação da violência sexual, por misoginia, racismo.

Chega de violência!

Está circulando uma petição para a investigação do caso. Clique aqui para assinar!

*Marília Sampaio é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Distrito Federal.

Comments

  1. Esse Nojento fez filme pornô !!!!!! O que é de se esperar ????????? Só tem uma coisa que muita gente se esquece : pra existir filme pornô, tem que existir o consentimento de uma MULHER.. Pra existir Paniquetes, tem que existir bundas e peitos siliconados com o consentimento de uma MULHER… As mulheres tem que aprender a parar de pactuar com o patriarcado e aprender a criar filho homem…

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