“Família não é sangue, é sintonia”

Por: Cinthia Abreu.

Assumir para nossa família uma identidade de gênero ou orientação sexual considerada como desviante pela sociedade capitalista, machista e patriarcal em que vivemos é sempre um desafio. O primeiro de muitos, mas o seio familiar é especial, pois nele deveríamos encontrar força para enfrentar os outros desafios, quer na escola, no trabalho e em toda a sociedade.

Quando nós LGBTs nos assumimos para nossa família, não queremos ser apenas aceitos, queremos ser acolhidos e respeitados por inteiro. Nossos jeitos, cabelos, expressões corporais, nossos grupos de amigas sapatão, com cabelos no suvaco pra fora, bermudas mostrando a cueca; ou amigos gays, pintosas, alegres e irreverentes, pois esses são também nossa família, aquele grupo que escolhemos para viver, amar, compartilhar, sorrir, dançar ou chorar, onde somos iguais, onde nos vemos e nos identificamos.

Ato do 8 de março de 2013 em São Paulo. Foto: FdE)

Ato do 8 de março de 2013 em São Paulo. Foto: FdE.

 Muitas amigas lésbicas, bissexuais e/ou trans sofrem com a invisibilidade dentro da família, quando os familiares sabem, mas tratam como algo inexistente ou agem de maneira perversa e nos rejeitam. Nessas horas, a dor é insuportável, muitos casos de rejeição são vinculados a episódios de violência física e psicológica, praticadas frequentemente por pessoas que deveriam nos proteger, por saber que somos vulneráveis a violência motivada pelo ódio e intolerância.

 A família quando descobre que tem filhos LGBT tem uma oportunidade única na vida de viver e conviver, sobretudo conhecer melhor as nossa causas e lutas. Quando somos aceitos nossa família cresce, aprende, evolui, se alinha, com isso ganhamos forças para enfrentar as ruas. São Paulo é a cidade que mais mata LGBT, já sofri violência na rua, minha mãe se preocupa muito com fato de ter uma filha lésbica. Ao sofrer violência, percebi que minha família também foi agredida, e esse é o sentimento de pertencimento, minhas  amigas choram comigo, isso é ser acolhido.

Quando uma família rejeita um filha por ela ser LGBT, esta família perdeu muito, perdeu convivência, perdeu ver de perto a luta e resistência dessas pessoas pois não é fácil se assumir  no país onde mais se mata LGBT.

Neste final de semana fiquei muito emocionada, pois uma amiga compartilhou a experiência da sua família com relação a sua irmã, que assumiu ser lésbica, passou pela fase da invisibilidade, passou pela fase “aquelas suas amigas” e que há pouco tempo a mãe havia ido visitar essa filha que vivia em outro estado.

Ela me mandou uma foto da mãe, da filha e da namorada juntas num jantar, era a coisa mais linda de ver o sorriso no rosto da mãe dela, mais ainda o sorriso de liberdade e felicidade da sua irmã, de estar ao lado mãe e da namorada. Fantástico quando somos acolhidos, somos mais fortes, somos mais, lembro aqui, com muita emoção da Maria Clara Araújo (travesti, pois é assim que ela se identifica) que passou no vestibular, a foto linda de sua mãe passando trote nela, que coisa linda, enche os corações de alegria, não somente da Maria Clara, mas de todos nós LGBT, pois precisamos muito do apoio da nossa família, pois enfrentar as ruas que exalam ódio e raiva, requer força e resistência.

 Unir família e amigos é o máximo na vida de qualquer LGBT, significa “minha vida se acha que dialoga está completa, sou feliz pelas minhas escolhas e respeitadas por quem eu amo!”.

Quero dedicar este texto a três mães em especial, Leda minha mãe, sempre me apoiando, outra mãe é a da Maria Clara Araújo, trans que passou na universidade pública de Pernambuco, e por ultimo não menos, a mãe da minha amiga, que disse ao final do encontro com a filha lésbica, “estar com coração em paz”.

* Cinthia Abreu é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

Comments

  1. Viviane Costa says:

    Ótimo texto, mulher…adorei!
    Me sinto muito feliz, por saber que não estou sozinha…eu durante muito tempo fiquei trancada a angústia e confusão de sentimentos, sem ter ninguém pra me consolar e pra entender o que eu estava sentindo. Muitas das minhas amigas não entenderam e outras fingia me aceitar. Hoje me sinto super feliz, por conhecer a Macha das Mulheres…ainda é tudo novo, mas estou
    encontrando a minha verdadeira essência.
    Gratidão, por você ser presente nessa linda causa e assim como você também quero ajudar outras mulheres a serem felizes por ser mulher e por ser lésbica. Acredito que esse apoio é de incrível importância.

    Um forte abraço!
    Viviane Costa.

  2. me emocionou, falou o q precisava, sem enrolação foi direto ao ponto, queremos ser respeitadas, mas tbem e principalmente amadas por nossas famílias

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