O RAP é compromisso com a libertação das mulheres: chega de machismo e violência sexista no Hip Hop!

por Chermie Ferreira

foto-3-2Esta poderia ser uma história qualquer, mas a violência doméstica tem que deixar de ser qualquer história para virar assunto do dia, notícia. Imagino quantas mulheres são violentadas dia após dia sem saber como agir, sem que ninguém ouça seus gritos, ou simplesmente sendo ignoradas pelo machismo que diz “o problema seu” para toda sorte de dor física e psicológica. O imaginário coletivo é cruel com as mulheres e a nossa única defesa é a denúncia.

Em agosto 2013, grávida de sete meses junto com Danilo da Costa dos Santos – também conhecido como DJ Bertola do grupo de Rap SACA SÓ – sofri agressões físicas e verbais. Por essas agressões e por conta do medo, saí da casa que morávamos juntos e convivíamos como companheiros.

Fui morar em um Ilê Axé. Tinha medo principalmente de ocorrer algo com o feto que esperava, além das corriqueiras violências psicológicas como humilhações e injurias que daquele dia em diante decidi nunca mais ouvir. Pensando que meu sofrimento acabaria com o afastamento, saí da casa e do relacionamento com DJ Berlota, contudo fui enganada, pois a partir desta data as coisas só pioraram. Venho sofrendo ameaças, difamações e perseguições, da gravidez até hoje. Não hesitei em denunciar as agressões e por meio da Delegacia da Mulher de Salvador fiz a denúncia; foi comprovada a agressão e deste então vivo sob medida protetiva de urgência – estado de proteção que o Estado reserva às vítimas de violência e seus familiares.

Eu, Sarah Ferreira, de nome artístico Chermie Ferreira, 27 anos, feminista e grafitteira de profissão, crio duas filhas sozinha e vivo sob proteção urgente do Estado para que ele, Danilo da Costa dos Santos, de nome artístico DJ Berlota, viva sua liberdade opressora, na missão de coagir a mim e as minhas filhas. Onira, filha deste relacionamento, hoje tem 1 ano e 2 meses e mesmo com a medida protetiva não deixou de ser intimidada, com o caso mais recente a menos de duas semanas atrás.

Enquanto a maioria das famílias se preparava para comemorar o natal e o fim do ano de 2014, eu e minha filha, no último dia 23 de dezembro, às 20h3min, fomos surpreendidas em casa com a presença de Dj Berlota, que mais uma vez ofendeu e agrediu a nós duas, na presença dos vizinhos. Aos gritos e completamente tomado pela força agressora delirava, balançando Onira e me chamando de assassina. Vivi este pesadelo por horas, recorri à polícia e terminei a noite fora da minha própria casa. Será que eu mereço tudo isso? Para esta pergunta eu tinha a resposta exata. Não! Nunca fui uma fugitiva, sempre encarei a vida com muita coragem e naquele momento encontrei-me em esconderijos por causa de um machista patológico.

O Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea) mostrou em 2013 que a cada 1h30min uma mulher morre no Brasil vítima de violência doméstica. Este estudo faz parte da publicação “Violência contra a mulher: Feminicidios no Brasil”. E Feminicidio é considerado mortes em decorrência de conflitos de gênero, ou seja, pelo simples fato de ser mulher você pode ser morta.

Eu decidi não ser mais uma vítima, por isso externo a público minha revolta! Minha única defesa, a denúncia, é a mesma que a cultura Rap/Hip Hop coloca como central em sua produção artística, e igualmente é o que o Grafitte me ensina todos os dias nos muros da cidade. A mostra de machismo e preconceito que vivo no meu cotidiano é violenta, triste e contraditória, pois a postura violenta de Danilo da Costa dos Santos (Dj Berlota) é diferente da cultura da qual ele representa, que combate o racismo, a violência de modo geral e as desigualdade social.

Como dizia Sabotagem: “O Rap é Compromisso, não é viagem”. O movimento Rap/Hip Hop luta para que mudanças sociais sejam efetivadas, para que a periferia esteja no centro do debate na conquista de direitos, portanto nós da cultura temos que ter uma postura que respeite a diversidade sexual, étnica, de gênero. São os nossos corpos que estão em jogo e não podemos admitir nenhuma conduta ameaçadora e sexista entre nós.

Infelizmente, mais um homem do RAP/Hip Hop agrediu sua companheira quando a cultura prega solidariedade e o combate aos preconceitos que nossa sociedade patriarcal estimula. Minha luta é coletiva, lutamos pela libertação das nossas companheiras do Hip Hop que para além do discurso sofrem violências concretas e cotidianas, muitas vezes pelos seus semelhantes. Assim como Maria da Penha, companheira que dá nome à Lei que combate a Violência Doméstica no Brasil, estamos sempre em marcha, na luta para que Dj Berlota e tantos outros agressores sejam punidos, pois todos eles apresentam um perigo para suas ex-companheiras e/ou atuais companheiras.

Não vamos deixar que este e outros casos aconteçam em silêncio, por isso coloco a violência que venho sofrendo em público para intimidar novos agressores, para contribuir com o extermínio da violência contra as companheiras dentro e fora da nossa cultura, e para estimular cada vez mais o nosso maior instrumento: a denúncia.

*Chermie Ferreira é Grafiteira e Militante da Marcha Mundial das Mulheres

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