Se tem violência contra a mulher, não é o mundo que a gente quer! CPI da violência nas universidades já!

Por Maria Júlia Montero*

Este ano, foram denunciados inúmeros crimes contra os direitos humanos das mulheres (principalmente crimes sexuais) na Universidade de São Paulo, tendo seu ápice nas diversas denúncias de estupros na Faculdade de Medicina da USP.

A violência contra a mulher não é uma novidade na Universidade de São Paulo. Ela ocorre entre casais que estudam lá, a tal violência doméstica – que sim, ocorre na universidade, afinal, entrar no ensino superior não faz de você uma pessoa especial, diferente do resto da sociedade – , mas também em outros espaços “específicos” da universidade: festas, trote, a calourada… sem mencionar os assédios/estupros feitos por professores com suas alunas, e violências que ocorrem nas moradias estudantis. E muita gente acha que isso não acontece, porque, afinal, essas pessoas passaram no vestibular: serão os/as futuros engenheiros/as, professores/as, médicos/as.. responsáveis pelo desenvolvimento do nosso país! Como poderiam ser responsáveis por casos de tamanha violação dos direitos humanos?

Isso, é claro, quando não ignoram completamente tudo isso e dizem que é isso mesmo, tem que fazer porque “mulher que vai em festa não se dá ao respeito” e merece ser estuprada.

Agora, estamos vivendo um processo de acirramento dessas contradições na universidade. As denúncias estão aparecendo mais, e os donos da USP – a elite paulista pra quem ela foi construída – está fazendo de tudo para abafá-las.

O reitor da universidade – que deveria ser um dos primeiros a exigir a apuração dos casos – chegou a afirmar que aquelas e aqueles que exigem a punição dos agressores machistas na USP são “inquisidores” e “adeptos de autos de fé”.

Audiência na ALESP

Audiência na ALESP

Talvez seja necessário lembrar ao nosso excelentíssimo reitor o significado da inquisição: nada tem a ver com ir atrás de apurar casos de violência. Foi, justamente, a perseguição e assassinato de milhares de mulheres sem provas (que, caso existissem, não justificariam o massacre!), com o único objetivo de destruir a pouca autonomia que as mulheres tinham sobre o próprio corpo.

Se é pra chamar algo de “inquisitório”, talvez possamos citar a criminalização do aborto: ir atrás de mulheres que resolveram que não queriam ser mães, mesmo estando grávidas. Ou quem sabe o genocídio da juventude negra: basta ser negro/a para entrar nas estatísticas dos assassinados pela polícia em nosso país. Ou a própria violência contra a mulher: não podemos dizer não a um relacionamento, porque podemos ser mortas pelo cara que não aceita uma negativa. Alguma dessas pessoas merecia ser presa ou morta?

Apurar esses crimes contra os direitos humanos nada tem de inquisitório. Tem a ver, sim, com o cumprimento dos direitos humanos mais básicos: o direito a uma vida digna, o direito a uma vida sem violência. Com esse comentário auto-desqualificador, o reitor acaba por afirmar que não irá cooperar com as investigações dos casos de violência ocorridos na universidade e/ou realizados por integrantes da comunidade universitária, por definição, sob sua responsabilidade.

Hoje, 16 de dezembro, deveria ter acontecido a audiência pública de instalação da CPI sobre a violação dos direitos humanos na FMUSP e outras universidades. Todos os deputados da situação (PSDB, PMDB, PV e PSD) se ausentaram ou chegaram atrasados. Uma norma regimental estabelece que, se não for atingido o quórum com no máximo quinze minutos de atraso, já não pode ser realizada a audiência, mesmo que estejam todos os deputados presentes. Curiosamente, todos os deputados desses partidos ou tiveram problemas “de trânsito” ou não puderam comparecer à audiência por “motivos de força maior”. Vale lembrar que essa audiência já está sendo postergada há pelo menos uma semana.

AUDIENCIA ALESP

Mulheres alertas: pelo fim da violência sexista!

Trata-se de uma manobra rasteira para atrasar o máximo possível a instalação da CPI, para que ela seja realizada somente após o recesso de fim de ano. Assim, podem postergar ao máximo as investigações, e tentar abafar os casos de violência ocorridos dentro da Universidade. Não à toa, os deputados ausentes ou atrasados são de partidos que nunca priorizaram o combate à violência contra a mulher. Ao contrário: hoje, o governo do Estado de São Paulo, nas mãos do PSDB há quase vinte anos, não tem quase nenhuma política de combate á violência, sendo um dos estados mais ricos da nação, e um dos que menos investe em políticas públicas para as mulheres.

Vale lembrar, ainda, que as estudantes que denunciaram as diferentes formas de violência, ou aquelas que as apoiaram, estão sendo coagidas a retirarem as denúncias. Ou seja, atrasar os trabalhos da CPI significa ganhar tempo para privar essas estudantes de qualquer amparo legal que possam ter por parte do poder público.

Uma nova audiência pública foi programada para acontecer quarta-feira, dia 17, às 14h, no auditório Teotônio Vilela. Nós, da Marcha Mundial das Mulheres, estaremos lá, para pressionar pela instalação da CPI e investigação dos casos de violência na USP!

Toda mulher tem direito a uma vida livre de violência. Não admitiremos que essas denúncias sejam abafadas! Mexeu com uma, mexeu com todas!

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

Se cuida seu machista, a universidade vai ser toda feminista!

*Maria Júlia é militante do Núcleo USP da MMM.

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