Mulheres do ABC em Marcha para mudar o mundo e a vida das Mulheres!

Por: Laís Dutra e Thaís Lapa*

A região do ABC de São Paulo é conhecida pelo seu histórico de luta e organização da classe trabalhadora. No final dos anos 1970, o operariado das fábricas buscou através da auto-organização, elaborar formas de luta contra a opressão e exploração capitalista. Datam desta época as chamadas grandes greves do ABC Paulista, contra o arrocho, a carestia, pela dignidade operária e também contra o regime ditatorial, significando um marco na história de lutas da classe trabalhadora em todo país.

Mas a visibilidade das mulheres trabalhadoras nem sempre acompanha este imaginário histórico sobre as lutas operárias no ABC. Nessa época, a presença de mulheres no mercado de trabalho potencializou os sindicatos, fazendo assim com que sua sindicalização crescesse. Em 1978 eram 36,1 % da PEA urbana e 20,5% do total de empregados sindicalizados. Entre 1970 e 1978 a PEA feminina cresceu 123% e a taxa de sindicalização feminina aumentou nada menos que 176% (Fonte: ABC de Luta).

Essa presença das mulheres não somente nas fábricas, mas também nos sindicatos, serviu também para unificar e organizar as mulheres, levando-as à problematizar os processos que as mantinham em desigualdade com os homens e entendendo que, questioná-los, fazia parte da luta dos trabalhadores por relações mais justas.

Assim, em 1978 acontece o 1º Congresso da Mulher Metalúrgica de São Bernardo do Campo e Diadema, onde participaram pouco mais de 350 trabalhadoras, de 39 empresas. Na verdade, 800 mulheres haviam se inscrito, mas diante de obstáculos impostos pelos patrões, como ameaças de demissão para quem participasse do evento, o número de participantes caiu para menos da metade.

Congresso das Mulheres Metalúrgicas. São Bernardo, SP, 1978. Fonte: Jornal Diário do Grande ABC.

Congresso das Mulheres Metalúrgicas. São Bernardo, SP, 1978. Fonte: Jornal Diário do Grande ABC.

Segundo Beth Lobo, este congresso pioneiro cumpriu papel relevante ao permitir vislumbrar “o desenvolvimento de um feminismo operário, articulando exploração econômica e dominação sexual, capaz de trazer à tona ou reforçar as reivindicações sufocadas no cotidiano das operárias contra o autoritarismo e a violência sexista, apontando para práticas renovadas que articulassem reivindicações gerais e reivindicações específicas” (Fonte: “A Classe Operária tem dois sexos”, 2011, p. 124).

Não se pode ignorar, contudo, o fato de que a categoria metalúrgica ficou mais de 30 anos sem a realização de novos congressos de metalúrgicas, tendo estes voltado a ocorrer somente nos anos de 2011 e 2014. Este seria porém, talvez, um respiro pela retomada da auto-organização de mulheres metalúrgicas no local ou no setor de trabalho.

Vale dizer também que a experiência das mulheres metalúrgicas do ABC do final dos anos 1970 é um dos importantes referenciais para a construção de coletivos de mulheres que se desdobrou no interior dos sindicatos de diversas categorias profissionais afora e um também para a necessidade de articulação entre luta das operárias com a luta feminista. O ABC tem, assim, essa importante contribuição histórica oferecer, tanto por ser berço das grandes greves operárias como por ser berço da auto-organização das mulheres operárias.

A partir desse contexto e do desenvolvimento de novos contextos sociais e políticos nas últimas décadas, as mulheres da região do ABC vêm se organizando e atuando em diferentes coletivos a fim de ampliar e conquistar mais direitos para as mulheres a partir de suas várias especificidades: mulheres trabalhadoras, mulheres negras, mulheres jovens, mulheres periféricas, mulheres que lutam por moradia, mulheres que lutam por uma vida sem violência, que lutam contra a retirada de seus direitos já constituídos e diversas outras. Ao longo dessa caminhada, muitas companheiras se integraram à Marcha Mundial das Mulheres, atuando em conjunto com outros movimentos sociais na perspectiva de difundir o feminismo popular.

Surgiu então, a necessidade de pensarmos em uma organicidade mais estruturada para que as mulheres da Marcha Mundial pudessem construir um movimento permanente e atuante nas cidades do ABC, usando como ferramenta de luta a mobilização e ocupação dos espaços públicos, gerando assim, um processo organizativo e de enraizamento local.

Desse modo, no dia 29/11, realizamos nossa primeira Plenária Regional da MMM- ABC, onde estiveram presentes companheiras de longa trajetória dentro da MMM e no feminismo de um modo geral, como também novas mulheres que vinham manifestando interesse em conhecer e se aproximar do nosso coletivo. E formamos então, o núcleo da MMM no ABC!!

1ª Plenária do núcleo ABC/SP da MMM.

1ª Plenária do núcleo ABC/SP da MMM.

A ideia de núcleo surge com a proposta de construção permanente da relação entre o local, o nacional e o internacional, possibilitando assim o avanço das lutas feministas na região. Como militantes da Marcha Mundial das Mulheres queremos mudar o mundo e mudar a vida das mulheres em um mesmo movimento e agregar as mulheres que, como nós, estão com disposição para fortalecer a luta feminista e popular na região do ABCDMRR. Somos mulheres com experiências e trajetórias diversas e queremos ser muitas mais!

Nossa próxima reunião, marcada para acontecer dia 15/12, vai discutir o calendário de formação e de lutas para o próximo ano. Convidamos as mulheres da região do ABCDMRR a se somarem ao nosso núcleo! Para mais informações, enviem mensagem para nossa página no Facebook.

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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Formação do Núcleo ABC/SP da MMM.

* Laís Dutra e Thaís Lapa são militantes da Marcha Mundial das Mulheres no ABC, em São Paulo.

Comments

  1. Maria Inês Batista Dutra says:

    Parabéns a todas as companheiras do ABC, pela iniciativa e coragem. Desejo vida longa ao Núcleo. “Seguiremos em Marcha até que todas sejamos livres!”

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