Vamos falar sobre sexo?

Algumas mulheres printaram partes de conversas que mantinham com um professor universitário e as publicizaram recentemente. Estas mulheres têm denunciado abuso na relação. Taí um post enorme em que procuro refletir um pouco sobre esta questão, mas no bojo de outras. Um abraço solidário a estas mulheres que, colocando estas questões em público, contribuem para um debate super importante sobre sexualidade.

As práticas sexuais são múltiplas, com diversas fantasias, encenações… muitas possuem denominações específicas, outras não… Definitivamente, o que se compreende como desejo e como prazer é dinâmico e se alterou intensamente.

Principalmente após os anos 1970, muito influenciado por Masters e Johnson, as imagens e ideias relacionadas à sexualidade têm sido descritas em termos mecânicos, algo que “vibra” como e por sobre a carne. As ideias anteriores eram distintas, diziam de algo transcendente, relacionado a inspiração, criatividade…

Também será a partir do final do século XX que a ideia do sexo como diversão, em que não é possível bloquear qualquer fantasia, se torna prevalente. Assim, qualquer sensação é boa em si. Destas noções anteriores, nuançadas com Freud, decorre outra ideia: a fantasia, sendo uma expressão do inconsciente, não é uma responsabilidade e deve necessariamente vir à tona.

post aninha

Crédito: Blog Ecos–Periferia

Este é o solo por onde é percebida uma pornografização da sexualidade se ensejando em que as imagens, noções e ideias sobre o sexo estão em uma escalada de estimulação com objetivo da maior excitação possível. Além disso, as tendências de pornografia apontam para práticas cada vez mais extremadas em que a quebra de tabu se torna o desejável. Enfim, não é um “acaso” ou um “desenvolvimento natural” que as práticas de sexo estejam apontando para imagens mais violentas e extremadas (antes considerados marginais ou fetichistas) .

Esse conjunto de transformações está no bojo de um processo de crescimento da indústria pornográfica muito bem sucedido em que determinados objetos e performances são ritualizadas. A pornografia não é algo distante, ela se rotiniza nas práticas sexuais cotidianas de distintas maneiras.

Não há de minha parte um julgamento sobre as distintas práticas sexuais. Muito pelo contrário, algumas dessas mudanças devem estar relacionadas ao fato de nossa sociedade ser sexualmente mais aberta e menos direcionada a julgamentos morais relacionados à vida sexual das pessoas. De outro lado, há uma normalização deste processo que modula desejos ou, minimamente, normaliza práticas, que não necessariamente são confortáveis ou prazerosas para todas as pessoas e que, além disso, estão no bojo de relações assimétricas em que homens e mulheres não têm o mesmo espaço nessa “negociação”.

Quero dizer que essa tal liberdade está bem definida e específica: quanto mais diversas e extremadas as práticas, mais livres. Enfim, uma liberdade aprisionada. Mesmo a ideia do que é sexo consentido também se estabilizou a partir desta noção de sexualidade neste processo de pornografização.

Precisamos refletir que há, no último período, muitas mulheres denunciando o extremo de práticas que podem parecer muito naturalizadas para os olhares libertários (livres?). Elas se sentem violentadas, agredidas e coagidas, mesmo que tenham consentido.

Não se trata apenas do caso do professor, estas situações têm aparecido nos consultórios, nas conversas entre amigas, o caso das estudantes de medicina é muito próximo, pois determinadas práticas sexuais são compreendidas como naturais, é necessário refletir: o que custa não consentir?

Eu preferiria deixar apenas a interrogação, mas é necessário pontuar que, para as mulheres do ambiente universitário/intelectualizado, não consentir pode significar ser moralista ou não pertencer a determinados circuitos.

Os limites entre coerção e consentimento são sempre uma negociação que envolve aspectos individuais, mas também coletivos. Parece-me que muitas pessoas adotam uma noção de consentimento em que tudo pode ser feito desde que a mulher aceite, mas não seria interessante também refletirmos sobre o que e como estamos desejando?

O desejo é vivo, pujante e deve ser debatido em público.

A situação que envolve o professor pode ser uma das denúncias mais coletivas, mas penso que temos que olhar para a situação. Embora tenhamos a sensação de que múltiplas práticas libertárias de sexo estão em voga, em que é possível experimentar todas novas posições quanto a criatividade abrir, parece que o desejo está bem situado, localizado em certas noções e práticas cada vez mais específicas.

O que parece curioso é que estas noções são tão fortemente naturalizadas que colocá-las em questão (ou criticá-las) é inadmissível. O que parece bastante moralista é impossibilidade de colocar em debate estas tais práticas e, inclusive, o que significa consentir e não consentir.

Muitas mulheres não gostam das denominações que ali foram apresentadas, muitas podem desejá-las, outras “consentem”, mas sentem-se agredidas e é muito bom que isso seja publicizado.

O fato de terem “consentido” não as impossibilita de se sentirem agredidas. Não há nada de moralista em debater e criticar tais práticas. Pode até ser que a “justiça” não designe os feitos do professor como criminosos, mas há, sim, abusos e nítidas práticas coercitivas que podem e devem ser debatidas.

*Ana Pimentel é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro.

Comments

  1. Parabéns pela coragem de colocar algo que é ignorado. Gostaria de ter acesso a conversa com o professor, para saber do que exatamente esta se referindo, mas o que entendi é que: Nem sempre a mulheres experimentam algo por intenção pessoal, mas sim por uma coersão coletiva de seu meio. E sim a mulher tem o direito de até mesmo ñ querer participar de novas propostas, e nem por isso ela deve ser ridicularizada por isso. Por experiência própria, ter experiências sem uma reflexão necessária, só trás angustia e culpa. Coisa que nós mulheres já temos de sobra. 😦

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