Consciência negra e resistência cotidiana

Por Cinthia Abreu, Letícia Vieira e Mara Lucia da Silva*

No mês da consciência negra deparamo-nos com uma conjuntura contraditória mas que não nos surpreende: várias manifestações contrárias ao racismo, ao mesmo tempo em que vivemos diariamente o genocídio da juventude negra, a hipersexualização de nossos corpos, a criminalização da pobreza e o incentivo aos estereótipos.

A grande mídia nada mais serve em nossa sociedade a não ser cumprir o papel de retroalimentar o capitalismo, o patriarcado e o racismo. Observamos diariamente que mulheres são tratadas de forma mercantilizada nos meios de comunicação reproduzindo um estereótipo escravista: à mulher negra sempre cabem os papeis secundários, a visão de que nós negras somos mulheres à disposição dos homens brancos, como “a carne mais barata do mercado”. Além disso, devemos acrescentar o fato de que a sexualidade da mulher negra é automaticamente relacionada à heteronormatividade.

Em se tratando de violência, nós mulheres negras ainda sofremos com o crescente processo de militarização, que prejudica nossa mobilidade urbana, a criação de nossos filhos, nossas relações interpessoais. Dessa maneira, devemos nos perguntar em que sentido estamos caminhando com nossa militância, quais são nossas estratégias para empoderarmos a nós mesmas e às outras companheiras, pois nossa estratégia feminista deve se reinventar da mesma maneira que o capital, o patriarcado e o racismo se reinventam.

Um exemplo dessas expressões de reinvenção é o seriado “Sexo e as nega” da Rede Globo, programa recheado de estereótipos racistas, banalização do corpo da mulher negra, além de ter a trajetória das personagens apresentada por uma mulher branca, retirando o papel de autonomia dessas mulheres enquanto sujeitas da própria história. Como se não bastasse, nos é tirado o direito de reivindicar um papel de igualdade e de respeito; toda solidariedade à blogueira Charô Nunes, que tem sido perseguida pelo mulatólogo da Globo, após criticar essa “profissão” que apenas subjuga as mulheres negras, reproduzindo o papel de capitão do mato da atualidade.

‪#‎SomosTodasCharôNunes‬ Fonte: http://jaquejesus.blogspot.com.br

‪#‎SomosTodasCharôNunes‬ Fonte: http://jaquejesus.blogspot.com.br

Nosso máximo respeito e admiração pelo trabalho das atrizes do seriado, tendo em vista que sabemos a dificuldade pela qual elas passaram, certamente, para chegar a ter espaço nessa instituição racista que é a mídia brasileira. Queremos realmente que mais atrizes negras conquistem papeis na televisão, todavia questionamos os papeis que essa sociedade quer nos oferecer. Não aceitaremos, tampouco nos calaremos frente a essa mídia que insiste em nos objetificar, em transformar nossas vidas e corpos em mercadoria e em objeto de humor, como nos programas do gênero da Rede Globo.

É essa mesma sociedade que defende os racistas, como no caso do jogador Aranha, em que criou-se uma verdadeira comoção em torno de uma torcedora que expressou claramente seu racismo.

Nesse sentido, nós mulheres feministas antirracistas devemos ressaltar que nossa luta não se resume e nem deve se resumir apenas a um mês, mas sim como uma trajetória contínua em busca da libertação de todas as mulheres. Nossa consciência negra é todo dia porque o racismo se dá todo dia, em todos os momentos.

Seguiremos em marcha até que todas as mulheres negras sejamos livres!

Exposição Feminismo em Marcha, 2013. Foto: Elaine Campos

Exposição Feminismo em Marcha, 2013.
Foto: Elaine Campos

*Cinthia Abreu e Mara Lucia da Silva são militantes da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo e Leticia Vieira é militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio de Janeiro.

Comments

  1. Sejam benditas, imortalizadas nossas atrizes negras de talento ímpar e abominados os chacais chacais vorazes que as subjugam com papéis menores. “Salve Dandara “.

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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