Por que devemos lutar pela libertação da Palestina?

*Por Carla Vitória

Maio de 2006 – Cerca de 600 jovens brasileiros são assassinados. A justificativa seria um acerto de contas entre a polícia militar e o crime organizado. Sabe-se que dez civis foram baleados em ataques às delegacias, porém a causa de falecimento dos outros 590 ainda hoje não é conhecida. A proporção de mortes entre garotos pretos e pobres e agentes do Estado chega a ser de 20 para cada 1.

Julho de 2014 – Israel intensifica os ataques contra a Palestina. A alegação é de que os bombardeios serviriam para desmantelar o Hamas – movimento fundamentalista islâmico da região composto por um partido político e um braço armado. O número de civis palestinos exterminados chega à casa dos 600, enquanto, do lado israelense, 30 soldados foram abatidos em confrontos. O dados contabilizam uma proporção de 20 para cada 1.

Fotos do Ato em Solidariedade ao Povo Palestino em SP, por Helena Zelic

Fotos do Ato em Solidariedade ao Povo Palestino em SP, por Helena Zelic

Israel é uma potência chave na geopolítica da indústria armamentista. O maior exportador de fuzis de alta tecnologia do mundo possui a patente de invenções como o “detector de mentiras” – utilizado no interrogatório de detidos considerados terroristas; monitoramento de presos via-satélite; VANT (veículos aéreos não tripulados); e até mesmo do exótico “robô militar”, capaz de perseguir, fotografar e trucidar oponentes. Nesse cenário a Faixa de Gaza é um verdadeiro laboratório de testes de munições e serviços de inteligência para posterior exportação, o que comprova que o extermínio do povo palestino não está desprendido de interesses econômicos. Porém, o dado que mais choca é o fato de que o Brasil é o 4º maior comprador de aparatos militares israelenses, sendo que importa duas vezes mais armas deste país que os próprios Estados Unidos.

Fotos do Ato em Solidariedade ao Povo Palestino em SP, por Helena Zelic

Fotos do Ato em Solidariedade ao Povo Palestino em SP, por Helena Zelic

Mas não é apenas na comercialização de produtos bélicos que se configura a relação econômico-militar com Israel. Uma parte do treinamento utilizado pelas forças de segurança para criminalizar a pobreza e reprimir movimentos sociais daqui é inspirado nas táticas do exército israelense. A ocupação de comunidades nas periferias brasileiras traz fortes elementos da segregação causada pela construção do muro na Faixa de Gaza. Distanciamento dos centros prestadores de serviços essenciais, como saúde, educação e transporte, cercos policiais, humilhações e torturas fazem parte do cotidiano do povo pobre seja no Oriente Médio ou na América Latina e configuram tristes exemplos desse intercâmbio.

Num contexto de acirramento dos conflitos e militarização de territórios, o corpo das mulheres acaba sendo utilizado como moeda de troca. O estupro, uma das táticas de guerra mais antigas que existe, é uma ferramenta para subjugar e enfraquecer o inimigo, como se a posse sobre o corpo feminino significasse a derrota moral do adversário. As consequências físicas e psicológicas desse trauma para as mulheres são as mais severas, sendo que algumas chegam a ser obrigadas a parir os filhos de seus violadores.

Além disso, como as mulheres são as maiores responsáveis pela manutenção da vida e do dia-a-dia, sofrem diretamente o desmonte deixado pela escassez de recursos básicos e infraestrutura, como saneamento, água, alimentação e tratamento hospitalar. São elas que literalmente limpam o sangue deixado pelo genocídio, possuindo papel central no cuidado dos feridos. O imenso número de mortes também imprime às mulheres a tarefa de reconstrução dos espaços urbanos e reorganização da vida social da população sobrevivente, sendo obrigadas a gerir as miseráveis economias em tempos de guerra. Mães, palestinas ou de Maio, cumprem esse duro papel de enterrar os destroços dos terrores cometidos pelo imperialismo em seus lares. Apenas a desocupação do território e a consequente libertação do povo palestino trarão a estas mulheres condições necessárias para a construção de sua autonomia.

Ocupação, colonização, apartheid e limpeza étnica não são uma realidade exclusiva do Estado de Israel, mas sim uma prática reiterada de todos os territórios em que o sistema capitalista patriarcal e racista gere a vida de seus habitantes. Nesse sentido, não basta apenas que o Ministério de Relações Exteriores se pronuncie nas cortes internacionais. O rompimento de acordos econômicos com aqueles que promovem o massacre na Palestina através do BDS (boicote, desinvestimento e sanções) deve estar na ordem do dia. Não aceitaremos mais que as armas produzidas por empresas israelenses continuem reprimindo manifestações e assassinando a juventude negra nas nossas periferias.

palestinalivre

A solidariedade internacional perpassa a compreensão de que a Palestina também é aqui.

Seguiremos em marcha até que todos os povos sejam livres!

Mais informações:
http://jornalismob.com/2014/05/26/se-a-india-e-o-brasil-quisessem-fazer-a-paz-na-palestina-poderiam-fazer-amanha-entrevista-com-maren-mantovani-da-stop-the-wall/

http://www.bdsmovement.net/files/2011/03/rela__es_militares_entre_brasil_e_israel.pdf

*Carla Vitória é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo

Comments

  1. Iolanda Toshie Ide says:

    Que tal desencadearmos uma grande campanha contra os acordos Mercosur-Israel e pressionar para que o Brasil suspenda as compras de material bélico (e outros) assim como os treinamentos israelitas?

  2. Excelente texto!!

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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