Siempre revolucionária nunca muerta, nunca inútil: a vida política de Frida Kahlo [Parte 2]

[Especial Frida Kahlo – Parte 2]

Em memória a seu aniversário de vida (06 de julho) e de morte (13 de julho), divulgamos a segunda parte do texto sobre a vida política de Frida Kahlo.

* Por: Paulinha Cervelin Grassi

Durante os primeiros anos da década de 1930, Frida Kahlo acompanhou Diego Rivera nos Estados Unidos. Seu recém-marido havia sido convidado para a pintura de diversos murais em São Francisco. Ao dar notícias para suas/seus amigas/os, Frida expressava nas suas cartas seu desgosto pelos “gringos”, certamente por conta do seu sentimento anti-imperialista. Ela escreve em novembro de 1931 para seu médico, o Dr. Eloesser:

A alta sociedade daqui me deixa muito desanimada, e sinto um pouco de raiva desses ricos daqui, já que vi milhares de pessoas na mais terrível miséria sem nada pra comer e sem lugar pra dormir, que é o que mais me impressionou aqui, é horrível ver esses ricos dando festas dia e noite enquanto milhares e milhares de pessoas morrem de fome. (…) os norte-americanos não tem um pingo de sensibilidade e bom gosto. [2]

Anos mais tarde, já morando no México, Frida escreve novamente para seu doutor e aponta com mais detalhes sua antipatia pela modelo de vida americana:

(…) embora eu compreenda as vantagens que qualquer trabalho ou atividade possam ter nos Estados Unidos, sou mais México. Não gosto dos gringos, apesar de todas as suas boas qualidades e seus defeitos ruins. Desagrada-me muito o seu modo de ser, sua hipocrisia e seu puritanismo enojante, seus sermões protestantes, sua pretensão ilimitada e o fato e que sempre se tem que ser ‘verydecent’ e ‘veryproper’ (…). Além disso, seu estilo de vida me parece o que há de mais pavoroso: aquelas parties de merda, onde tudo se resolve depois que as pessoas se encharcam de um punhado de aperitivos (eles nem mesmo sabem se embebedar com alegria), desde uma janela num quadro até uma declaração de guerra, sempre tendo em mente que o vendedor do quadro ou o declarante da guerra tem que ser uma pessoa ‘important’. (…) e a mim me parece que a coisa mais importante para todo o mundo na Gringolândia é ter ambição e se tornar ‘somebody’ (…). [3]

 

Frida com (a partir da esquerda), Diego Rivera, Natalia Trotsky, Leon Trotsky, André Breton e Jea van Heijenoort, Cidade do México, 1938.

Frida, Diego Rivera, Natalia Trotsky, Leon Trotsky, André Breton e Jea van Heijenoort. Cidade do México, 1938.

Outro aspecto da vida de Frida a ser destacado foi suas percepções do movimento artístico e literário surrealismo, ao ser considerada pelo próprio André Breton [4] uma “surrealista autocriada” [5]. A pintora mexicana aproxima-se do movimento e em 1939 expõe na capital francesa, após convite de Breton. Suas pinturas são seguramente elogiadas por nomes como o de Pablo Picasso. Apesar do sucesso da exposição e dos seus divertimentos pela cidade, Frida não se sentiu a vontade em Paris, detestando especialmente a postura vazia das/os artistas locais:

Eles são tão ‘intelectuais’ e nojentos que eu não os suporto mais. É demais pro meu temperamento. Prefiro ficar sentada no mercado de Toluca vendendo tortilhas do que ter alguma coisa a ver com esses desgraçados ‘artísticos’. Eles ficam horas e horas sentados nos cafés, esquentando suas preciosas bundas e falando sem parar de ‘cultura’, ‘arte’, ‘revolução’, e assim por diante, se achando os deuses do mundo, sonhando com as besteiras mais fantasiosas, e envenenando o ar com suas teorias e mais teorias que nunca se realizam. Amanhece o dia – e eles não tem o que comer em casa porque nenhum deles trabalha e vivem como parasitas do bando de ricaços que admiram o ‘gênio’ dos ‘artistas”. [6]

O contexto político também contribuía para Frida detestar o lugar. Com a derrota legalista na Guerra Civil Espanhola, a mexicana acompanhou o sofrimento de refúgio dos espanhóis. A falta de acolhimento da França deixava Kahlo ainda mais intrigada: “Estou enojada com toda essa gente podre da Europa – todas essas bostas de democracias não valem nada” [7]. Sua indignação a levou a articular com a ajuda de Diego, a ida de quatrocentos refugiados para o México.

Apesar do contato direto com o movimento, Frida não se intitulava uma surrealista. Para Herrera, Frida foi uma descoberta surrealista e não uma artista surrealista [8]. Em 1952, em carta a Antonio Rodriguez, a artista esclareceu mais sobre essa questão:

Alguns críticos tentaram me classificar como surrealista; mas eu não me considero surrealista. (…) Eu realmente não sei se meus quadros são surrealistas ou não, mas sei que são a expressão mais sincera de mim mesma. (…) Eu detesto o surrealismo. Pra mim, parece uma manifestação decadente de arte burguesa. (…) Eu quero ser digna, com a pintura, do povo a que pertenço e das ideais que me fortalecem. (…) Eu quero que minha obra seja uma contribuição para a luta das pessoas em seu esforço pela paz e a liberdade. [9]

 

Coyoacán, México, 1941.

Coyoacán, México, 1941.

Possivelmente “a obra mais surrealista de Frida seja o diário que ela manteve de meados de 1944 até sua morte” [10], através de seus desenhos, montagens de objetos, cores e palavras espalhadas. Em seu diário é também perceptível sua maior compreensão e dedicação ao marxismo. Várias são suas manifestações de apoio e crença no horizonte comunista seja em escritos, seja em pequenas pinturas. Em 1947, escreve:

La revolución es la armonía de la forma y del color y todo está, y se mueve, bajo uma sola ley = la vida =
Nadie está aperte de nadie
Nadie lucha por si mismo.
Todo es todo y uno
La angustia y El dolor. El Placer y La muerte no son más que um proceso para existir
la lucha revolucionaria
em este proceso es una puerta abierta a la inteligência. [11]

Na página seguinte, recorda o trigésimo aniversário da Revolução Bolchevique com sua famosa frase que expressa seu lema de vida: “Aniversario de La Revolución. 7 de noviembro de 1947. Arbol de La Esperanza mantente firme!” [12].

Por volta de 1950, a artista explica as razões da sua afeição revolucionária:

1ª. Convicción de que no estoy de acuerdo com La contrarevolución – imperialismo – fascismo – religiones – estupidez – capitalismo – y toda la gama de trucos de la burguesia – Deseo de cooperar em La Revolucíon para La transformación del mundo em uno sin clases para llegar a um ritmo mejor para lãs clases oprimidas
2ª. Momento oportuno para clarificar a los aliados de La Revolución
Leer a Lenin – Stalin – Aprender que yo no soy sino una ‘pinche’ parte de um movimiento revolucionário. Siempre revolucionário nunca muerto, nunca inútil. [13]

Suas referências políticas aparecem escritas junto do símbolo comunista – a foice e o martelo – desenhado por volta de 1953.

Referências políticas e o símbolo comunista no Diário de Frida Kahlo.

Referências políticas e o símbolo comunista no Diário de Frida Kahlo.

Em seu diário, Frida também cita o erro político de aproximação com Trotsky, além de expressar novamente sua interpretação marxista:

Soy um ser yo comunista. Sé que lãs Orígenes centrales se unen em raices antiguas.He leido la Historia de mis pais y de casi todos los pueblos. Conozco ya SUS conflictos de clase y econômicos. Comprendo claramente La dialéctica materialista de Marx, Engels, Lenin, Stalin y Mao Tsé. Los amo como a los pilares delnuevo mundo comunista. Ya comprendí el error de Trotsky desde que llegó a Mexico. Yojamás fui trotskista. Pero en essa época 1940 – yo era solamente aliada de Diego (personalmente) (error político). (…) Soy solamente uma célula Del complejo mecanismo revolucionário de los pueblos por la paz y de los pueblos nuevos, sovieticos – chinos – checoeslovacos, polacos – ligados em la sangre a mi propria persona. Yaal indígena de México. Entre esas grandes multitudes de gente asiáticas siempre hábra rostros míos – mexicanos – de piel obscura y bella forma de elegância sin limite, también estarian ya liberados los negros, tan hermosos y tan valientes. [14]

No seu diário é possível encontrar outras citações e desenhos que demonstram suas preferências e pensamentos políticos. Conhecer a dimensão política de Frida Kahlo passa por esse importante registro de sua vida.

* Paulinha Cervelin Grassi é formada em História, artesã e militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul.

Leia a [Parte 1] do texto.

Referências

[1] Nota sobre o título. Por volta de 1950 escreve em seu diário: “Siempre revolucionário nunca muerto, nunca inútil” – KAHLO, 1995, p. 251.

[2] HERRERA, Hayden. Frida: a biografia. São Paulo: Globo, 2011, p. 164

[3] KAHLO, Frida. Cartas apaixonadas de Frida Kahlo. Compilação Martha Zamora. RJ: José Olympio, 2011, p. 110.

[4] André Breton, escritor francês, considerado um dos fundadores do surrualismo.

[5] HERRERA, 2011, p. 278.

[6] HERRERA, 2011, p. 299. Carta escrita para Nickolas Muray em 16 de fevereiro de 1939.

[7] KAHLO, 2011, p. 100.

[8] HERRERA, 2011, p. 312.

[9] HERRERA, 2011, p. 320.

[10] HERRERA, 2011, p. 320.

[11] KAHLO, Frida. El diário de Frida Kahlo: un autorretrato íntimo. Ciudad del México: la vaca independiente, 1995, p. 245.

[12] KAHLO, 1995, p. 244.

[13] KAHLO, 1995, p. 251.

[14] KAHLO, 1995, p. 255 e 256.

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