Siempre revolucionária nunca muerta, nunca inútil: a vida política de Frida Kahlo [Parte 1]

[Especial Frida Kahlo – Parte 1]

Em memória a seu aniversário de vida (06 de julho) e de morte (13 de julho), divulgamos a primeira parte do texto sobre a vida política da pintora mexicana Frida Kahlo.

* Por: Paulinha Cervelin Grassi

Frida Kahlo, New York, 1933. Ao fundo, o painel "Proletarian Unity", de Diego Rivera.

Frida Kahlo, New York, 1933. Ao fundo, o painel “Proletarian Unity”, de Diego Rivera.

Ultimamente, tenho escutado de conhecidas/os o alerta do quanto “Frida está pop”. Afirmação que, ao ressoar em meu corpo, remete a associações, indagações e contestações. Uma das minhas primeiras reações é a lembrança do também “pop” Che Guevara. Surge assim meu primeiro receio: Frida Kahlo já se tornou um mito de consumo?

Sucintamente, compreendo que o esvaziamento político e social da imagem de Che Guevara está associado diretamente à absorção de sua figura pela cultura pop, para a apreciação consumível da sociedade capitalista. Recordo então do atento amigo e também admirador desta mulher, Claúdio Carvalhaes [2]: está há anos em curso o processo de esvaziar as referências políticas, culturais e revolucionárias de Frida para ficar palatável ao consumo regrado de beleza norte americano.

Pergunto assim: a quem interessa que a memória de Kahlo não seja associada às suas opções políticas ou, quando exposta, de forma muito rasa?

 Muitas vezes, cita-se brevemente que a artista tinha aspirações revolucionárias, sem titulá-las, ou ainda, quando definidas, essas aspirações são atribuídas a seus relacionamentos afetivos: o casamento com o pintor e comunista Diego Rivera e o caso com um dos líderes da Revolução Russa, Leon Trotski. Como se seu interesse político partisse ou fosse compreendido exclusivamente através da sua vida amorosa. Deste modo, faço outras indagações e que permeiam esse breve texto: Quais foram as referências políticas de Frida Kahlo? Como foi sua trajetória político-social? Qual a ligação de sua arte com o marxismo?

Conhecer o interesse político e social de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon Rivera ou simplesmente, Frida Kahlo, não é uma tarefa árdua. A artista, ao longo de sua vida, registrou inúmeras vezes seus sentimentos, preocupações sociais e convicções políticas, seja em suas pinturas, em seu diário, ou ainda, em suas cartas. Além disso, há diversos relatos de sua participação em ligas clandestinas, como a Liga Jovem Comunista, em manifestações nas ruas e em reuniões do Partido Comunista Mexicano.

Frida Kahlo e Diego Rivera em manifestação do dia dos/as trabalhadores/as. Foto: Tina Modotti, 1929.

Frida Kahlo e Diego Rivera em manifestação do dia dos/as trabalhadores/as. Foto: Tina Modotti, 1929.

Uma primeira evidência das suas ideias políticas é sua opção pelo ano de nascimento. A artista nasceu em 06 de julho de 1907 em Coyoacán, Cidade do México. No entanto, em seu diário, afirma ter nascido em 1910, ano em que a Revolução Mexicana eclode: “1910. – Naci em el cuarto de la esquina entre Londres y Allende Coyoacán. A la uma de la mañana” [3]. Segundo Herrera, “uma vez que era filha da década revolucionária, (…) Frida decidiu que ela e o México moderno haviam nascido no mesmo ano” [4].

A Revolução foi um movimento popular, sobretudo anti–latifundiário e anti-imperalista. Emiliano Zapata e Pancho Villa são conhecidos como dois líderes camponeses importantes da revolta. Para Carlos Fuentes a Revolução foi também um êxito cultural, ao impulsionar a arte mexicana, baseada especialmente nas raízes indígenas: “Fue La revelación de México por México” [5]. E tanto Frida Kahlo como Diego Rivera, frutos do momento histórico, aderiram a esse momento cultural da década de 20 que tomou conta do país.

Ao testemunhar em seu diário as lembranças dos camponeses zapatistas, em que sua família os recebia quando feridos ou famintos, Frida justifica a Revolução Mexicana como base para sua entrada na juventude comunista:

Yo presencie con mis hojos la lucha campesina de Zapata contra los carrancistas. (…) La emoción clara y precisa que yo guardo de la ‘Revolución mexicana fuela base para que a los 13 años de edad ingresara em La juventud comunista’. [6]

Na Escola Nacional Preparatória, ao ingressar em 1922, irá encontrar “o ambiente propício para desenvolver aquilo que de certa forma já estava latente desde a sua infância. O empenho pela causa social e a crença no comunismo parecia estar no seu sangue, correr em suas veias. A artista mexicana parecia buscar ou ser conduzida para contextos onde a questão política era o cerne” [7]. Los Cachuchas era seu grupo na Preparatória, um coletivo político com crença no socialismo e formado por integrantes que mais tarde vieram a ser fortes lideranças da esquerda mexicana.

No entanto, em 1925 se afasta da Escola após o acidente com o bonde que comprometeu sua saúde pelo resto de sua vida. Em 1927, já recuperada, reencontra suas/seus conhecidas/os e o círculo de amigas/os envolvidas/os com a política é ampliado: o líder estudantil Germán de Campos, o exilado comunista cubano Julio Antonio Mella e a fotógrafa ítalo-americana e também comunista Tina Madotti. A proximidade com Tina será muito rápida, e logo as duas tornam-se amigas leais. Frida então passa a frequentar as reuniões e festas semanais que a fotógrafa organizava em sua própria casa, reunindo diversos artistas, especialmente as/os comunistas.

Frida e Chavela Vargas, 1945.

Frida e Chavela Vargas, 1945.

Em 1928, filia-se ao Partido Comunista, época em que também conheceu o famoso muralista mexicano Diego Rivera. A pintura, a preocupação social e a participação no partido eram também pontos comuns entre os dois. Apaixonados, casam-se em agosto de 1929. O pintor, no entanto não foi o único amor de Frida. Ao longo de sua vida, a artista teve diversos relacionamentos tanto com homens quanto com mulheres, consequentes dos seus círculos políticos e artísticos. Entre suas relações afetivas conhecidas, destaca-se com o então colega da Preparatória e líder estudantil Alejandro Gómez Arias, o líder comunista russo Leon Trotski, a cantora mexicana Chavela Vargas e o fotógrafo Nickolas Muray.

* Paulinha Cervelin Grassi é formada em História, artesã e militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul.

Referências

[1] Nota sobre o título do texto. Por volta de 1950, escreve em seu diário: “Siempre revolucionário nunca muerto, nunca inútil” – KAHLO, 1995, p. 251.

[2] Claúdio Carvalhaes, teólogo e artista, autor de “O Vestido Dela Está Pendurado Ali, e Nós Também,” in (Re)leituras de Frida Kahlo: por uma ética estética da diversidade machucada,”  University of Santa Cruz do Sul, and EST, Ensino Superior de Teologia, Brasil, 2008.

[3] KAHLO, Frida. El diário de Frida Kahlo: un autorretrato íntimo. Ciudad del México: la vaca independiente, 1995, p. 281.

[4] HERRERA, Hayden. Frida: a biografia. São Paulo: Globo, 2011, p. 18.

[5] FUENTES, Carlos. Introdução. In: KAHLO, Frida. El diário de Frida Kahlo: un autorretrato íntimo. Ciudad del México: la vaca independiente, 1995, p. 9.

[6] KAHLO, 1995, p. 282.

[7] DREBES, Haidi. A expressão da espiritualidade na obra pictórica de Frida Kahlo no horizonte da teologia da cultura de Paul Tillich. São Leopoldo : Escola Superior de Teologia, 2005, p.119.

Comments

  1. Está tendo uma exposição dela em Curitiba, no MON, acho que fica até novembro..

  2. Parabéns! Ficou muito legal o texto! Republicamos no site da UNE http://www.une.org.br/2014/07/siempre-revolucionaria-nunca-muerta-nunca-inutil-frida-kahlo/ abraços!

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