Por que o amor entre mulheres incomoda tanto a sociedade?

Por: Fernanda Kalianny*

XII Caminha de lésbicas e bissexuais de São Paulo Fonte: Uol

XII Caminha de lésbicas e bissexuais de São Paulo
Fonte: Uol

Em tempos de beijo entre mulheres em novela global, essa pergunta volta a repercutir dentro de mim. Assim como repercute cada vez que estou andando de mãos dadas com minha companheira na rua e alguns olhares nos são dirigidos – sejam olhares de desejo masculino, que ainda encaixam relações entre mulheres dentro do que lhes é de direito desejar, sejam olhares carregados de ódio e intolerância ou aqueles olhares simpáticos de semelhantes. Porém, mas do que perguntar por que o amor entre mulheres incomoda tanto a sociedade, podemos nos aprofundar e questionar, enquanto mulheres lésbicas ou bissexuais e feministas, de que forma o machismo está relacionado ao tipo de discriminação que sofremos.
Em nossa sociedade, todos os dias nos é lembrado que somos mulheres. Ser mulher implica no exercício de alguns papéis, dentre eles precisamos ser mães, cuidar das pessoas que estão ao nosso redor, dormir no peito de um homem que nos passe segurança e nos faça felizes. Felizmente, nem todas almejamos ter filhos ou ter um companheiro do sexo masculino. Atentando para as diversas possibilidades de relacionamento e para a multiplicidade de formas em que podemos encontrar a felicidade, o nosso desejo nem sempre se dirigirá a um homem. Mas há uma linha entre gênero, sexo e desejo que a sociedade construiu e cada vez que tentamos fugir disso somos encaradas como seres esquisitos ou subversivos demais. Em outras palavras, se você nasce com o sexo feminino, espera-se que você tenha um corpo e comportamento visto como o de uma mulher e que seu desejo se dirija a um corpo que seja diferente do seu, isto é, um corpo masculino.
Essa linha contínua que se estabelece entre sexo, gênero e desejo se repete inclusive nas relações homoafetivas. Se você é lésbica e “feminina”, espera-se que você se relacione com uma mulher lésbica e “masculina”. Por mais que encontremos duas mulheres em uma relação ainda se espera que elas reproduzam o padrão de relacionamento entre dois gêneros: o masculino e o feminino. Quão comum não é estar em uma mesa de bar e um desconhecido ou desconhecida se aproximar querendo mostrar o quanto é progressista e libertário/a e, depois de alguma conversa jogada fora, te perguntar: mas vem cá, qual é o homem da relação? Quem é ativa e quem é passiva? Diante dessas perguntas, faria sentido nos perguntar: realmente existe um dos lados que seria mais masculino e outro mais feminino?

XII Caminhada de Lésbicas e Bissecuais de São Paulo Fonte: Uol

XII Caminhada de Lésbicas e Bissecuais de São Paulo
Fonte: Uol

Ao contrário do que muitos esperariam ouvir, não, não faz sentido. Quando duas mulheres se relacionam as regras que surgem dentro da relação não necessariamente estarão baseadas dentro do que acontece nas relações heterossexuais. Não necessariamente uma terá um comportamento que é entendido como mais masculino e a outra mais feminino. E ainda que alguma das partes use roupas vistas como menos femininas isso não significa que ali exista um desejo de ser homem. Pode haver apenas a vontade de usar as roupas com as quais se sente bem e confortável.
A sexualidade não resume-se, ainda bem, há uma divisão simplista, na qual em um polo encontramos o lado dominante e do outro o lado dominado. As relações lésbicas podem se construir – bem como qualquer outra relação – de uma forma horizontal, respeitosa, emancipatória para ambas as partes. Amar outra mulher te permite muitas vezes obstruir obstáculos que estavam colocados. Nos permite amar e desejar aquela que sentimos vontade sem nos fazer sentir culpadas por dirigirmos o nosso desejo para um corpo que seja semelhante ao nosso. E pode ainda se aliar a vontade de ser mãe, pois nada impede que numa relação entre duas mulheres, exista a possibilidade de querer criar e educar uma criança juntas, formando uma família.
Os limites, que são estabelecidos para gozarmos da nossa sexualidade, para buscarmos a felicidade onde achamos melhor e onde seremos realmente plenas, estão situados em uma sociedade que controla os nossos corpos, nossos desejos e que nos diz todos os dias o que podemos e o que não podemos fazer. Ainda que pareça pouco, um beijo que aparece numa novela em que muitas famílias brasileiras estão assistindo contribui para que ganhemos visibilidade, para que se entenda que quando duas mulheres estão juntas não há a ausência de algo que complete a relação, que não precisamos de “uma cobra para brincar com nossas aranhas”. O amor entre mulheres existe, o sexo entre mulheres existe e pode ser tão prazeroso quanto os muitos outros sexos que são feitos por aí.
Descobrir como queremos e de que forma desejamos desempenhar nossa sexualidade faz parte de um processo de amadurecimento e de emancipação. Algo que é crucial para que vivamos de forma qualificada e que nos encontremos. Quebrar os papéis, os protocolos e criar nossa forma de vida faz parte do processo de emancipação das mulheres. O que não significa sermos mais ou menos livres que as mulheres heterossexuais, mas sim que a felicidade pode ser encontrada de diversas maneiras. É claro que um beijo entre duas mulheres brancas, com belezas padronizadas, magras, com cabelos longos não diz muito sobre a pluralidade das mulheres lésbicas. Há uma luta enorme para se travar quando além de sermos lésbicas ou bissexuais somos negras, mas ainda assim é uma pequena conquista, que pode abrir espaço para muitas outras que virão. E me certifico que dependendo das companheiras lésbicas e bissexuais com as quais convivo as próximas vitórias são apenas uma questão de tempo.

*Fernanda Kalianny é cientista social, mestranda em antropologia e militante da Marcha Mundial das Mulheres

Comments

  1. Parabéns Fernanda Kalianny

  2. Aine Idun says:

    Parabéns! Incomoda porque mostramos que somos livres para escolher o que queremos em nossas vidas. Incomoda porque rompemos os padrões “faloreligiosos” que oprimem para segregar e explorar. Incomoda porque rompemos os grilhões e as barreiras, porque gritamos com nossos beijos e corpos nossas vozes! Incomoda e incomodaremos a cada pedra retirada do caminho. São séculos e séculos de opressão, estupros, agressões, assassinatos, exploração, abandono, e, derrubar séculos é um senhor caminhar. Que a cada dia possamos romper mais e mais barreiras até o dia em que todas estejamos livres!

  3. Nossa, foi a melhor coisa que já li até hoje sobre lésbicas / bissexuais … PARABÉNS !!!

  4. Nossa, isso é uma realidade. Eu sou evangélica! Mais estou em um relacionamento assim. Não sei o que devo fazer. Mais eu a amo muito. E não sei o que devo fazer! Você é muito verdadeira em suas palavras. Meu parabéns.

  5. Ivana avril says:

    Muito bom concordo e intendo plenamente tamo junto na caminhada pq isso e tudo q nos queremos o respeito e nossa liberdade….

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