Nós, as feministas

Por:  Talita São Thiago Tanscheit*

Em toda família, em todo círculo de amizades, é inevitável: sempre tem uma (ou algumas) para chamar de feminista. Sempre tem aquela que, nos almoços de família, questiona por que são as mulheres que devem retirar a mesa e lavar a louça. Aquela que no colégio nunca entendeu por que futebol era esporte para meninos. Aquela que, quando está a fim de um homem (ou de uma mulher), pega o telefone e liga, sem medo de ser feliz. Aquela que parou o trote da faculdade quando constrangiam as meninas perguntando sobre a sua virgindade.

Aquela que não tem vergonha de ser gorda ou magra, põe o biquíni ou o maiô e passa os dias de verão todos na praia. Aquela que denunciou o pai quando o viu violentando a sua mãe. Aquela que dá uma lição de moral no irmão quando ele diz que ela “deve se dar ao respeito”, e diz para ele, e para quem mais quiser ouvir, que é ela, e mais ninguém, quem dita as regras sobre o corpo dela. Aquelas que vão para o boteco para falar de política, de futebol e de religião. São tantas “aquelas” que não caberiam em um mundo só. Estas somos nós, as feministas.

 

Fonte desconhecida.

Fonte desconhecida.

Nós somos aquelas que te deixam constrangidos quando fazem alguma piada machista. Que te questionam quando você diz que uma mulher “não se deu ao valor”, como se nós tivéssemos um preço fixado e estivéssemos à venda nas prateleiras do seu supermercado mais próximo. Que te faz policiar os seus comentários quando estamos nos mesmos espaços. Que são demitidas porque não aceitam ser assediadas sexualmente no trabalho. Que são perseguidas pelo professor da faculdade porque não riem do seu machismo em sala de aula.

Somos, sobretudo, aquelas que não se resignam, não abaixam a cabeça e que não deixam que os homens as digam sobre o que é certo ou errado. Somos as que reivindicam o direito de ser libertárias, e que são capazes de levar este direito às últimas consequências se vocês quiserem nos polir. Estas somos nós, as feministas.

Nós somos as que carregamos o feminismo como a espinha dorsal de nossos corpos e de nossas vidas. Que sentimos como se fosse em nossas peles quando alguma companheira é morta ou violentada por ser mulher. Que vibramos quando alguma propaganda de cerveja que objetifica nossos corpos é retirada do ar. Que somos procuradas por outras mulheres quando elas querem se informar sobre seus direitos. Que temos relações sexuais depiladas ou não, menstruadas ou não. Que administramos o nosso próprio dinheiro e que exigimos o compartilhamento das tarefas domésticas. Estas somos nós, as feministas.

luchamosNós somos aquelas que nos sentimos realizadas em cada uma das notícias que recebemos: sobre mulheres que saíram de situações de violência doméstica; sobre mulheres que se organizaram em cooperativas e conquistaram sua autonomia econômica; sobre mulheres que concluíram suas carreiras universitárias. Nós nos realizamos mais ainda quando recebemos notícias de mulheres pobres e negras – e que vivenciam o machismo da maneira mais perversa – que, através de sua força, de suas redes e de suas organizações, vêm denunciando e transformando um mundo marcado pelas desigualdades de gênero, raça e classe. Estas somos nós, as feministas.

Nós viemos para subverter a ordem. E como somos muitas, viemos para ficar. Não aceitamos estereótipos de beleza ou de comportamento. Não aceitamos que nos coloquem para competir, ou que digam que mulheres não são amigas. Afirmamos, em alto e bom som, que somos amigas, somos companheiras, somos fortes. Somos mulheres, e essas somos nós, as feministas.

Nós estamos no dia a dia lutando contra todos os tipos de subjugação e de dominação existentes neste mundo construído pelos homens através de um contrato que não assinamos. A naturalidade com que muitos afirmam a subordinação das mulheres aos homens nunca esteve em nosso material genético, como vocês querem nos fazer crer. O nosso único destino é o da luta e o da coragem. São dois substantivos femininos, estão impressos em nossos cromossomos, dão sentido e movem as nossas vidas. Estas somos nós, as feministas.

*Talita São Thiago Tanscheit é militante da Marcha Mundial do Rio de Janeiro.

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