Na Globo: homem branco hétero agencia brasileiras para estrangeiros

*Por Clara Fraga e Laís Paulo

Luciano Huck, contratado da Rede Globo de Televisão, apresentador do programa Caldeirão do Huck traz programas intitulados até como de “caridade” nas tardes de sábado. O programa que inclusive enche de sonhos uma parte da população deu  início a uma nova tag de rede, #meajudaluciano. Recentemente, como na foto do site do próprio programa em reprodução às publicações do apresentador nas redes, em chamada a um talvez novo quadro – para o qual até e-mail da empresa foi destinado – traz uma problematização já debatida diversas vezes aqui no blog: o turismo sexual, a apropriação dos corpos das brasileiras – que são consideradas como as mais bonitas do mundo, ao mesmo tempo em que são as 3ªs maiores vítimas de tráfico internacional de pessoas.

luciano

“Carioca? Solteira? Louca para encontrar um príncipe encantado entre os “gringos” que estão invadindo o Rio de Janeiro durante a Copa? Chegou a sua hora….mande fotos e pq vc quer um gringo “sob  medida” este email; namoradaparagringo@globomail.com”. Foi esse o chamado de Luciano Huck às brasileiras.

Mesmo com alguns erros de pontuação e de concordância, é explícito que o teor dessa postagem tem por objetivo agenciar mulheres brasileiras para homens estrangeiros neste novo quadro do apresentador, proposto no período da Copa do Mundo. A ofensiva dos movimentos de combate à violência contra mulher neste momento no país que sedia a Copa voltam-se para os inúmeros casos de tráfico de meninas e mulheres, que aumenta durante os grandes eventos, além dos diversos casos de turismo sexual, aumento da prostituição de mulheres e crianças, aumento dos casos de violação do corpo das mulheres por turistas chamados de “gringos” e colocados como os possíveis príncipes.

Esses supostos príncipes “surgem” desde a infância na vida das mulheres, através dos constructos sociais de gênero reverberados em desenhos animados, filmes e, massivamente, nas comédias românticas. Volta-se para casos de proxenetas – também chamados de cafetões, agenciadores, mediadores…  E esse apresentador não se enquadraria em um desse casos? Não seria um caso de reverberação do turismo sexual por um formador de opinião?

Sim, reverbera o turismo sexual, prática recorrente de grandes eventos desportivos, principalmente do futebol – que pela mídia quase sempre vem acompanhado de cerveja e mulheres objetificadas pelo sistema patriarcal de subordinação da mulher, sensualizadas pelo constructo social do que é mulher brasileira, da que pertence e está disponível aos homens, dos conceitos de heteronormatividade.

Não é coincidência que este é o protagonista de outra tag virtual polêmica e recusada pelos movimentos de combate ao racismo, no qual um homem branco e apresentador da TV se “soma” à luta e diz #somostodosmacacos com direito até a foto em rede social. O que pode soar até parecido com o conceito de globalização neoliberal, que globalizou as opressões, agora propõe “a junção da fome e da vontade comer”.

A vontade de comer, sim!

Vontade de comer e de dar de comer para a família! Num país que a mulher negra recebe em média R$544,40 e um homem branco R$1.491,00 e para as taxas de desemprego respectivamente 12,5% para 5,3% – segundo pesquisa do IPEA de 2009 – há vontade de comer, há vontade de ter, há vontade de ser o que “quem trabalha consegue”, o que “quem quer consegue” – mas que falha quando somos mulheres. E a fome, essa fica aos homens, mulheres dispostas em um banquete para os gringos chegarem de seus países e escolherem, para a mulher ser colocada como objeto dos homens mais uma vez.

A mulher, a mesma que é ensinada a cuidar do privado, a mesma que recebe menos por ser mulher, a mesma que é abusada diariamente, recebe a chance de ter outra vivência – e com alguém que possui melhor condição financeira que ela em sua maioria, afinal, quantos “gringos” pobres vieram? – por um apresentador tão conhecido pela ajuda ao próximo. Seria mais uma boa intenção? #meajudaluciano?

Não é difícil de recusar um convite que para mulheres – e não de hoje – é processo de promessa de vida própria e autonomia. Foi assim pra mães, avós, bisavós e continua sendo, e seria este outro caso de casamento arranjado moderno, globalizado. Seria assim o processo emancipatório e de libertação sexual que combate o patriarcado? Seria reverberando a mesma história com uma nova maquiagem?

Objetificar o corpo e a vida das mulheres à disposição de homens de outras nações foram os preceitos para o estupro de índias e depois mulheres negras escravizadas, e estão em livros, com a romantização do estupro. Com o mesmo perfil neoliberal, se remodela e reinfiltra sendo justificado pela “liberdade sexual”, só que esse modelo de “liberdade” sexual é heteronormativo, é patriarcal, uma vez que está a serviço dos desejos e interesses dos homens, uma “liberdade” da qual a mulher está alheia ao seu próprio corpo e sexualidade. Essa realidade já desconstrói qualquer possibilidade do processo emancipatório da mulher porque delimita em seu cerne que as mulheres são escolhidas pelos homens – e no caso do quadro do programa não seria diferente, afinal seria para qual motivo as fotos e resposta do porquê de se desejar um gringo?

Gritamos de todo Brasil um basta! Basta de turismo sexual! Basta das apropriações dos corpos e vida das mulheres! Basta da objetificação da mulher! Basta de heteronormatividade!

BASTA DE CAFETÕES! BASTA DE AGENCIADORES!


*Clara Fraga é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Paraná, e Laís Paulo é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Salvador.

Comments

  1. Gostaria de fazer uma pergunta.. Qual é a opinião da MMM sobre os respectivos programas de televisão em que convidam mulheres para conhecerem homens? Aqueles em que as mulheres ficam sentadas, os homens chegam e se apresentam, depois o casal vai conversar em uma mesinha.. Gostaria de ver uma analise mais profunda a respeito. Muito obrigada! (melhor blog que já favoritei.)

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