Aqui tem mulheres lésbicas e bissexuais na luta!

Por: Letícia Vieira*

Entre os dias 29 de maio e 01 de junho aconteceu em Porto Alegre o VIII Senale – Seminário Nacional de Lésbicas e Bissexuais, cujo tema geral foi “Lesbianidades e feminismos: enfrentando o Machismo, o Racismo e a Lesbofobia”. Diversos movimentos participaram e nós da Marcha Mundial das Mulheres marcamos presença com nosso debate sério e irreverente, buscando refletir nossas práticas feministas e nosso papel enquanto sujeitos políticos.

No evento, tive a oportunidade de ser facilitadora do GT de “Racismo, lesbofobia e outras faces da violência de gênero: enfrentamento e superação”, cujas ideias compartilhei no texto a seguir.

MMM no VIII Senale, Porto Alegre (RS), 2014.

MMM no VIII Senale, Porto Alegre (RS), 2014.

Este grupo de trabalho é de suma importância tendo em vista que lida com pautas muito invisibilizadas na sociedade civil e inclusive nas discussões de gênero, em especial o racismo e a lesbofobia. Ao longo da atividade, discutiremos não apenas as formas de opressão, mas também experiências de enfrentamento e superação.

 Falar de racismo é tratar de um complexo e perverso processo de objetificação de uma raça/etnia, que serviu como base e perpetuação do capitalismo, enquanto processo de acumulação e expansão de capital. Da mesma maneira, a divisão sexual do trabalho também é um dos alicerces desse sistema. É importante nos lembrarmos disso, pois há uma tendência a acreditarmos que os padrões que nos são impostos são naturais.

Em se tratando da mulher negra, os desafios cotidianos pelos quais passamos são vários, uma vez que lidamos com a dupla machismo-racismo, cujas faces são inúmeras. O racismo “trata-se de um fenômeno de abrangência ampla e complexa que penetra e participa da cultura, da política e da ética. Para isso requisita uma série de instrumentos capazes de mover os processos em favor de seus interesses e necessidades de continuidade, mantendo e perpetuando privilégios e hegemonias”. [1]

Vivenciamos a discriminação mascarada por preferência/ gosto em comentários do tipo “você é negra, mas é bonita”; quando uma negra é chamada de “morena” porque “negra” é uma palavra “muito forte”; há também o racismo institucional, que nas palavras de López [2], “não se expressa em atos manifestos, explícitos ou declarados de discriminação (como poderiam ser as manifestações individuais e conscientes que marcam o racismo e a discriminação racial, tal qual reconhecidas e punidas pela Constituição brasileira). Ao contrário, atua de forma difusa no funcionamento cotidiano de instituições e organizações, que operam de forma diferenciada na distribuição de serviços, benefícios e oportunidades aos diferentes segmentos da população do ponto de vista racial.”

Com a ditadura da “beleza” (beleza para quem?) que nos pressiona a buscar sempre um padrão estabelecido pela sociedade, negando nossas origens, nossos traços. Até aquele dia em que paramos na frente do espelho e pensamos: quem sou eu por trás da maquiagem, do cabelo modificado, do nariz que passou por cirurgia, do constante processo de embranquecimento impulsionado pela mídia… Será que as mudanças estéticas que fazemos são apenas por gosto próprio?

Ainda falando sobre padrões estéticos, observamos que a beleza negra é sempre tida como exótica. Quantas modelos negras você já viu estampando revistas com roupas para o dia a dia, em vez de apenas ensaios no estilo “sáfari”, “África”, como se as negras não fizessem parte do público consumidor de roupas como as outras mulheres, por exemplo?

Visto que essas reações discriminatórias se reproduzem de inúmeras maneiras, elas se estendem para nossas relações afetivo-sexuais. Se mulheres negras heterossexuais têm dificuldade em consolidar relacionamentos, com as companheiras negras lésbicas, a questão é mais complicada ainda; se a mulher negra é desvalorizada primordialmente e vista como objeto sexual pelos homens, enquanto as mulheres brancas são as eleitas para os relacionamentos duradouros, nas relações lésbicas, também sofrem discriminação.

Além disso, não nos vemos representadas nos poucos casais representados na mídia, nos blogs e fóruns de redes sociais lésbicas, tampouco nos discursos contra lesbofobia. Interessante recomendar o texto da companheira Jéssica Ipólito: “Onde estão as preta e sapatão?“.

Foto: Sandra Muñoz.

Foto: Sandra Muñoz.

No tocante à lesbofobia, faz-se necessário ressaltar de novo que a violência que enfrentamos cotidianamente – quer por “piadas”, constrangimentos familiares, agressões psicológicas, quer por agressões físicas –, nada mais são do que ações legimitadas por um sistema que deseja controlar os corpos das mulheres, através da heteronormatividade, da maternidade obrigatória, conforme destaca Silvia Federici: “o corpo da mulher é a última fronteira do capitalismo. Querem conquistar o corpo da mulher porque o capitalismo depende dele”/ “Imagine se as mulheres ‘tiram folga’ e param de ter filhos, o capitalismo para. Se não há controle sobre o corpo da mulher, não há controle da força de trabalho.” [3]

Enquanto lésbicas temos nossa sexualidade questionada frequentemente, como se se tratasse apenas de “uma fase”; se somos bissexuais, somos taxadas de indecisas. Em ambos, somos vistas como promíscuas,  sofremos sanções morais, que nos impedem de exercer livremente nossa sexualidade, de amar. A privação desses direitos têm impactos que, em maior ou menos grau, prejudicam nossa auto-estima, nossa visão sobre nossa própria identidade e sobre as expectativas que temos quanto a nós mesmas e aos outros.

Somos bombardeadas a todo momento com a ideia de que nossa orientação sexual não é natural, discurso apoiado sobretudo por correntes religiosas, contribuindo para a perpetuação e aumento da violência contra lésbicas: estupros corretivos – onde frequentemente a vítima é culpabilizada, discursos de ódio, provocando uma vida invisibilizada, sob o medo do preconceito.

Esse invisibilidade (quer por culpa do racismo e/ou lesbofobia) nos restringe/impede nosso acesso à saúde, à prevenção de DST’s, enfim, aos direitos sexuais e reprodutivos, defendidos inúmeras vezes pelos Direitos Humanos, como a Anistia Internacional define, “Os direitos sexuais e reprodutivos abarcam garantias de que ninguém será obrigado a fazer sexo contra sua vontade, e que todos devem ter acesso a informações e serviços médicos para resolver o que fazer com o próprio corpo, como o uso de anticoncepcionais, a prevenção e o enfrentamento de doenças venéreas, decisões sobre casar ou ter filhos, e proteção contra estupro, aborto forçado, esterilização obrigatória e mutilação genital feminina.”

A opressão que sofremos não significa, contudo, que não sejamos sujeitos políticos. Somos construtoras da sociedade. É necessário refletirmos acerca dos obstáculos pelos quais passamos diariamente, compartilhar nossas experiências e nossas formas de resistência, de maneira a nos empoderarmos enquanto irmãs, independentemente das especificidades de nossas lutas.

“Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas.”, Audre Lorde.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

* Letícia Vieira é militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio de Janeiro.

Referências:

[1] Racismo Institucional. Geledés – Instituto da Mulher Negra.

Disponível em: http://www.seppir.gov.br/publicacoes/publicacoes-recentes/racismo-institucional.

[2] LÓPEZ, L.C. The concept of institutional racism: applications within the healthcare field. Interface – Comunic., Saude, Educ., v.16, n.40, p.121-34, jan./mar. 2012.

[3] Federici, Silvia. “El cuerpo de la mujer es la última frontera del capitalismo”.

Disponível em:

http://www.eldiario.es/norte/euskadi/cuerpo-mujer-ultima-frontera-capitalismo_0_260374735.html. Acesso em: 28/05/14

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