Reescrever histórias através da luta

*Por Lizia de Boni

Eu sempre pensei em um dia escrever um breve relato sobre o meu encontro com a luta feminista, mas sempre parei nas primeiras frases. Para nós, jovens mulheres que vivemos na pele as piores situações que o  machismo pode nos proporcionar, e que nos deixam marcas para o resto da vida, é muito difícil racionalizar todos esses momentos e situações.

Esse fim de semana, me deparei com situações que me fizeram entrar em transe. Vi, ouvi relatos e tentei levar todas as situações baseadas na luta, porém com a frieza e praticidade que a vida me ensinou nesses últimos anos. Na volta para casa, ao entrar no avião, me vi sozinha com todos os fantasmas que me assombraram por todos esses anos.
E dentre a solidão e o barulhos das turbinas, me desabei em sentimentos, dor, desespero e choro. Aquele choro fino que um machista um dia me fez pensar ser demostração de fraqueza. Aquele choro fino que me fez reviver num voo de 1h e 25 minutos, 5 anos de humilhação de todos os tipos e formas que uma mulher possa ter passado. É dor de carne, dor de alma.
Contar a minha história não é uma coisa fácil, por que ela não faz parte de um passado. Todas nós sabemos que, por mais que a Lei Maria da Penha tenha nos trazido avanços, ela ainda é frágil. Frágil o bastante para não resguardar a vida das mulheres. Frágil o bastante para não resguardar a minha vida!
violenciammm

Marcha Mundial das Mulheres no Ceará

Cadáveres ainda não conseguem ligar para o 190 informando o número da medida protetiva. Mil metros de distância não te asseguram de um machista que anda armado com uma ponto quarenta.

Eu poderia escrever um livro contando os 5 anos de terror que vivi envolvida num novelo de humilhações, chantagens, desespero e falsas felicidades.

No qual eu adquiri 50 kg, 3 processos dentre agressão física e  ameaça, medidas protetivas que a cada denúncia aumentam em metros mas não em proteção efetiva. Que fui jubilada de minha universidade após sequências de faltas e reprovações.
Que tive que deixar minha casa própria com apenas uma mala, na favela onde fui criada, onde tenho meus amigos, minha família, meu terreiro de umbanda, minha escola de samba, enfim, minha história.
Mas não, hoje eu quero falar de recomeço. Quero falar do dia que a solidariedade feminista ganhou. Quero falar do dia que as companheiras da Marcha Mundial das Mulheres do Espírito Santo me abraçaram e me ajudaram a compreender que não existe luta pelo socialismo sem o combate efetivo ao machismo.
Do dia que comecei a transformar desespero em luta. Reescrever a própria história, para nós jovens, negras e de periferia não é tarefa fácil. Olhar no espelho, se ver no fundo do poço, e fazer um pacto consigo mesma é tarefa revolucionária.
Eu fiz. Ainda que relembrar isso me traga transtornos, agonias, ódios, náuseas e tantos outros sentimentos ruins. Hoje me sinto sobrevivente. Sou uma sobrevivente desse fim de semana no qual me embriaguei e acordei sozinha, de ressaca, mas segura dentro de minha barraca num acampamento de juventude.
Sou sobrevivente a cada dia que chego em casa as 23 horas após caminhar por ruas escuras na volta de faculdade. Sou sobrevivente de inúmeros sambas que frequento e que, diferente de outras mulheres, não fui violentada em meu corpo. Hoje, às 10 horas e 20 minutos da manhã da primeira terça-feira do mês de junho de 2014, sou sobrevivente das garras de um machista homicida em potencial.
De todos os pensamentos soltos, que mê veem à cabeça no momento que escrevo esse desabafo, de coisa eu tenho a certeza: Nós, mulheres que lutamos diariamente pelo pelo feminismo, que doamos a nossa vida pela erradicação machismo em nossa sociedade temos a responsabilidade de auxiliar, apoiar, e ajudar a reerguer todas e quaisquer mulheres que carregam as marcas do machismo na alma.
Reescrever histórias através da luta. É para isso que eu vivo, é assim que continuo vencendo. E será dessa mesma forma que deixaremos de ser sobreviventes para viver em liberdade!
Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!
*Lízia De Boni é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Espírito Santo e da Juventude do PT. 27 anos, mãe da Maria Flor, estudante de Direito, funcionária pública efetiva e que acorda todos os dias disposta a reescrever a sua e a histórias de todas as mulheres desse país. 

Comments

  1. Um forte abraço , juntas , e organizadas vamos mudar o mundo para mudar a vida das mulheres , mudar a vida das mulheres para mudar o mundo .

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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