Funk, Punk Rock, “faça você mesmo”, “girl power” e feminismo

Por: Thais Lapa*

Muitos e muitas recentemente têm falado do fenômeno Valesca Popozuda. A ex dançarina da Gaiola das Popozudas que virou cantora de funk e tem a música “beijinho no ombro” na ponta da língua de muitos e muitas, inclusive de não adeptos ao Funk (antes dela). Eu confesso que para mim ela era só mais uma funkeira até ver uma de suas entrevistas no programa da Marília Gabriela. Achei ela interessante pois parecia uma pessoa tranquila, não parecia ser ela quem desejava vociferar aquele monte de palavrões e linguajar de sexo explícito. Ela até chegou a falar que não gostava de falar palavrão. Por conta daquela entrevista, soou nitidamente que era algum homem escrevia o que ela cantava e que ela apenas veiculava a mensagem que alguém achava que ia “colar” na voz de uma loirona gostosa. Mas isso não foi um problema pra mim, ela se deslocava totalmente do estereótipo que apresentava, fez até eu gostar mais dela. E menos do meio musical do Funk. Me explicarei.

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Valesca Popozuda na Virada Cultural de São Paulo

Fico tentando identificar o que há nela de tão chamativo e envolvente que faça com que até gente de esquerda se “encante”. Alguns dizem que ela é voz “do povo”. Mas aí eu penso: então tudo que é produzido na periferia, mesmo que seja recheado de preconceitos e reafirmações do senso comum, é necessariamente bom? Eu acho as músicas mais recentes dela bem mais comerciais e acessíveis, inclusive vivo brincando que são ótimas pra fazer paródia com músicas de militância. A pegada é boa, claro. Sempre gostei de batida marcada e de música acessível, mas sempre gostei, tanto quanto, de letra boa, com algum teor de criticidade. E é aí que a história desanda.

 E aí entra o punk rock. E a minha trajetória com músicas acessíveis de fazer [não necessariamente de se ouvir]. Eu tive contato bem novinha com o punk rock, e me encantei com o punk rock feito por meninas, principalmente por fazer parte desse ideário do movimento punk do “faça você mesmo”. Era algo realmente do qual você podia fazer parte, os shows eram baratos ou de graça, e você podia inclusive ter uma banda. Entrei nessa e sem tanta dificuldade (mais ou menos, vai), passei a integrar uma banda que ensaiava uma vez por semana e fazia música própria, composta de três mulheres comigo, e um homem. Eu escrevia letras. E acompanhava as bases de guitarra com o baixo. E cantava. Tudo que eu ouvia e admirava dos outros fazerem, ou mesmo tudo que eu achava criticável no mundo, podia caber nas nossas músicas. Chegamos a fazer alguns shows, pena que durou pouco. Era demais!

 E por que estou falando disso? Não faz muito tempo que venho reparando e refletindo que o Funk vem cumprindo um papel de “faça você mesmo” que o Punk Rock cumpria quando eu era jovem (poxa, estou velha mesmo, primeira vez que escrevo isso). E isso é muito bacana, é um meio de expressão, de vivência da cultura e uma forma de se posicionar no mundo. E fácil de dialogar com os outros/as. Poxa, eu adorava punk rock mas confesso que só fui entender muita letra gritada depois de ler encarte de CD (quando chegava na mão um cd e não fita gravada!).

Inclusive tenho um exemplo que pra mim é interessante. Recentemente vi o vídeo das Putinhas Aborteiras, grupo que eu não conhecia até a recente polêmica da veiculação de uma apresentação delas na TVE que resultou em críticas dos conservadores e demissão de dois funcionários da emissora [achei bem injusto aliás, mas não desenvolverei o assunto aqui].

As meninas, até onde sei, são anarquistas e feministas, e cantavam as coisas na lata mesmo, gerou bastante polêmica, mas não é muito diferente do que se canta nas ruas nos atos feministas. Só que não foi isso o que mais me chamou a atenção. O que achei super curioso é que as meninas tinham a pegada do punk rock, se reivindicavam punks e até tinha um baixo acompanhando as músicas que cantavam, umas caixas de bateria… mas o ritmo predominante era o funk! Ele tá ganhando (na real, já tem) seu espaço mesmo, a militância feminista tem se apropriado dele e inclusive a Fuzarca Feminista da MMM faz várias músicas pra atos com bases de funk.

Fuzarca Feminista no Ato Unificado das Mulheres em São Paulo (SP).

Fuzarca Feminista no Ato do 8 de março, em São Paulo (SP).

E o que eu acho o maior mérito dele é o que eu achava também do punk rock: a possibilidade do “faça você mesmo”. Com o punk rock você não precisava saber tocar virtuosamente um instrumento pra produzir música, mas precisa ter instrumentos. Com o Funk você pode baixar uma base pronta, fazer uma letra e pronto. Pode fazer uma versão de uma música que já tem base e letra, botando suas idéias no lugar e pronto. Portanto, me parece que o faça você mesmo do funk tem um potencial enormemente maior, é portanto de fato acessível de se fazer.

Mas acho que tem uma diferença marcante. Embora eu reconheça que há inegavelmente machismo no movimento punk, e que as bandas sejam predominantemente masculinas, há/houve bandas inteiras ou quase inteiras de mulheres, trazendo reflexões explicitamente feministas de diversas vertentes. E quanto digo feministas, quero dizer que elas criticam o machismo vigente, recusam padrões e expectativas colocados sobre as mulheres e muitas vezes têm alguma perspectiva de solidariedade [entre mulheres] e/ou de igualdade colocada [entre as mulheres, entre mulheres e homens].

Punk rock não é só pro seu namorado.

Punk rock não é só pro seu namorado – encarte da banda de punk rock Bulimia

Apenas para registrar, algumas  das bandas que me marcaram foram Bulimia [1998-2001], Dominatrix [1995-hoje] e Infect [1998-2003]. Sem falar do Cólera [1979-hoje], que é um caso à parte, uma banda de homens que não se colocava como homofóbica nem machista; vale a pena ouvir “Por que ela não?” deles [minha ex banda tocava cover! De Bulimia e Dominatrix também, registre-se].

Pois bem. Já o faça você mesmo do funk me parece ainda muito masculino. Claro que há presença de mulheres no funk e cada vez mais elas aparecem. Mas o que quero dizer com masculino é que há pouca saída das expectativas do homem até nas letras de funk cantado por mulheres. Há mulheres que cantam letras de homens, idéias de homens, visões de homens sobre o mundo e sobre a própria mulher. Não esqueçamos que o famoso “Tô ficando atoladinha” cantado pela Tati Quebra Barraco e comemorado por alguns como expressão de liberdade sexual feminina, embora escrita pelo MC Bola de Fogo.

Diversas destas letras músicas reforçam também uma coisa básica que o feminismo em geral arduamente combate: a divisão entre mulheres santas e putas, ambas vivendo em função de homens. Há mulheres MCs, rodeadas de homens fazendo todo o restante do rolê da música. Há mulheres que são cobradas não só como MCs, mas precisam ser também um rosto e/ou corpo bonito, muuuito diferente dos homens. Escapar dos estereótipos, só se for pra reafirmar que podem fazer tudo que o homem pode, ou seja, também podem trepar, trair. Não há muita saída. Para reafirmar-se enquanto mulher você passa a precisar reivindicar ser durona, ser bocuda, falar palavrão e falar de sexo “como um homem”, objetificando o sexo e quem o faz [mesmo que por vezes esteja interpretando, como penso ser o caso da Valesca em algumas situações]. Estou evidentemente fazendo generalizações, posso não estar captando um ou outro funk feito por mulheres que escape dessa linha. Mas o que aparece como predominante é isso.

Falar do direito ao corpo da mulher é, claro, parte do feminismo, mas reforçar a objetificação parece bem pouco transgressor. Alguns/algumas, nesse sentido, situam a Valesca no feminismo liberal [direito individual ao corpo, “a buceta é minha”, ser puta é ser livre e por aí vai]. Pode até ser. Mas tenho dificuldade de pensar nela como expoente de um tipo de feminismo. Entendo que o mínimo a pensar politicamente no feminismo é a questão da igualdade, e consequentemente a crítica da desigualdade, e isso está ausente na Valesca [desculpem se desaponto alguém ao dizer isso]. Mas não estou fazendo nenhum rechaço. Ela me parece representar algo mais ligado ao “girl power”, que não necessariamente pensa na questão da igualdade [nem entre as mulheres, nem entre homens e mulheres], se foca mais na questão de mostrar que as mulheres “também podem” (tudo!) – e as mulheres que “não podem” são as invejosas, as cornas, as empregadinhas, resumindo, não são as fodonas, as que tem poder.

Consideradas divas do pop em "Beautiful liar” Shakira e Beyoncé cantam versos como “Não vamos começar uma briga / Não vale a pena o drama por um lindo mentiroso / A culpa é dele / Nós podemos viver sem ele”.

Consideradas divas do pop em “Beautiful liar” Shakira e Beyoncé cantam versos como “Não vamos começar uma briga / Não vale a pena o drama por um lindo mentiroso / A culpa é dele / Nós podemos viver sem ele”.

E falar de girl power pra mim é lembrar de Spice Girls. E o que eram as Spice Girls, em contexto europeu, senão a expressão de que mulheres podem ser “apimentadas” e poderosas, mas pelo lado de lá, de uma forma bem mais pasteurizada? Se bem que até elas tinham uma visão de amizade e solidariedade entre mulheres… “If you wanna be my lover, you gotta get with my friends” [algo como “se você quer ser meu namorado, você precisa se dar bem com minhas amigas”].

Exemplo similar e mais recente a gente vê na Beyoncé e Shakira cantando em “Beautiful liar” versos como “Não vamos começar uma briga / Não vale a pena o drama por um lindo mentiroso / A culpa é dele / Nós podemos viver sem ele”. Uma lindeza ver mulheres reivindicando amizade e fazendo as pazes entre si ao invés de brigar por homem nas músicas. O oposto de “The boy is mine” da Brandy & Monica [1998], de “O meu amor” do Chico Buarque interpretado pela Marieta Severo e Elba Ramalho na Ópera do Malandro [1978], a básica disputa entre as mocinhas pra ver de quem é o “boy”, ou o “rapaz”.

 Aí vem gente dizer que falar de feminismo não precisa falar de solidariedade entre mulheres. Aí é dureza. Feminismo pode admitir então a competitividade e opressão entre mulheres, motivada pela a disputa por homens? Em uma sociedade machista e patriarcal, um dos maiores ensinamentos que as mulheres têm é que homens são amigos e confiáveis entre si, enquanto mulheres são competitivas, falsas e vão furar seu “zóio” pra pegar seu homem. Mulheres são ensinadas pelo próprio machismo a ver as mulheres como inimigas, enquanto os homens são apenas objeto de desejo – pra casar, pra transar, pro que for. Enquanto isso continua sem críticas ou questionamentos, o machismo segue forte e ileso.

Aí a questão que fica pra mim é: mesmo que a Valesca Popozuda seja considerada um fenômeno, o que de fato ela traz de construtivo para as mulheres em geral? Será que o maior inimigo da mulher é de fato o recalque e inveja alheia, de outras mulheres? Não estamos reforçando tudo que o feminismo combate ao sustentar uma cantora que está surfando a onda do momento [ok, legítimo] como um expoente de libertação para as mulheres? Afinal, é libertação do que, do recalque, da inveja e das inimigAs, pra conseguir o macho que se quiser? Acho que o pressuposto de qualquer feminismo teria que ser combater o machismo. Sou totalmente a favor do Girl Power, e inclusive entusiasta dele [isso pode soar muuuito contraditório, mas é isso mesmo, acho que as mulheres têm que tem poder para estar em todos os lugares e fazer tudo que os homens fazem sim, isso seria uma tentativa de “igualdade” de direitos sob o capitalismo, permeada de todas as suas contradições], mas que não o confundamos com feminismo. Feminismo é um projeto de transformação societário balizado nos princípios da igualdade, liberdade e emancipação do conjunto das mulheres. Não deve admitir, assim, opressões e explorações sobre o outro, ou sobre a outra.

 O feminismo que sustento é o que nos coloca em luta até que todas sejamos livres.


Thais Lapa é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

Comments

  1. Débora Mendonça says:

    Gostei demais viu? Boas reflexões. Parabéns compa, acrescentou muito no debate.

  2. Patrícia Velasques says:

    Demais 😉

  3. Texto muito bom. Há braços!

  4. Mariana Parra says:

    Eu concordo totalmente com a reflexão, e acho que a solidariedade entre mulheres é uma das principais chaves e frentes de batalha que temos. É uma coisa a ser construída, em todos os espaços que ocupamos.
    Agora, acho que a música da Valesca, Beijinho no Ombro, pode ser interpretada além disso. Falando sinceramente como feminista: eu já sofri com machismo em ambiente de trabalho, em outros ambientes, com relação à homens, aquele poder estrutural, aquela merda de você não ser ouvida da mesma maneira, simplesmente por não ter um pau. É revoltante, é uma merda. Mas o machismo que mais me machuca é o machismo que vem das mulheres. Claro que como feministas, temos o papel de tentar dialogar, de buscar a cooperação, o diálogo, a reflexão, sempre. Mas às vezes, camaradas, a opressão dentro do oprimido é uma coisa muito forte e arraigada, e muitas dessas mulheres reforçam o poder masculino, te minam, e sim, tem um recalque lascado, tem ódio mesmo de você, por você querer ser livre.
    Aí trago Nietzsche: as ovelhas se unem contra o lobo, as ovelhas amam seu pastor. Quem ousa se libertar é muitas vezes odiado pelos que amam a escravidão. E isso machuca, machuca muito. E lembremos que muitas vezes isso está dentro da própria família, nas nossas relações mais próximas. Não, não é todo mundo que tem a sorte de nascer numa família de feministas. E por vezes encontramos apoio em amigas, e também em amigos, muito mais do que em algumas mulheres na nossa vida.
    E aí, companheiras, eu sou uma que confesso: simpatizo com a música Beijinho no Ombro, é pra lavar a alma rs, e digo mais, tanto pra essas mulheres quanto para os homens também! talvez principalmente! porque homens muitas vezes (inclusive muitos de esquerda!) odeiam ver uma mulher inteligente, odeiam ver uma mulher derrubando seus argumentos, recorrem aos velhos métodos machistas, vêm querer nos dar conselhos. Aí, sai pra lá recalque! Não suportam serem questionados, serem superados por mulheres.
    Mas enfim, novamente, a música, com certeza, pode aludir à velha rivalidade entre as mulheres alimentada pelo machismo e patriarcado (embora, tbm, eu veja muita gente se referindo à ideia da música, do inimigAs, mas no geral, apenas usando a ideia da velha rivalidade feminina, enfim, isso pode mesmo ser questionavel). Mas acho que as demais atitudes da Valesca que podem construir algo além disso, atitudes e posições que vejo que ela própria está construindo, tomando consciência… (a adesão dela à campanha contra a cultura do estupro, pra mim, foi foda). Acho que ela é alguém para se dialogar, ela é aberta à isso, e toda questão da liberdade feminina que ela traz, acho que não pode ser negado…

  5. Thaís Lapa says:

    Obrigada! Fico feliz em contribuir com esse debate! 🙂

  6. Não vamos esquecer que a mesma mulher que canta “a porra da buceta é minha” também canta “um otário pra bancar”. Essa pressão que se faz para transformar a Valesca em uma líder feminista da periferia chega a ser bizarra. Ela, claro, soube aproveitar bem o marketing gratuito e inesperado, mas é triste ver isso se disseminando sem um pingo de reflexão. Não dá para falar em músicas feministas – a coisa é tão rara que é preciso isolar frases, se apegar a elas, pois inteira a música não funciona. E como assim ela não gostava de cantar palavrão? Beijinho no ombro foi só uma tentativa de se lançar ao mercado pop (razoavelmente bem sucedida, apesar da grande dívida que ela fez por conta do clipe), mas nos shows (dela e de todos) só o proibidão reina. Fato.

    Que a música é uma poderosa ferramenta de transmissão de ideias e uma agregadora natural ninguém duvida, mas fazer a mesma merda cheia de estereótipos sexistas que os homens já faziam não tornam a coisa automaticamente certa só porque foi dito por alguém que porta uma vagina. “Ainn, mas o funk colabora para a liberdade sexual para as meninas da periferia!” Não, não colabora. Apenas fala para “sentar na pica”, e só.

    E por favor, não venham falando que é uma expressão legítima das periferias brasileiras porque não é nada mais do que uma cópia descarada do Miami Bass – subgênero de música eletrônica que se foi sem deixar saudades. Funk é igual fast-food, se popularizou apenas por ser digestivo para as massas devido à sua simplicidade e por ser excitante ao paladar(sexual), mas não têm conteúdo algum que valha o esforço de consumir.

    “Há, mas isso é mente fechada sua, podemos construir coisas boas dentro do estilo.” No goregrind (estilo metal ultra-pesado) posso isolar uma ou outra coisa neutra, mas quando 90% do conteúdo de uma produção musical incentiva o assassinato, suicídio, estupro e tudo mais de criminoso que se possa imaginar por simples bom senso eu creio que ele (o estilo/movimento goregrind) é problemático na sua essência, e não acho que pode ser consertado. Creio que o mesmo se aplica ao funk, que é somente o primo pobre – de espírito – da música eletrônica.

    O funk atrasa o feminismo.

  7. A valesca é tão feminista e a favor da valorização da mulher que ela tem uma letra assim : LATE ! LATE ! LATE QUE EU TO PASSANDO,CHAMA DE CACHORRA QUE EU FÇO AU AU,CHAMA DE GATINHA QUE EU FAÇO MIAU.

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