Machismo na esquerda: a cerveja que não queremos beber com um estuprador

estupro-é-crime por Fernanda Kalianny e Izabela Nalio –

Refletindo sobre os últimos acontecimentos na Universidade de São Paulo, notamos que o debate acerca do que configura um estupro tem se intensificado, dentro ou fora dos coletivos feministas. Embora esteja ainda muito aquém do necessário para que consigamos reconhecer os casos e punir os agressores dentro do âmbito universitário, aos poucos a imagem de um homem encapuzado e desconhecido saindo de um beco escuro para cometer violência sexual, o estuprador de outrora, tem se dissolvido. Gradualmente, o processo de dar cara a estes estupradores tem sido inevitável, o que se deve ao movimento de mulheres que tem se fortalecido dentro da universidade, nos permitindo ter uma maior percepção de como a cultura do estupro está entranhada em nosso dia a dia.

Ao mesmo tempo em que os estupradores ganham rostos, nos fazendo notar que não se trata de casos isolados, mas de um problema político e social que está relacionado com toda a sociedade, as vítimas também ganham forma. Forma que muitas vezes vem acompanhada de empoderamento e coragem para fazer denúncias e quebrar o silêncio junto com o tabu que envolve os casos de estupro. Com o tempo, fomos percebendo que as vítimas de estupro não são mulheres distantes de nós, que todas temos histórias de violência para contar. Que as mulheres estupradas são nossas colegas, professoras, funcionárias, irmãs ou companheiras de movimento.

Esse processo de reconhecimento não vem acompanhado apenas de alegria, quando quebramos o silêncio trazemos também incômodo e insatisfação porque as pessoas não esperam que os agressores sejam próximos delas, que assistam aulas na cadeira ou na sala ao lado, que estejam no mesmo núcleo de pesquisa ou que diariamente tenham discursos tão bonitos e falsamente emancipadores. Lembremos que na violência que as mulheres sofrem encontramos uma característica peculiar, pois geralmente somos vítimas de homens próximos de nós:  pais, tios, namorados, padrastos, amigos, colegas de curso, companheiros de movimento social ou no mínimo alguém que faz parte do mesmo círculo social.

Nesse sentido, quando os casos vem à tona, quando o movimento feminista reage, há um grande impacto causado na convivência das pessoas que dividem o mesmo espaço. A suposta harmonia que encontrávamos e a falsa liberdade que respirávamos é desmanchada. A cerveja que tomávamos debatendo política ou música deixa de fazer sentido e é só o amargo que fica na boca.  Da mesma forma que é difícil lidar com violências sofridas no ambiente doméstico, é muito difícil tratar as violências que acontecem nesses espaços em que pretensa ou ilusoriamente se acredita que o conhecimento tem um papel emancipador. Logo, a sensação de que ali estávamos bem acolhidas e situadas para as lutas diárias vai pelo ralo.

Nos momentos de denúncia, de forma inesperada, acaba ocorrendo uma cisão entre as mulheres, desde as mais próximas até as mais distantes do agressor e da vítima. Nem todas entendem o acontecimento da mesma forma. Algumas não consideram que houve um “real estupro”, chegando a questionar a veracidade do fato, o que comumente se baseia no tipo de relação que tinha com o agressor, não conseguindo enxergá-lo por trás da imagem que havia sido criada anteriormente. Outras questionam se o movimento não está exagerando nas exigências feitas ao estuprador, havendo ainda aquelas que acreditam que as mulheres precisam agir educando os estupradores.

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Algumas dessas reações, acreditamos, estão ligadas à dificuldade de se colocar no lugar da vítima e de entender que todas as mulheres – inclusive as que duvidam – podem estar sujeitas a casos de violência, seja física, psicológica ou sexual. Faz-se latente
entendermos que ao nos preocuparmos tanto com o que acontecerá com o estuprador, desviamos o nosso olhar daquelas que realmente necessitam ser acolhidas naquele momento: as vítimas. Quando pensamos no direito dos estupradores de continuarem frequentando os mesmos espaços da mulher que sofreu violência, não temos sensibilidade para pensar em como deve ser olhar de segunda a sexta para o homem que te violou. Como deve ser fazer uma prova sentada na cadeira ao lado do agressor ou como é querer se divertir no mesmo espaço em que ele está bebendo com seus amigos. Esquecemos que a vida dele não foi alterada pelo ato cometido, mas que inevitável e efetivamente ele alterou para sempre a vida da mulher que estuprou.

Se é difícil atingirmos o consenso sobre que atitude tomar com relação a esses casos, talvez clareie a nossa mente pensar que relações sexuais não consensuais ou qualquer ato libidinoso sem permissão ou consentimento configuram estupro, e que isso não pode ser admitido, onde quer que seja. É preciso que as vítimas tenham espaço para serem acolhidas e encorajadas a denunciar. É preciso, além disso, que não tenham a sua palavra tida como duvidosa e que não sejam encaradas como pessoas más e vingativas. O processo que se estabelece entre sofrer a violência e denunciá-la é muito árduo e, em muitos casos, sem terem o apoio suficiente ou com medo de como os outros reagirão, as mulheres se calam. Qual é o seu ou o nosso papel diante disso?

Quando pensamos em feminismo outra palavra que nos vem à mente é sororidade. Esta pode ser entendida menos como um ato pessoal de afinidade entre mulheres e mais como um ato político de solidariedade entre mulheres, diante de violências às quais todas estamos sujeitas. A condenação do agressor como “culpado”, por sua vez, não é um ato de julgamento sumário e, portanto, arbitrário, mas um reconhecimento do que configura ou não uma agressão machista e uma real dimensão do quanto isto deve ser intolerável para que nossa convivência seja de fato harmoniosa. Quando tentamos relativizar os casos de estupro ou de machismo como um todo que partem dos homens que convivem conosco, estamos falhando na sororidade que deveríamos ter para com outras mulheres. Por vezes, chegamos a pensar que só aquelas que já foram vítimas de violência conseguem ter noção da dimensão que esse fato tem e de como ele deve ser tratado. Mas se isso é verdade, esperamos que cada vez nos empoderemos mais e não nos deixemos dividir nesses casos. Que o feminismo e a sororidade sejam uma alternativa para que nos solidarizemos cada vez mais com as vítimas, ainda que elas não tenham a nossa cara, a nossa cor, as mesmas amizades, não sejam da mesma classe social, enfim, não sejam nós mesmas.

solidariedadeMMMEncararmos umas às outras como companheiras e entendermos a necessidade de agirmos coletivamente é algo que se constrói e que não está dado naturalmente. Mas como muito ouvimos por aí, quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede. Por extensão, quando uma mulher toma coragem de fazer uma denúncia, quando quebra o silêncio e divide com outras mulheres, bem como com o resto da sociedade, as suas dores relacionadas a abusos sofridos, ninguém retrocede, a sociedade inteira avança. E avança no sentido de um mundo em que a violência não seja mais naturalizada, que a palavra da vítima seja levada a sério e que nenhuma mulher passe mais por casos como os que nós passamos. Portanto, companheiras, denunciemos, estejamos lado a lado, não calando mas dando voz a todas as mulheres, caminhando para um mundo em que sejamos todas livres.

Por Fernanda Kalianny cientista social, mestranda em antropologia e militante da MMM e Izabela Nalio cientista social e mestranda em antropologia.

Comments

  1. Marie Jane says:

    Reblogged this on Pedaços de algo and commented:
    Esquerdomachos, estamos de olho!

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