Sem medo de ser mulher no ENA

*Por Camila Paula

O segundo dia do III Encontro Nacional de Agroeocologia teve sessões simultâneas contemplando as construções e disputas da agroecologia nos territórios brasileiros. Do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, agricultores, agricultoras e movimentos socializaram as experiências de seus locais, reafirmaram suas lutas e fortaleceram o fazer agroecológico.

Feminismo e agroecologia nas ondas do rádio

A programação seguiu com a rádio poste do ENA, uma espécie de rádio comunitária dentro do evento, tocada por comunicadores e comunicadores populares dos diversos movimentos que compõem a Articulação Nacional de Agroecologia, ANA. O primeiro programa a circular pela rádio poste foi Feminismo e Agroecologia, uma realização do GT de Mulheres da ANA. Adriana Vieira e eu falamos da importância das mulheres para a agroeocologia e entrevistamos Miriam Nobre (MMM – SP), Vanessa Schottz (FASE e também GT de Mulheres da ANA), Alessandra Lunas (CONTAG) e Cecília Bernardi (MMM – RS) para que elas falassem sobre a plenária de mulheres que ocorreria logo mais, às 15h, na tenda principal, enquanto demais pessoas circulavam pela feira de saberes e sabores e nos bancos de sementes.

Prendendo a atenção dos e das participantes do encontro, o programa Feminismo e Agroecologia e a rádio conseguiram mostrar que a comunicação é um disseminador essencial de ideias que podem orientar a construção de novas realidades, sendo importante estratégia política para articulação e mobilização.

De norte a sul, mulheres inventam e constroem agroecologia

O batuque feminista com palavras de ordem e cirandas deu início à plenária das mulheres do ENA. Beth Cardoso (CTA e também do GT de Mulheres da ANA) falou da responsabilidade de trazer as vozes das mulheres que não puderam estar presentes e fazer ecoar, no retorno para as casas, as discussões feitas no encontro. Depois de breve cochicho sobre as temáticas abordadas no material elaborado pelo GT de Mulheres da ANA, “Sem feminismo não há agroecologia”, abriu-se para as falas das mulheres.

Foto: Fabio Caffe

Foto: Fabio Caffe

Ione Noronha, agricultora de Unaí, MG, 39 anos, falou da sua luta e deixou uma mensagem de reconhecimento e esperança: “Tem dias que, sozinha, chego a tirar 230 litros de leite das vacas. Mesmo que as pessoas esperem que seja um homem a dar conta deste trabalho, eu não me canso. Quando eu quis vir para o encontro, meu marido e meu filho me perguntaram o que eu vinha fazer aqui. Eu vim pra dizer que nós, mulheres, temos valor e pra encontrar cada uma que luta e sofre como eu, mas que tá construindo a nossa vitória”.

Francisca Eliane, Neneide do RN, agricultora e comerciante de economia solidária, instigou o questionamento das leis de sanitarização que colocam empecilhos para vender os produtos agroecológicos, enquanto é facilitada a produção e comercialização de trangênicos: “Por que nossos produtos não servem? Não servem a essa lógica do capital que está aí, isso sim!”. Dona Miraci Pereira, agricultora que faz parte da Associação de produtores agroecológicos do assentamento Mirasol do Oeste, MT, de 61 anos, disse que sempre tratou de doenças com plantas medicinais e falou que a alimentação saudável, produzida sem agrotóxico ajuda no não desenvolvimento de doenças e arrematou: “Este espaço aqui é de conhecimento. E é o conhecimento que deixa a gente mais forte na luta que é nossa. Nós mulheres temos capacidade”.

Foi abordada ainda a questão da violência contra as mulheres e lembrado o fato dela hoje continuar muito presente na vida das mulheres do campo, não somente a do tipo física, mas também psicológica, quando na negação de direitos e de espaço das mulheres.

Foto: Fabio Caffe

Foto: Fabio Caffe

Outro ponto importante, reforçado pela militante Miriam Nobre (MMM – SP), foi a importância do reconhecimento da terra e da reforma agrária: “Estamos construindo autonomia, territórios livres e buscando viver nosso ser mulher com dignidade”, expressou.

Mesmo com todas as adversidades, as mulheres constroem, inventam a agroecologia e garantem que esta continue existindo, ainda que as empresas e governos digam que é um atraso guardar a semente, cultivar o quintal, entre tantas outras coisas. Nosso critério vai de encontro ao capital desenfreado. Nosso critério de desenvolvimento é comer bem, com saúde, usando plantas medicinais para tratamento de enfermidades. Nós dizemos todos os dias que a agroeocologia dá certo, sim!

O que não significa dizer que abrimos mão de ter nosso próprio dinheiro, de ter direito a crédito e à terra, independente de termos marido ou sermos solteiras, estando também aqui inserida a questão da distribuição do retorno financeiro vindo da produção: o homem não está fazendo um favor quando dá o dinheiro para sua companheira, está entregando a mulher o que lhe é de direito. Ter nosso próprio dinheiro é questão importante no processo de visibilização do trabalho das mulheres, na desconstrução da ideia de que mulheres são apêndices de seus companheiros, como por vezes propõem os conceitos do Estado, que é patriarcal. Além dessas questões, não podemos esquecer que a divisão do trabalho hoje nos explora, submetendo a mulher à jornada de trabalho compartilhada no roçado, não persistindo essa situação de responsabilidades divididas em casa, onde todas as tarefas da casa e cuidados com a família ficam a cargo da mulher.

As mais de 700 mulheres que participaram da plenária saíram convencidas e fortalecidas: Sem FEMINISMO não há AGROECOLOGIA!

*Camila Paula é militante da MMM no Rio Grande do Norte e integrante do Coletivo de Comunicadoras.

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