Contra o machismo padrão FIFA, pela autonomia das mulheres

Neste dia 15 de maio, é convocado por diversos movimentos sociais o Dia Internacional de Lutas Contra a Copa. Nós da Marcha Mundial das Mulheres nos somamos a essa mobilização que busca denunciar as violações de direitos humanos e o controle das nossas cidades e territórios pelo capital, que se intensificam com a Copa da FIFA de 2014. Convocamos, ainda, a todos os movimentos a se somarem ao Bloco “Contra o Machismo Padrão FIFA”.

O corpo das mulheres na Copa dos homens

Não é novidade para ninguém que a Copa do Mundo da FIFA está relacionada com o aumento do turismo sexual e o crescimento da indústria do sexo nos países por onde passa. E se passa por um país em desenvolvimento, que convive com a desigualdade social como elemento fundamental de sua organização social, como é o Brasil, essa indústria se movimenta ainda mais livremente entre as negociatas que envolvem o evento. O acesso aos corpos das mulheres faz parte do mercado do futebol e é incentivado por todo mundo que lucra com a Copa do Mundo, ainda que a FIFA alegue não ter nada a ver com isso.

Camiseta Adidas modelo "machismo padrão FIFA".

Camiseta Adidas modelo “machismo padrão FIFA”.

A propaganda do corpo e da sexualidade das mulheres brasileiras como disponíveis para os homens torcedores já começou muito antes do álbum de figurinhas ser lançado. A Adidas, patrocinadora oficial da Copa, por exemplo, lançou duas camisetas com esse “conceito”. Em uma, ao simbolizar o “Eu amo o Brasil”, o coração se confunde com uma bunda verde e amarela. Em outra, uma mulher de biquíni e a paisagem do Rio de Janeiro dizem tudo.

As casas de prostituição, outro destino dos lucros auferidos com a Copa, mesmo sendo proibidas pela legislação brasileira, anunciam seus serviços em outdoors em Fortaleza e em São Paulo, nos jornais em Florianópolis e em toda a internet. Oscar Maroni, o conhecido (e já condenado) dono de uma das principais casas de prostituição de São Paulo, se apressou em deixar claro qual é sua “jogada de marketing” para o evento: esconder o rosto da mulher prostituída e do cliente que financia a exploração, promovendo sua casa e seu lucro.

Fonte: Agência EFE.

Fonte: Agência EFE.

Vale dizer, ainda, que há uma tentativa de regulamentação das casas de prostituição no Brasil. O projeto de lei apresentado pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL) não visa assegurar direitos para as mulheres nem formas de transformar sua realidade. Com apenas seis artigos, o projeto de lei, ao separar a prostituição da exploração sexual e o serviço sexual livre do serviço sexual forçado, tem como objetivo legitimar a prostituição como um serviço que pode ser comercializado. Em resumo: o discurso da profissão do sexo passa a ser um disfarce para despenalização da cafetinagem. A mesma cafetinagem que estrutura não apenas a prostituição, mas todo o esquema de tráfico de mulheres para a indústria do sexo.

stencil-cafetao-MMMCom a proximidade da Copa do Mundo, está colocado o desafio de posicionar este debate não apenas a partir da constatação de que, por ser um período com muitos turistas homens, haverá uma demanda maior pela prostituição. Este é um fato, mas, muitas vezes, é justamente o argumento para se regulamentar a prostituição, para que se realize em espaços seguros. Mas essa segurança está voltada aos clientes, óbvio, e não às mulheres.

Um dos caminhos que o feminismo tem percorrido para enfrentar a questão do turismo sexual no contexto da Copa do Mundo é o de visibilizar os circuitos estabelecidos da prostituição, de modo a explicitar que o funcionamento do turismo no Brasil tem a prostituição como um pressuposto e uma base de movimentação de bilhões de reais. Legitimar esta prática, sem questionar o papel dos homens, do capital e do Estado, é uma armadilha cuja consequência é o reforço da opressão das mulheres.

Machismo padrão FIFA

A inauguração do primeiro estádio pronto para a Copa do Mundo, o Castelão, em Fortaleza (CE), foi marcada pelas denúncias da exploração sexual de menores, em um contexto de extrema pobreza. Reportagens relataram casos de programas em troca de um prato de comida ou 10 reais e, ainda, em troca de acesso à drogas, como o crack.

O poder público que investiu bilhões para a construção do estádio, não investe o suficiente no combate à exploração sexual e na garantia de condições de vida dignas para a população do entorno, que não tem o direito a saúde, moradia, alimentação e educação assegurados. A mesma realidade foi constatada no entorno do Itaquerão, em São Paulo.

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A realidade no entorno do Castelão mostra um retrato muito diferente do que se quer traçar para a realização da Copa do Mundo, que se baseia na glamourização da prostituição. Somada à situação de desigualdade e pobreza, as meninas pobres viram alvo fácil das redes de aliciadores. Mas, não é apenas a pobreza que leva a essa circunstância. Chama a atenção o fato de que muitas meninas afirmam ter no horizonte a expectativa de conhecer um homem estrangeiro que as tirem de sua realidade.

Isso demonstra, por um lado, que a realidade da vida destas meninas não é satisfatória e por isso querem ir para longe e, por outro lado, que não figura no horizonte delas a perspectiva de construir suas vidas com base na autonomia, reforçando um modelo de mulheres dependentes dos homens.

As mulheres que estão na indústria do sexo se tornam um fator crucial para impulsionar a indústria do entretenimento e do turismo, gerando lucros para as empresas e divisas para os governos. Estas conexões são estruturais e não apenas um efeito colateral da lógica dos grandes eventos e dos mega-empreendimentos.

Quando os corpos das mulheres estão à venda como mercadorias no mercado capitalista, se reafirma mais uma vez, e publicamente, a força do patriarcado. Isso porque há um reconhecimento dos homens como senhores sexuais das mulheres, todos os homens sobre todas as mulheres – e é isso que está errado com a prostituição.

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No neoliberalismo, a banalização da prostituição foi ampliada.  A lógica consumista invadiu todas as esferas da nossa vida, e até o sexo mercantilizado tornou-se um dado indiscutível da economia moderna. Em uma lógica individualista, as relações de dominação são negadas e excluídas das formas de violência contra as mulheres. Além disso, a diversidade cada vez maior das pessoas prostituídas por vezes oculta este lugar da instituição prostituição na sociedade patriarcal que privilegia os homens. Esses seguem sendo a maioria esmagadora dos clientes, mesmo quando se trata da prostituição de rapazes ou de travestis.

Temos que nos desafiar a pensar um outro mundo possível, sem começar a fazer concessões no caminho. O debate é extremante difícil, mas não podemos escolher o caminho mais fácil, não podemos incorporar e reproduzir o discurso que prevalece na mídia só porque na aparência ele se mostre libertário.

O desafio é que o conjunto dos movimentos que estão nas ruas questionando o Estado de Exceção instalado pela FIFA em nosso território incorpore em sua agenda a denúncia do controle e da exploração do trabalho, dos corpos e da sexualidade das mulheres.

Fuzarca Feminista – núcleo jovem da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

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