Das bananas lançadas ao “gosto pessoal”: o racismo nosso de cada dia

Por: Fernanda Kalianny *

20nov2013---manifestantes-carregam-cartazes-durante-marcha-da-consciencia-negra-que-completa-dez-anos-em-2013-nesta-quarta-feira-20-o-tema-deste-ano-e-por-um-brasil-sem-racismo---a-juventude-quer-1384970117184_956x500Nos últimos dias, assistimos à polêmica relacionada a uma agência de publicidade que lançou a campanha “Somos todos macacos”. Diante da dificuldade de uma parcela da população de entender que o racismo existe e que não vivemos em uma democracia racial, torna-se mais fácil relativizar os acontecimentos racistas e dizer que todos somos macacos do que questionar efetivamente a raiz do problema e buscar solucioná-lo. Cria-se então, como bem pontuou a Deputada Leci Brandão, uma campanha que diz que tod@s são macac@s, mas que não está preocupada em problematizar o genocídio d@s jovens negr@s, a morte de Claudia ou de Amarildo.

Ao contrário do que podemos notar em alguns movimentos, como a Marcha das Vadias, não estamos lidando com uma apropriação ou ressignificação de um termo direcionado a um grupo de pessoas e tomado pelo movimento social de forma a empoderar minorias políticas. Estamos sim perante uma tentativa de lucrar em cima do racismo que é direcionado comumente aos jogadores de futebol, mas não só. Homens e mulheres negr@s são vítimas de racismo diariamente no país da falaciosa democracia racial.

Na terra em que muitos se referem às/aos negr@s como “moreninh@s” porque é “feio” ser pret@, o racismo bate com os dois pés no nosso peito cotidianamente. E é também no nosso dia a dia que muit@s de nós aprendemos se somos ou não somos negr@s. É devido à discriminação, ao tratamento diferenciado que recebemos, à forma que enxergam ou simplesmente não veem a nossa beleza ou da falta de crença em nossa capacidade de fazer, entender e/ou criar que percebemos o que alguns querem que entendamos por ser negr@, no país do futebol. O racismo é real, latente e pode ser percebido em diferentes contextos. Bem como são muitas as tentativas de maquiá-lo, fazer confusões ou tentar amenizá-lo colocando-o em outra dimensão.

Nos últimos tempos, tenho pensado muito sobre o racismo travestido de “gosto pessoal” ou “preferência”. Quantas vezes não ouvimos por aí “Não é que eu seja racista, mas eu simplesmente não me atraio por negr@s” ou ainda “Não é que eu não goste de negr@s, mas @s branc@s são tão mais bonit@s”. Havendo também @s que tentam ser mais simpátic@s e dizem coisas como “Poxa, mas que pessoa negra bonita” ou ainda “Ela é negra, mas é bonita”. Algumas pessoas simplesmente não entendem quão racistas são essas afirmações. Afinal, o que estaria por trás dessa beleza ou não beleza das pessoas negras? E por que ao se referir a uma pessoa negra bonita, coloca-se um “mas”?

Pensando no caso das mulheres, é sempre bom lembrarmos qual foi o papel imposto para as mulheres negras durante muito tempo na história do país. É bom não esquecermos da divisão feita, durante séculos, entre as mulheres brancas, santas e feitas para casar e as mulheres negras colocadas no outro polo, ou seja, aquelas com as quais não se podia ter filhos, que tinham uma beleza “exótica” e que eram ótimas apenas para manter relações sexuais. Tentou-se, por séculos, transformar todas as mulheres da “raça” negra em prostitutas, negando-lhes o direito de ter prazer e também amor, da forma que elas quisessem vivê-lo.

Hoje, quando ouço as frases citadas acima ou quando abro o jornal e vejo mais uma notícia de um jogador de futebol chamado de macaco no exterior, é como se continuassem tentando nos negar o direito de vivermos em nossa plenitude, de sermos quem quisermos ser, de olharmo-nos no espelho e não nos acharmos menos merecedor@s de olhares que percebam o quanto somos bonit@s ou ainda como se nos mandassem sair do espaço público e voltar para onde não deveríamos ter saído.

Diante desses casos, logo me vem à mente a necessidade de continuarmos resistindo e lutando contra o racismo que não surge apenas em forma de banana lançada, mas vem também de formas mais sutis, transportadas por olhares, camuflados em “gostos pessoais” e “preferências”. A luta contra o racismo deve ser feita diariamente e aliada à luta contra tantas outras opressões, como o machismo, a lesbofobia, a homofobia, a xenofobia, entre outros, pois faz-se necessário que desconstruamos o racismo em todas as suas formas, das mais visíveis às mais implícitas. Fazendo-se também necessário lembrar que nenhuma opressão caminha sozinha, sendo imprescindível que ao combatermos uma, combatamos também todas as outras.

Marchemos por um mundo em que a “raça” não nos coloque em uma posição subalterna!
Marchemos até que todas sejamos livres!

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Fernanda Kalianny é cientista social, mestranda em Antropologia Social e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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