Rolezinho contra as encoxadas: se o assédio começar, o apito vai soar

Por: Maria Júlia Montero *

Eu só quero é ser feliz
andar tranquilamente com a roupa que escolhi, é
e poder me assegurar
que de burca ou de shortinho
todos vão me respeitar

A violência sexual contra mulheres no transporte público não é uma novidade para nós mulheres. Todos os dias, antes de sair, já pensamos em que roupa colocaremos, depois, pensamos em como vamos encarar aquele metrô/ônibus/trem cheio. Andamos com os cotovelos prontos para afastar qualquer “engraçadinho”. Mas, apesar de não ser nenhuma grande novidade, este ano, a violência contra a mulher nos transportes tem ganhado mais destaque na sociedade.

A lotação absurda do metrô e trem (agravada pelo esquema de corrupção envolvendo o PSDB, Alstom e Siemens, e que ajuda a manter os agressores impunes), o crescimento de páginas e grupos de internet incitando abusos, o destaque dado a alguns casos e a pesquisa do IPEA serviram como gota d’água para as mulheres dizerem: basta!

É por isso que na quinta-feira, dia 10 de abril, nós da Marcha Mundial das Mulheres, juntamente com o Levante Popular da Juventude, fizemos o segundo “rolezinho contra as encoxadas”. O primeiro foi organizado pelo Levante, e aconteceu no dia 2 de abril. Desta vez, fomos até o metrô República denunciar o descaso do metrô e do governo do estado para com a violência contra as mulheres!

Foto: Wilminha.

Ação buscou dialogar principalmente com as mulheres usuárias do metrô, que são vítimas de assédio todos os dias. Foto: Wilminha Souza.

Fomos, com nossas faixas, caixa de som, panfletos, adesivos, apitos, e muita vontade, fazer uma grande agitação no metrô e dialogar com as mulheres que estavam lá, voltando do trabalho para suas casas. Foram quase mil panfletos e adesivos, e 1.100 apitos distribuídos.

Sabemos que muitas mulheres não denunciam porque têm medo, porque ficam constrangidas, e justamente por isso levamos os apitos: se vir um caso de abuso de qualquer tipo acontecendo, com você ou outra mulher, apite! Denuncie!

Mas, quando começamos a distribuí-los, os guardas do metrô (que já tinham vindo conversar conosco para saber o que íamos fazer, porque não queriam que a gente atrapalhasse o funcionamento do metrô, etc, etc),  vetaram algumas coisas, como ficar apitando, porque atrapalharia as pessoas na estação.

Qual não foi nossa surpresa quando as próprias mulheres para quem entregamos os apitos começaram a apitar! Talvez essa tenha sido a melhor parte da manifestação: ver que todas as estão dispostas a quebrar o silêncio que paira sobre a violência pela qual nós passamos, e mais: parar de tratar a violência como se isso fosse algo que diz respeito somente ao agressor e à mulher, e combater a violência em conjunto.

Todas as conquistas que as mulheres têm hoje foram graças a lutas coletivas, e para acabar com a violência contra a mulher não é diferente: mais do que reações individuais, é preciso agir em conjunto!

Os apitos e adesivos foram muito bem recebidos pelas mulheres. Foto: Anna Carolina Souza Dias.

Os apitos e adesivos foram muito bem recebidos pelas mulheres. Foto: Anna Carolina Souza Dias.

Mas não fomos lá só para denunciar, fomos também para exigir medidas de combate à violência. Nós queremos: 1) campanhas de prevenção à violência, incentivo à denúncia e constrangimento do agressor, através dos meios de comunicação que há no transporte, como as TVs do metrô, os espaços para cartazes que há nos trens e CPTM (que são usados para propaganda de tudo, menos para coisas importantes), avisos sonoros (como os que falam como usar o SMS-Denúncia); 2) câmeras, que sirvam para constranger o agressor e para que as mulheres possam reconhecer os agressores; 3) melhoria do atendimento às mulheres vítimas de violência, com treinamento dos funcionários do metrô e CPTM, criação de postos de atendimento nas estações e melhoria da Delpom (delegacia do metropolitano, que serve para atender casos que ocorram dentro do metrô) para que consiga atender os casos, o que significa mais funcionários, capacitação no combate à violência contra a mulher etc; 4) por último, melhoria da qualidade do transporte, porque a violência não acontece por causa da lotação, mas é facilitada por ela.

Queremos medidas efetivas de combate à violência contra a mulher. Somos, portanto, contra falsas soluções, que visam maquiar o problema, mas na verdade deixam tudo como está, como o vagão específico para as mulheres. Essa proposta acaba por responsabilizar as mulheres pela violência e naturalizá-la, pois afirma que, para combatê-la, nós devemos ficar separadas dos homens, e não que eles devem ser punidos pelas agressões. Além do mais, qual será o próximo passo, separar mulheres e homens em todos os locais em que convivem juntos (ou seja, todos), já que a violência não acontece só no transporte?

Além do mais, essa proposta é inviável, porque somos a grande maioria no transporte público. E como ficarão as mulheres que não couberem no vagão específico? A mensagem que essa proposta passa é que elas não estão no vagão especial porque “estão pedindo”, ou algo do tipo.

Nós temos que ter assegurado o direito de andar do jeito que quisermos, onde quisermos, e isso inclui o transporte público: não queremos vagões específicos, queremos o direito a andar em todos os vagões sem sermos agredidas!

A violência contra a mulher acontece porque nossa sociedade é machista e, se queremos combatê-la efetivamente, é preciso questionar o machismo, e não naturalizar a violência como se os homens fossem seres incapazes de se controlar. É preciso agir especificamente contra a violência, criando campanhas, acabando com a impunidade dos agressores, e mostrando que as mulheres merecem respeito como qualquer homem.

O metrô, depois da pressão das ações das mulheres (entre elas, as nossas), começou uma tímida campanha de combate ao assédio sexual. É um começo, e podemos afirmar claramente que é fruto da nossa luta, mas ainda queremos mais. Não vamos nos calar: continuaremos nas ruas, realizando cada vez mais atos, para exigir do governo estadual, do metrô e CPTM medidas efetivas de combate à violência contra a mulher.

Basta de violência contra a mulher! Pelo nosso direito de ir e vir sem sermos assediadas!

Se o assédio começar, o apito vai soar!


OBS: Depois do feriado tem mais! Não deixe de participar dos próximos atos que realizaremos. As informações serão divulgadas aqui e nas nossas redes!

* Maria Júlia Montero é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo e estudante de Letras.

Comments

  1. Rosa Cristina Bertoldi says:

    Muitos parabéns pelas iniciativas! Vocês hão de vencer esta luta!

  2. Ótimo texto! Fico muito feliz de ver cada dia mais a luta das mulheres – e estar nela – trazendo resultados ❤

  3. Acabei de ler um texto em que a prostituião é defendida…bom,se vcs querem legalizar prostituição,então se preparem para suas consequências.Homens em culturas em que comprar os corpos femininos para seu consumo sexual é algo legal e “feminista”,são incapazes de nos ver como seres-humanos.Somos todas b* comercialisáveis,abusos são “brincadeiras”,estupro “diversão”.E é esse o Brasil que vcs querem para nós mulheres.Total contradição quando se revoltam conra gringos que nos vêem como meras bundas.

    Cada vez mais me decepcionando com o movimento feminista…

    • Maria Júlia says:

      IGN, a posição da MMM é contrária a regulamentação da prostituição. Queremos que os governos criem políticas para as mulheres que estão nessa situação (e para que outras não caiam nela), mas não somos favoráveis à regulamentação.

      Aqui no blog, temos alguns textos que expressam esse posicionamento 🙂 no marcador “sexualidade” estão a maioria deles!

      abraços!

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