Para além das estatísticas!

por Thathi Gurgel –

solidariedadeMMM Outro dia ouvi o depoimento de quatro mulheres em situação de violência que mexeram muito comigo.  Infelizmente, sabemos que essa realidade atinge centenas em todo o mundo diariamente. Constato, então, que nos distanciamos bastante das expectativas criadas do que seria o tal século XXI e vemos as práticas machistas persistirem desde que o mundo é mundo.

Fiquei muito feliz em conhecer mais de perto dois equipamentos da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Rio: a Casa Viva Mulher Cora Coralina e o Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM) Chiquinha Gonzaga. A Casa Cora Coralina oferece abrigo, de forma sigilosa, às mulheres que correm risco de morte. Lá elas “resgatam” suas cidadanias: tiram documentos, têm acompanhamento psicológico e jurídico, vão ao médico, etc. Seus filhos pequenos ficam “abrigados” com elas e passam a ter uma vida “normal”: vão à escola todos os dias e passam a ter uma rotina “regrada”. A busca pela acolhida é livre e espontânea por parte das mulheres. Elas vão quando tomam coragem e vão embora quando se sentem preparadas para encarar o mundão novamente. No CEAM, que fica na Praça Onze, em frente ao Terreirão do Samba, elas recebem acompanhamento psicológico e instruções de direitos às vítimas.

Embora muitas pessoas não vejam, a violência doméstica ainda é devastadora para as mulheres. Os ciúmes e o sentimento de posse dos homens são fatores predominantes nesses casos. As quatro mulheres que contaram um pouco de suas vidas deixaram seus trabalhos e autonomias a pedido dos maridos. “Ela achava que eu era empregada dele, e não mulher”, contou uma que tomou uma surra quando estava de resguardo no hospital com seu bebê. Como o recém-nascido teve que ficar internado nos primeiros dias de vida, o marido achou que ela estava traindo ele no próprio hospital. “Deixa o bebê no hospital e vem fazer comida e lavar as minhas roupas. Eu tenho que trabalhar, como é que eu faço?”, questionava ele.

Uma outra, após 15 anos de casada, recebeu um e-mail do marido militar que estava viajando a trabalho dizendo que ele voltaria em determinada data com a amante para morar com as duas (!!!). Ela chegou a tentar o suicídio, mas graças a uma propaganda da Lei Maria da Penha, em um vagão de trem, ela se instruiu e foi buscar ajuda. Após seu fortalecimento e o reconhecimento de que estava sofrendo violência psicológica, imprimiu a Lei e foi com ela debaixo do braço a uma delegacia. “A violência psicológica é pior que a física porque a gente vai morrendo aos poucos. Quando fui à delegacia estava tão imponderada que parecia que a Maria da Penha estava ao meu lado, mesmo sem eu ter conhecido ela”, contou.

“A última vez que eu sorri acho que foi quando eu era criança”, “eu pensei que fosse virar estatística”, “ele achava que era meu dono” foram algumas frases marcantes que essas mulheres que passaram pelo CEAM e pela Casa Viva Mulher Cora Coralina falaram. Outras coisas que elas têm em comum são a gratidão por terem passado por esses equipamentos que as acolheram tão bem, a vontade de ajudar outras mulheres a romperem com o ciclo de violência, a voltarem a sorrir e a buscarem suas autonomias.

Os casos encontrados no CEAM e na Casa Viva Mulher Cora Coralina evidenciam a importância de aparelhos públicos como esses na garantia do combate a violência contra às mulheres. Romper com ciclo de violência doméstico (física e psicológica) é extremamente difícil, porque um dia acontece a agressão, no outro a lua de mel, e com isso a esperança de que vai ficar tudo bem. Fica a dica para que haja uma maior divulgação desses equipamentos e das leis que nos protegem para que mais mulheres possam buscar auxílio.

Sejamos realmente companheiras e solidárias umas com as outras. E que sejamos cada vez mais autônomas e fortes para lutar.

Até que todas sejamos livres!

Thathi Gurgel é jornalista e militante da Marcha Mundial das Mulheres Rio de Janeiro.

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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