As jovens na MMM: experiências europeias

Por: Clara Carbunar  /  Tradução livre: Bruna Provazi *

A situação em que vivem as jovens na Europa precisa ser compreendida no novo contexto das grandes transformações econômicas, ideológicas e políticas que vivemos há alguns anos. A realidade na Europa é um ataque dos mercados financeiros e do capitalismo, um retrocesso ideológico e uma ampliação dos valores tradicionais. Um ataque às práticas democráticas que conferem voz e voto aos povos, em matéria de organização social e decisões políticas.

Na Europa, vivemos uma crise do sistema social-democrata que, se não era perfeito, garantia ao menos um mínimo de solidariedade entre gerações, classes sociais, e entre a população de um país e seus imigrantes. Essa solidariedade passava pela redução de impostos, por um sistema de pensões e redistribuição de emprego, por serviços públicos e educação gratuita ou a baixo custo, transporte público, etc.

Entretanto, esse modelo chegou ao fim, e os ataques neoliberais contra a Europa conduzem a políticas de austeridade, à privatização dos bens comuns, à destruição de direitos sociais e à explosão das desigualdades.

Os efeitos da crise

Essa é a realidade da Europa Ocidental, porque no leste europeu nunca houve social-democracia. Com a queda do bloco soviético e dos regimes comunistas, o capitalismo veio disfarçado por uma imagem de liberdade e, desde então, se instalou nesses territórios de forma selvagem. A divisão cultural, política e social entre a Europa Ocidental (incluindo a Grécia e a Turquia) e a do Leste, antigamente comunista, é um dos pontos centrais para entender as formas de mobilização no continente.

No leste europeu, com a escassez de movimentos sociais estruturados, as jovens têm iniciado novas lutas sem poder se apoiarem no dinamismo dos movimentos organizados, enquanto na Europa Ocidental existe toda uma diversidade de organizações, sindicatos e partidos políticos. Essas organizações, incluindo os movimentos de mulheres, estão dominados por ativistas da geração dos anos de 1970. Como jovens, nos beneficiamos desse conhecimento as análises produzidas e do esforço que numerosas mulheres para manter essa memória, em arquivos feministas e lésbicos, mas também através de práticas concretas de luta. Ao mesmo tempo, temos que encontrar nosso lugar nos movimentos, nos quais frequentemente observamos interesses de poder. Mas necessitamos de uma nova política.

Somos a primeira geração que sabe que vai viver pior que seus pais. O acesso à universidade está cada vez mais difícil, assim como o acesso ao trabalho, ao passo em que cresce o trabalho precarizado e a indústria sexual. Esse cenário obriga as mulheres jovens a aceitarem empregos que sexualizam seus corpos, e ocasiona numerosas migrações. Além disso, direitos fundamentais de nossas antepassadas estão sendo questionados, como o aborto legal, com base em argumentos econômicos, nacionalistas e religiosos.


Resistindo

Clara Carbunar, militante da MMM-França.

Clara Carbunar, MMM-França.

Diante dessa situação, lutamos para manter nossos direitos, e não para conquistar novos direitos. Nossa experiência concreta com essa realidade nos leva a inventar coisas novas, então criamos a vida em comum: práticas de supervivência de solidariedade e maneiras de nos organizarmos. Acumular vários empregos e formações ou viver em uma situação de precariedade impede, muitas vezes, as jovens a se envolverem em projetos a médio prazo, pois não sabemos o que acontecerá na semana seguinte.

Como jovens, temos a responsabilidade de transmitir nossas visões e práticas de luta a todas. Temos que atuar conjuntamente com a diversidade de vivências e experiências, a fim de descobrir novas formas de resistência. Como as mulheres negras, indígenas ou lésbicas souberam, em seu momento, expressar sua voz no movimento de mulheres de forma teórica e prática, nós jovens também sabemos falar de nossas realidades e das análises que fazemos das práticas que derivam delas.

Há três anos, temos organizado acampamentos de jovens feministas: na França, em 2001, na Romênia, em 2012, e em Portugal, em 2013. Os acampamentos surgem da necessidade de nos organizarmos a nível europeu, já que todo o continente está ameaçado, e de reforçar a MMM na Europa. São momentos para nos conhecermos e construirmos lutas juntas. São experiências de auto-gestão e funcionamento não-hierárquico, com assembleias gerais a cada noite, compartilhamento de todas as tarefas e definição conjunta do programa no início de cada semana.

Outra forma de organização

Acreditamos que existe uma tensão entre a luta política clássica (redes formais, redação de manifestos políticos, organização de manifestações) e a experimentação de práticas alternativas. A tensão que existe está no questionamento entre “fazer bem a si mesma” e ser eficaz para a transformação da sociedade. Temos que compreender, entretanto, que esses espaços não-hierárquicos e alternativos são excepcionais, pois vivemos um contexto de machismo cotidiano, em que somos educadas para obedecer.

Na Europa, os movimentos sociais não são movimentos de massa, e geralmente estão divididos ou atomizados. Esses movimentos não conseguem atrair muitas jovens devido à sua incapacidade de integrá-las em suas estruturas tradicionais, mas também pelo desenvolvimento de uma ideologia individualista em que cada um só protege a si mesmo e a sua família. Recentemente na Espanha, especialmente em Barcelona e em Madri, o movimento Os Indignados agregou um grande número de pessoas, muitas delas desconfiadas das organizações políticas e sindicais.

Acampamento das Jovens da MMM na Romênia, 2012. Foto: Nathalia Capellini.

Acampamento das Jovens da MMM na Romênia, 2012. Foto: Nathalia Capellini.

A dificuldade dos movimento sociais hoje reside em saber como reagir a esses ataques múltiplos e fortes aos povos. A criminalização dos movimentos sociais, o uso de armas contra a população nas manifestações, a prisão de ativistas e a ascensão de leis anti-terroristas acontecem juntamente com a reorganização da extrema direita e de grupos fascistas e neo-nazistas, que tomam as ruas em diversos países. Na França, a onda conservadora contrária ao casamento homoafetivo e em apoio à família tradicional, assim como políticas estatais racistas, anti-semitas e xenófobas. O sexismo e o racismo fazem parte de uma ideologia cada vez mais fascista.

Nós que estamos preocupadas com a retomada do fascismo sabemos que precisamos conhecer as experiências da América Latina, e que precisamos da ajuda de vocês para compreender como nos levantarmos de forma estratégica. Porque, recuperando as experiências históricas, como depoimentos de feministas ou lésbicas, durante a ascensão do fascismo na década de 1930 na Europa, sabemos que as ditaduras diretas que a América Latina sofreu, nos anos 70 e 80, do ponto de vista político, fazem parte do mesmo modelo neoliberal.

Nosso desafio é multiplicar as lutas e os espaços que permitam às jovens tornarem-se feministas e libertarem-se da crescente alienação através de práticas coletivas feministas ou lésbicas. Precisamos construir uma cultura de força e solidariedade entre as mulheres, de autonomia para que possamos nos defender verbalmente e fisicamente de todas as violências que sofremos. Precisamos transmitir nossa memória e experiência e precisamos de criatividade para renovar e redefinir nossas lutas feministas.

No acampamento de 2013, a palavra que mais nos motivava era Utopias. Os olhos das mulheres brilhavam ao pensar em maneiras de ampliar nossos espaços feministas de solidariedade, aprendizado, respeito e amor entre nós. Há muito o que fazer. Precisamos confiar em nós mulheres, mas também em nós mulheres jovens e jovens feministas. Como foi dito no acampamento: “nós também temos o direito de errar”. Precisamos da criatividade de cada uma. Isso implica em assumir riscos, agora mais que nunca, e justamente agora que é mais difícil. Isso implica em sair de nossas zonas de conforto militante. Implica em poder usar o que foi construído pelo movimento de mulheres para inventar e desenvolver nossas lutas. E é isso que estamos fazendo.

* Texto: Clara Carbunar, militante da Marcha Mundial das Mulheres na França.

 Tradução livre: Bruna Provazi, militante da MMM em São Paulo.

Contato/Contact: mmfjeunes@gmail.com  |   Leia o texto original (em espanhol) aqui.

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