Nota de repúdio ao clipe “Tigrão gostoso”, da Banda Abrakadabra

Nós, movimentos sociais, entidades estudantis e organizações, viemos declarar nosso repúdio à banda conquistense Abrakadabra e seus patrocinadores pela veiculação do clipe da música “Tigrão Gostoso”, disponível no youtube. No início do clipe, retrata-se uma situação que é corriqueira na vida de todas as mulheres, que vivem diariamente o medo e a insegurança de serem violentadas ao andarem sozinhas à noite ou em ruas desertas. Entretanto, ao invés de se denunciar a violência sexual, o clipe se desenrola de forma a enaltecer a posição do estuprador, colocado como a figura do “tigrão gostoso”, de modo a associar a agressividade à masculinidade. Por outro lado, reforça a imagem da mulher como um ser frágil e submisso, sem autonomia de vontade, sendo explícita a apologia ao estupro durante toda a música, como pode-se perceber no trecho: “é na hora do espanto que o bicho vai pegar”.

Infelizmente, esse não é um caso isolado e não se relaciona apenas a um determinado estilo musical. Cotidianamente, as infinitas formas de violência contra a mulher passam despercebidas nas rádios, na TV, nos outdoors. A exemplo disso, temos as propagandas de cerveja e de determinadas festas, em que os corpos seminus das mulheres são utilizados com objetivos comerciais, reforçando o estereótipo equivocado da mulher como mercadoria, como objeto sexual, reproduzindo discursos e práticas machistas, num processo de mercantilização do corpo feminino.

A violência é utilizada como forma de controle sobre a vida, o corpo e a sexualidade das mulheres, como uma punição para aquelas que não obedecem aos padrões de conduta a elas impostas. O estupro é talvez a manifestação mais cruel da violência machista, pois anuncia o fato de que a mulher não tem possibilidade de escolhas sobre o seu próprio corpo, e que nossas vidas estão inscritas no limite da subordinação aos homens. O medo do estupro restringe a liberdade de ir e vir das mulheres, viola o seu direito de livre expressão (de poder se vestir como quiser, por exemplo), sendo que a cultura do estupro culpabiliza a mulher pela violência sofrida, pelo fato de estarem utilizando determinadas roupas ou frequentando determinados locais.

No Brasil, as estimativas acerca da violência crescem assustadoramente a cada ano (somente no ano de 2012, o número de estupros notificados chegou a 50 mil), e casos de estupro coletivo indignam a sociedade, que se mobiliza exigindo a punição, como o da Banda New Hit, cujos 9 integrantes, no ano passado, violentaram covardemente duas jovens menores de idade após um show em praça pública na cidade de Ruy Barbosa, na Bahia. Diante disto, um clipe como este representa uma afronta aos direitos das mulheres e não ficará por isso mesmo! É inadmissível que uma banda lucre a partir da naturalização da violência, da apologia ao estupro e do incentivo à transfobia! Vale lembrar aos integrantes da banda Abrakadabra que apologia ao estupro é CRIME punido com detenção pelo Código Penal, em seu artigo 287.

Desta forma é que iniciamos esta campanha de denúncia, exigindo que a produção da banda e os patrocinadores se pronunciem e que retirem do ar o clipe, contando também com a colaboração de todos e todas que leiam esta nota para que DENUNCIEM O VÍDEO NO YOUTUBE. Importa ressaltar que não se trata de preconceito ou aversão ao estilo musical, mas sim de uma indignação diante de uma apologia tão explícita à violência.

Não nos calaremos!

Contra a banalização da violência, seguiremos em marcha!

Assinam esta nota:
Marcha Mundial das Mulheres
Núcleo Maria Rogaciana
Núcleo Negra Zeferina
União de Mulheres de Vitória da Conquista
Levante Popular da Juventude
Consulta Popular
Movimento Negro Unificado
Sindicato dos Bancários de Vitória da Conquista e Região
Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza Pública da Bahia – SINDILIMP
Circuito Fora do Eixo
Grupo ELO
KIzomba Lilás
Enegrecer – Coletivo Nacional de Juventude Negra
Rede Ecumênica da Juventude – REJU
Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher – NEIM/UFBA
Observatório pela Aplicação da Lei Maria da Penha – OBSERVE
Coletivo de Diversidade Sexual FINAS
Grupo de Lésbicas SAFO
Diretório Central de Estudantes – UFBA
Centro Acadêmico de Ciências Sociais/ UESB
Centro Acadêmico Ruy Medeiros – Direito/ UESB
Centro Acadêmico de Geografia – UESB
Centro Acadêmico de Nutrição IMS/UFBA – Gestão RenovAÇÃO
Centro Acadêmico de Comunicação – UESB
Centro Acadêmico Machado Neto – Direito/ FAINOR
Diretório Acadêmico de Engenharia Elétrica – IFBA
Centro Acadêmico de Filosofia – UESB
Diretório Acadêmico Luislinda Valois – Direito/ UNEB – Campus XX)
Federação de Estudantes de Agronomia do Brasil – FEAB
Associação Brasileira de Estudantes de Engenharia Florestal – ABEEF
GUNALE – Grêmio da União Aluno-Escola IFBA

PS: Estas são as empresas que patrocinam o clipe: Centor de Estética Dr. Humberto Neto; Zip Nautica Vitória da Conquista; Mil Coisas Moda Fitness; MNA Suplementos; Life Club Academia; danilonune.com.br; YagoBorges Designer Gráfico.

Comments

  1. Parabéns pela denúncia!
    Parece que já deu resultados, pois ao entrar no youtube para ver o video dizia que o mesmo foi removido! :]

  2. Assino a nota juntamente com as entidades signatárias!

  3. ” viola o seu direito de livre expressão (de poder se vestir como quiser, por exemplo), ”

    na hora de se vestir vulgarmente,dançar funk,etc,ninguém pensa no patriarcado.Só na hora da consequência (que ninguém quer assumir).Se feminista vive pregando que nós temos o direito de nos reduzirmos á mercadorias sexuais,por que reclamam quando os homens nos tratam como uma? Vivem dizendo que nós podemos andar peladas por aí e depois reclamam de mulheres nuas na mídia? Ora,não estariam as mulheres nuas da midia exrercnedo sua “liberdade de corpo”? Farta dessa hipocria feminista…

    • A consequência é culpa do patriarcado. Infelizmente, lourdes, você está culpabilizando a vítima… você está dizendo que há mulheres estupráveis, que são aquelas inconsequentes. Toda mulher deve ter o direito a uma vida sem violência, independente do modo de vida que tem.

      • E um detalhe: observo que sempre que a vulgaridade feminina é mencionada quem menciona é acusado de culpabilizar vítimas ou fazer apologia ao estupro.Como assim? não se pode criticar nenhum comportamneto feminino que colabora com o machismo? Então,só é machismo quando o homem pratica (nos objetifica) e nunca quando nós o praticamos (nos reduzimos a objetos sexuais do jeito que o machismo gosta).Nós nunca podemos nos responsabilizar por nada que fazemos? Homens já nos vêem todas como bundas( vide essa nova campanha de uma ONG),até meninas de 10 anos,como lamentavelmente acabei de saber,e o que a gente faz é ser uma bunda? Não faz sentido.

  4. Quem reforça essa cultura de que somso corpos estuprávais são as próprias pregações feministas em favor da auto-objetificação feminina,para depois pagarem de “vítimas” quando as tais pregações voltam contra todas nós!Exemplo disso é o funk ter sido acalamado como “patrimônio cultural do Rio de janeiro”.Siceramnete,o que vcs esperam de tal coisa? A tendência é irmos cada vez mais fundo no ralo.

    • Lourdes, a questão é: as mulheres na mídia estão lá como objetos, elas estão lá justamente para servir a um determinado papel. Uma mulher que sai de saia curta na rua não, ela pode estar só com calor. Ou vc vai dizer que na praia as mulheres estão elas mesmas se objetificando porque usam biquini ou maiô? É tudo uma questão de regras que foram criadas, que não são naturais, e que curiosamente servem só para as mulheres.

      • Se fosse assim,as roupas dos homens também seriam objetificadas e sabemos que não são.As roupas deles são sempre mais largas,mais confortáveis,enquanto as nossas são para expressar sensualidade,SEMPRE.Os homens não usam sungas minúsculas aparecendo a polpa da bunda.É a isso que me refiro: nossas roupas são sexualizadas,mesmo quando são calças compridas.Um bom exemplos são so uniformes das atletas da última Olimpíada.Então,a questão não é ser curto,ser longo…é a forma sexualizada.

  5. Não consegui ver o clip, mas estou de acordo com os argumentos apresentados pelos proponentes e apoiadores que protestam contra a apologia ao crime da banda Abracadabra. Temos que reagir e agir sempre…
    .

  6. jussara silva says:

    Realmente concordo com as companheiras. Precisamos conscientizar a mulherada que cada dia que passa nós estamos perdendo a essência, a mulher estar sendo muito sendo exposto a vulgaridade, banalidade. temos cobrar que das autoridades competentes, seja o Ministério Publico que entre em providencia quando se faz apologia ao crime…vejo assim, porque condiz com abusos. Eu também repudio.

  7. Como Faremos para assinar? Centro Acadêmico Vladimir Herzog da Faculdade de Comunicação da UFBA.

Trackbacks

  1. […] Para Luiza Maia, o clipe também incita, “sem chance de dúvida, a prática de crimes contra a liberdade sexual, como os de estupro e atentado violento ao pudor, previstos nos arts. 213 e 214 do Código Penal”. O vídeo, que foi lançando em dezembro e já ultrapassava 60 mil visualizações, foi removido do Youtube. No último dia 27, a Marcha Mundial das Mulheres divulgou uma nota de repúdio contra a banda. […]

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