Valesca Popozuda: sua buceta também pode ser nossa!

* Por Alana Moraes

Tem agora esse debate sobre a presença das mulheres no Funk (acho que mais no Rio do que em São Paulo). Dizem que elas produzem um tipo de musica e movimento que tem a ver com a interpretação das mulheres faveladas e das periferias sobre o debate da autonomia do corpo. “A porra da buceta é minha” ou “ My pussy é o poder” são os trechos preferidos d@s novos analistas, ativistas e estudios@s do funk feminista. Esse movimento, que pretende não só analisar as letras e postura estética do funk carioca, também tem uma posição politica que se resume mais ou menos em dizer: “olha, feministas brancas-conservadoras-elitistas, a Valesca Popuzuda merece a carteirinha de feminista e vocês ficam aí jogando contra”.

É um debate interessante. Primeiro porque, mais uma vez, a representação da fala das “classes populares” é motivo de disputa e apropriação. Dizem que Valesca canta a emancipação feminina, autonomia, o feminismo popular e eu me pergunto primeiro se Valesca realmente se preocupa em ser ou cantar alguma dessas coisas que dizem que ela canta ou é. Eu apostaria que não. E apostaria que, se Valesca fosse uma cantora das classes médias e intelectualizadas, dariam muito mais espaço para sua fala do que realmente dão aquel@s que querem produzir e arquitetar em Valesca um projeto político. “Pode a Valesca falar?”, perguntaria a feminista indiana Spivak.

Mas o lado que aposta que sim, que Valesca é mesmo essa messias da mulher feminista da periferia,  manobra uma argumentação interessante para defender como ela representa – é impressionante como o imperativo da representação precisa ser ainda tão presente – a voz do “novo feminismo”. Defendem que Valesca vai no coração do machismo, quando diz que a “porra da buceta” é dela. Que Valesca é tudo aquilo que as mulheres feministas reprimidas não conseguem ser e que, por isso, o feminismo não consegue reconhecer a linguagem subversiva do projeto de emancipação da funkeira suburbana carioca.

Eu não quero nada nessa reflexão além de levar a Valesca a sério. Isso quer dizer: compreender o que Valesca quer dizer a partir do que ela diz. Parece ser uma tarefa difícil para uma esquerda que cultiva a prática de dizer “aquilo que os pobres querem dizer, mas não sabem muito bem como dizer”. No entanto, eles sabem e têm a certeza de que os pobres e a cultura popular sempre dizem e sabem a verdade sobre a emancipação humana. Não é fácil, minha gente, mas se quiserem encontrar a verdade é melhor nem sair de casa.

Quando @s nov@s estudiosos e ativistas da “cultura popular” afirmam que Valesca (e a Gaiola das Popuzudas) é feminista porque diz que “my pussy é o poder”, ignoram todo o resto da música e da história. Não sei se fazem isso pelo conforto de sustentar um argumento, porque não estão com muita vontade de dar atenção para o que ela diz, ou simplesmente porque lidar com a contradição é mesmo uma tarefa trabalhosa pra quem quer mudar o mundo. A Valesca exige mais de nós do que esse obreirismo paternalista crente de que existe uma “cultura popular” para ser reconhecida e interpretada – como se a periferia não soubesse muito bem como se representar politicamente.

Então a moça diz (além de que buceta é dela, é claro) que “mulher burra fica pobre, mas se for inteligente pode até enriquecer”, porque “por ela o homem gasta: dá carro, apartamento, jóias, roupas e mansão. Coloca silicone e faz lipoaspiração. Implante no cabelo com rostinho de atriz. Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz. (…) Minha pussy é o poder”. Não vou “interpretar” a letra de Valesca porque defendo que devemos justamente contornar esse problema da “interpretação” das vozes subalternas.

Quero chamar atenção para o que Valesca diz justamente a partir do que ela diz. Quero dizer que Valesca tem uma fala e que não pode ser desrespeitosamente ignorada ou traduzida por mediad@res da “cultura popular”. A buceta é dela e ela faz o que ela quer. E na música ela diz que mulher inteligente é aquela que usa o poder da buceta para convencer o homem a oferecer um monte de coisas materiais além de silicone e lipoaspiração. Beijo no ombro e durmam com essa, amig@s, mas isso é justamente o que ela quer dizer. Em sua mais nova música “Beijinho no Ombro”, Valesca abandona um pouco a pauta da buceta autônoma e se filia mais claramente ao Funk ostentação (“Do camarote quase não dá pra te ver”), além de combater “as invejosas” e “recalcadas”. Mas o debate sobre o Funk ostentação já é outro papo.

Valeska Popozuda em cena de seu novo clipe "Beijinho no Ombro".

Valeska Popozuda em cena de seu novo clipe “Beijinho no Ombro”.

Não quero aqui classificar Valesca no termômetro do feminismo, até porque nunca nenhuma feminista que eu tenha conhecido defendeu o uso desse termômetro em nenhum momento da história. No entanto a relação entre “feminismo” e “Valesca” parece não querer entender nem o que é o feminismo nem o que é a Valesca. Existe um mal entendido contemporâneo sobre o feminismo (talvez por conta da hegemonia liberal que ainda nos atinge) que procura fazer do feminismo uma luta pela “autonomia” do corpo da mulher.

Ainda que seja verdade, o feminismo é também uma luta por autonomia, nunca em nenhum momento da história a autonomia foi uma pauta vazia no feminismo. Isso quer dizer que a luta por autonomia sempre teve um sentido próprio para o feminismo: autonomia do corpo para viver a sexualidade livremente, autonomia do corpo pra escolher sobre ter filhos ou não, autonomia do corpo para poder viver livre dos padrões de feminilidade imposto pela sociedade, autonomia para viver uma vida sem violência.

MMM no Dia Internacional de Luta das Mulheres, São Paulo/SP (2011). Foto por: Elaine Campos.

MMM  (São Paulo, 2011). Foto: Elaine Campos.

Se confundirmos a luta pela “autonomia” feminista com a luta por “autonomia” como conceito vazio, além de jogar sujo, corremos o risco de jogar o feminismo no colo da tradição liberal que reivindica , por exemplo, a “autonomia” dos cidadãos para usar armas, a “autonomia” para que @s trabalhador@s escolham trabalhar por mais horas do que a legislação permite, a “autonomia” dos mercados, e etc. Assim como o feminismo nunca lutou pela “autonomia” das mulheres para escolherem viver uma relação de violência ou a “autonomia” das mulheres por escolherem a satisfação dos bens materiais proporcionados pelo capitalismo e sua estrutura de poder em detrimento de sua autonomia econômica.

Isso quer dizer que o feminismo sempre propôs uma politização radical sobre o significado de “autonomia” do qual o liberalismo e o capitalismo sempre lutaram para se apropriar.  O que quero dizer que não existe “autonomia” , mas sim uma autonomia conservadora (liberal) e outra autonomia radical e libertária. O feminismo, ao menos a maior parte dele, sempre esteve disputando o sentido radical de “autonomia”. Não entender isso é não entender o feminismo.

A outra coisa é entender o que é a Valesca a partir do que ela diz. Não me parece que ela esteja interessada no debate sobre emancipação, autonomia econômica como aquele proposto pelo feminismo. E isso não é grave, não torna Valesca desinteressante. Valesca canta sobre um situação bem real em que mulheres mais pobres são submetidas à relações de muita desigualdade e opressão: opressão masculina, opressão econômica, opressão dos padrões do corpo feminino.

No entanto, o que Valesca diz é sobre os modos de elaboração de estratégia produzido pelas mulheres (ou algumas delas) para perfurar as estruturas de poder dominante. Valesca é defensora de uma estratégia específica de negociação com as estruturas de poder dominantes: para conquistar o poder é preciso ser exatamente aquilo que eles querem que sejamos. Essa não é uma elaboração nova na história, mas é interessante a forma de interpretação de Valesca, que nos faz pensar talvez em uma sociedade dominada por mulheres popuzadas e siliconadas, as quais dominarão inclusive as mulheres “burras” de bucetas impotentes, as recalcadas e as invejosas. Putz, Valesca, aí você nos quebra.

Mas uma coisa é defender que as fissuras  nas estruturas de poder devem ser feitas a partir da solidariedade das mulheres, a partir da autonomia econômica, a partir da produção de uma sexualidade que não esteja submetida aos desejos masculinos, o que faz o feminismo de uma maneira geral. Outra coisa é propor que as estruturas de poder devem ser usadas a partir da sua  radicalização. Isso é, “a buceta é minha” e, no entanto, eu uso ela para me posicionar melhor na estrutura de poder: uso a buceta (no sentido de que me aproprio dela) para fazer dela justamente o que os valores dominantes esperam de mim : rica, linda, “poderosa”.

Quero defender Valesca dentro da sua coerência argumentativa e perspicácia no sentido de revelar os jogos de dominação para dizer que não existe dominad@ sem consciência dos processos de opressão. Quero defender também que feminismo é algo totalmente diferente disso no sentido de que para nós o poder da buceta é  ainda um poder utópico e nossa luta é para que ela seja realmente nossa para decidirmos dar ela para quem nós quisermos (inclusive para outras mulheres), mas sobretudo ter ela de volta. De volta da igreja, do patriarcado, do capitalismo, dos padrões siliconados, das intervenções cirúrgicas. Ainda que bucetas estão no mundo para ser convencidas e convencedoras, Valesca, e quando propomos um debate, isso quer dizer que consideramos sua buceta exatamente como a nossa.

A buceta é a nossa potência revolucionária e lutamos todos os dias para que nossas bucetas sejam livres,Valesca, pode apostar. Nossa divergência é sobre “o que fazer?” com o poder da buceta (o poder da buceta sujeita, mas também o contra-poder da buceta sujeitada) ou o “potencial poder” que elas juntas poderiam ter para construir uma sociedade de bucetas mais livres. Ainda que tenhamos leituras diferentes das estruturas de opressão, vamos continuar lutando para que sua buceta, Valesca, seja nossa, seja de quem você quiser e seja de todas aquelas que marcham para uma sociedade de bucetas livres.

Beijo no ombro só quem fecha com o bonde!


*Alana Moraes é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro.

Comments

  1. Texto absolutamente maravilhoso. Tenho dificuldade em expressar como certas atitudes/frases do funk me incomodam (no sentido da emancipação feminina), mas este texto foi preciso.

    Parabéns!

  2. Texto Maravilhoso, Tudo o que eu Queria dizer e não tinha as palavras certas.

  3. Acho que o objetivo do texto é esse mesmo, ser mais uma reflexão para nos ajudar a caminhar nesse debate caro a nós todas que é a defesa da autonomia do nosso corpo e ao mesmo tempo a defesa de um projeto coletivo bem distante dos paradigmas liberais. Penso que não devemos fechar portas para as expressões e produções de mulheres no Funk mas abrir um dialogo fraterno sobre nossas concepções e tentar honestamente entender o que estas mulheres estão dizendo – trocar pontos de vistas, nos deixar afetar por eles e acumular mais força e vozes para nossa luta diária.

    • e se fossem homens cantando tais músicas,nos taxando de piranhas interesseiras que só sabem usar a b* para conseguir as coisas? quer dizer que quando é uma mulher incentivando nossa depreciação é “liberdade de expressão”? então.,porque propagandas de mulher pelada são atacadas pelas feministas?

      • Ufa! Achei q fosse a unica q pensava assim!!

      • A música mostra como as mulheres, principalmente as mais pobres, acharam um jeito de tentar ganhar no sistema usando a buceta. O texto não está dizendo que isso tá certo, só que é um bom relato de como as coisas são.

  4. Texto belíssimo!

  5. Gostei muito do texto! Concordo plenamente com você, Alana quando disse que a questão não é fechar as portas para o funk e sim abrir um diálogo. O funk é machista sim, assim como a sociedade é machista. Eu como grande apreciadora do funk acredito que o que devo fazer como feminista é praticar a resistência dentro do movimento (apesar de toda a discriminação, inferiorização e tudo o mais de negativo que sofro nesse meio, nos bailes principalmente) e quem sabe um dia construir um Funk efetivamente feminista e de luta pela emancipação.

    • Concordo com vc, Carina! O mundo do funk é totalmente machista, assim como o mundo do hip-hop/rap, que é bem mais politizado, porém é absurdamente machista! A Sociedade toda é machista, gente! A indústria cinematográfica é absurdamente machista e nem por isso acho que ela deva acabar, e sim gostaria de ver cada vez mais mulheres adentrando esses espaços e protagonizando o discurso! Também sou grande apreciadora do funk e penso que nós mulheres devemos tomar posse de todos estes espaços… Funk, tecnobrega, política, esportes, negócios etc

  6. Aline Craveiro says:

    Texto esclarecedor! Muito Bom!

  7. Não ser porque tanto pseudo-intelectualismo..será que é tão difícil ver que funk é mega machista? será que ninguém aqui nunca leu as declarações do tal mr Catra? E se hoje me dia a auto-vulgarização da mulher pode ser qualificada como “feminismo” por que reclamamos quando os homens nos tratam como pedaços de carne?? Não sei porque insistem em defender mulheres-bundas que só nos atolam na lama e faz parecer que nossa luta é pura hipocrisia,ou seja,chamamos de direito nos posicionarmos como mercadorias sexuais e julgamos os homens nos tratam como uma!!

    • Concordo.

    • concordo contigo Yume

    • Concordo, Yume. Pra mim, essa “liberdade” de se colocar como um pedaço de carne é um outro tipo de prisão. É claro que a mulher tem direito de se colocar dessa maneira, mas está apenas maquiando a prisão que é continuar servindo ao esteriótipo machista e competitivo. Sexualidade obcecada não reflete liberdade, pelo contrário. No final das contas, ser “poderosa” continua sendo necessariamente se encaixar no padrão “gostosa desejada pelos homens” e claro, acima das que não são “gostosas”. Sororidade zero, pq essa “poderosa” precisa rebaixar outras mulheres, a competição com as “inimigas” e as “recalcadas” está sempre presente.

  8. Excelente, Texto.

  9. Talvez, e somente talvez, podemos pensar na metaforização do poder, não sendo tão pragmáticos e estreitos, talvez o “poder” da buceta e o uso da materialidade seja a metáfora para tudo aquilo que cada mulher pode conseguir e dominar com a liberdade de sua buceta. “por ela o homem gasta: dá carro, apartamento, jóias, roupas e mansão. Coloca silicone e faz lipoaspiração. Implante no cabelo com rostinho de atriz. Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz. (…) Minha pussy é o poder” A buceta é o poder na medida em que a mulher que valoriza: 1) a si; 2) as demais; e 3) se incluindo entre as demais, e somente assim, ela pode conseguir e/ou ascender em seus desejos, sejam eles quais forem. O que me parece é que não podemos criminalizar aquelas que querem usar suas bucetas para ascensão econômica e fim. Afinal, a buceta é poder delas.

  10. é dificil imaginar que Valesca tenha pensado em um decimo doo que esta escrito neste texto..deve ter feito a letra em 10 minutos , pelo conteúdo intelectual da mesma..ela aborda nestas poucas musicas um apoio a sexualidade livre..só 99% do resto.. é o mesmo funk machista que objetifica a mulher

  11. Isso está errado em muitos pontos. Ela é feminista por motivos de: Ela diz ser, ela quer. Alô, teste da capricho? Vem aqui buscar mais um. Não deveríamos sequer estar discutindo se ela é ou não feminista. Se bastasse ser mulher a ser feminista, até a Joelma do Calipso o seria, certo? Mas por que estamos diminuindo a voz de uma irmã, colocando em caixinha por que ela disse X ou Y coisa? Ela disse que é? Pois bem. Então o é. Cabe a nós darmos aquela polida básica no pensamento, instruir, ajudar, “””””consertar”””””, mas de forma alguma escrever um texto desse tamanho, pseudo-intelectual até as serifas do “a”, pra vir diminuir uma voz. Que que é, vamos julgar quem é mais feminista que quem? Ora… Então eu preciso ler toda a biblioteca feminista, não posso cometer gafe alguma e só assim serei considerada feminista? Se o movimento está sendo construído, ajudemos com tijolos, não com marretas. Me poupe. Se eu preciso de aprovação (no caso, se ela precisa de aprovação), qual a diferença disso pro machismo, se machismo me exclui naturalmente, enquanto o feminismo só me aceita “””se eu fechar com o bonde?”””. Mil vezes me poupe.

  12. eu discordo do texto…
    “Isso é, “a buceta é minha” e, no entanto, eu uso ela para me posicionar melhor na estrutura de poder: uso a buceta (no sentido de que me aproprio dela) para fazer dela justamente o que os valores dominantes esperam de mim : rica, linda, “poderosa”.”

    e qual a diferença de uma prostituta?
    ela usa a buceta para ganhar dinheiro, poder ou anel no dedo…
    onde está o empoderamento da mulher? onde está a autonomia?
    infelizmente este tipo de comportamento só dá força ao que os machista de plantão pregam: que mulher não é capaz!
    onde usar a buceta demonstra a capacidade de pensar e realizar que uma mulher tem igualmente ao homem ?

  13. Muito interessante o texto. Me fez repensar algumas concepções. Abraços a todos e a todas.

  14. eu, sendo homem, nunca consegui explicar isso q vc explicou com perfeiçao, a forma como vc falou da autonomia, me pareceu q vc desenrolou um emaranhado de pensamentos.

  15. Nunca achei a Valesca o ícine máximo do feminismo nas camadas populares, porém vejo a presença dela no mundo do funk como algo positivo, uma vez que é um mundo totalmente dominado pelos homens e ela, juntamente com a Tati quebra barraco, foi uma das primeiras a inserir a mulher como protagonista neste mundo do funk. Sou a favor que a mulher ocupe todos os espaços de produção, representação, argumentação, profissão etc na sociedade. E isso inclui o funk. Achei a discussão proposta pelo texto super interessante e é bom para que nós feministas possamos debater o assunto. Eu só gostaria de ressaltar que quanto ao questionamento feito no texto “será que Valesca realmente se preocupa em ser ou cantar as essas coisas que dizem q ela canta?” É só buscar no google imagens que vc verá fotos da Valesca apoiando a parada gay, fotos em que ela está nua com um placa dizendo não à submissão, dependência e obediência (essa pode até ser montagem… Achei a placa meio estranha) e por último uma em que ela está com o corpo pintado com a célebre frase “meu corpo, minhas regras”, muito utilizada pelas feministas. Além disso, encontrei entrevistas em que ela era questionada sobre essa questão e vejam a resposta dela: “Quando comecei a cantar não tinha muita noção de quem iria atingir. Só comecei a entender que minha música poderia ser usada como um discurso quando as próprias mulheres chegavam para mim e diziam que o que eu cantava dava força para eles fazerem o que queriam e que eu falava muitas coisas que elas tinham vontade de falar. Tenho uma música em que falo ‘Agora sou solteira e ninguém vai me segurar’. É isso! Ninguém tem que mandar em ninguém, cuidar da vida de ninguém. Elas dizem: sou isso mesmo! Faço o que quiser e o resto que se f…!”
    Em uma outra pergunta da mesma entrevista, Valesca ainda diz: ““Sonho com o dia que vão parar de rotular as mulheres de puta ou piranha por causa de sua postura de vida, por causa de um determinado trabalho, como é o meu caso. Ninguém tem que julgar ninguém por causa do seu corpo. Por que a mulher que beija dois é piranha e o cara que beija duas é garanhão?”. Bom, com isso, só quero dizer que apesar de as letras comportarem contradições que nos levam a reflexões como as do texto acima, ela TEM SIM noção do que ela está falando, ao menos agora, ela sabe disso. Temos que parar de achar que essas mulheres são ignorantes só por q cantam letras simples, nasceram na favela e são siliconadas… A maioria delas são inteligentes pra caralho (não estou dizendo intelectualóides, mas inteligentes) e sabem muito bem o que estão fazendo, pois ao gerenciarem suas carreiras no selvagem mundo dos negócios do entretenimento, acabam se tornando empresárias de raciocínio rápido e sagaz e compreendendo bastante a respeito de relações de poder e política na indústria midiática. Alguém aqui sabe que a Gracyanne Barbosa é formada em Direito pela UFRJ??? Sim, aquela mesmo, a saradona ex dançarina de axé que desfila pelada no carnaval e é noiva do pagodeiro “Belo”. Certa vez li um texto que a Valesca postou, se não me engando, era sobre o caso “marco Feliciano”. Fiquei impressionada com a redação dela de muito boa qualidade. De burra a Valesca não tem nada e mesmo que ela tivesse pago para alguém escrever por ela, só a preocupação em se posicionar seriamente e com bons argumentos sobre o caso já demonstra uma postura política.

  16. Menos espírito de luta e combate na hora de compreender e se colocar no lugar do outro. Se não se baixa as armas e não se entende que a lógica da vida PRECISA ir além da defesa e do ataque, fica muito difícil entender a buceta irmã e até mesmo os caralhos do irmãos. Ninguém é só vítima ou só agressor e sair fora desses papéis só é possível se conseguimos construir outras identidades de ação nesse mundo. Essa parada de desqualificação é um faca de dois gumes e só corta pra dois lados: vítima ou algoz. Move on, galera.

  17. Parabéns, Alana! Seu texto é muito elucidativo e corajoso! Você conseguiu ir no ponto certo!

  18. Discordo em muitos pontos desse texto, apesar de muito bem escrito. Está indo muito ao pé da letra, ao fato da Valesca cantar sobre ostentação o que não a faz menos nem mais que outrxs. Pelo que sei ela nunca se intitulou cantora feminista, como a maravilhosa Karol Conka, mesmo assim apoia abertamente a causa de várias minorias. Acredito que ela consegue sim romper com as barreiras impostas às mulheres, até mesmo no meio funk’ quando ela canta o sexo, o corpo, o domínio do prazer, ao meu ver ela quebra tabus, pois existe acerca da mulher cadeados genitais, mulher é para parir, ser mãe, mulher não pode gozar, mostrar o corpo, falar putaria, ser dona se si, etc.
    E não compreendo tamanho desgosto quanto as letras cantadas ou ainda quanto as pessoas que a admiram por algum fato x ou y.
    A construção do respeito par com o próximo precisa vir muito antes disso, para que esse quando ouvir uma letra de funk’ ou quaisquer outras palavras saiba discernir quanto ao verdadeiro intuito de quem disse, qual o objetivo e que tipo de desconstrução se fazer a partir dai.. Ou então, daqui alguns anos será proibido dizer aquilo que não queremos ouvir ou não nos identificamos?!

  19. junior slim says:

    Nunca imaginei que alguém a considerasse um símbolo feminista… Eu a vejo com um apelo muito grande entre o público gay (sou gay) e acho legal isso. É funk, é popular, é caricato, não dá pra ficar “intelectualizando”.

  20. Não gostei do texto. Está repleto de preconceitos. Valesca não é uma feminista militante histórica, mas tem letras feministas, sim! E ainda vai surpreender muita gente: Valesca Popozuda ainda surpreenderá muita gente: Valesca, pelo jeito, ainda vai surpreender muita gente: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2014/01/08/interna_diversao_arte,406794/proximo-videoclipe-de-valesca-popozuda-sera-gravado-em-brasilia.shtml

  21. Nayara Monteiro says:

    textaço!!!!vc conseguiu traduzir exatamente o que penso sobre a música da Valesca e foi mais além e profundamente em outros termos do debate que “suele” estar invisível. compartilho!um abraço alana!tamo junta! 😀

  22. Vontade de ouvir uma resposta da Valeska. Muito legal pensar que só tentamos interpretar o que a classe popular diz, mas não é dado a elas o direito de ser ouvida. Nos mantemos criando mitos.

  23. Excelente texto! Muito esclarecedor sobre esse debate, obrigado Alana Moraes! 🙂

  24. Concordo em parte. Acho inteligente usar as ferramentas do status quo contra ele mesmo. Gosto quando uma mulher fala sobre sexualidade sem pudores. Acho incrível o fato de, até em filmes de temática lésbica, o orgasmo feminino seja tão irreal. Em todas as mídias, as mulheres gozam loucamente com um pau. Em pé, de cabeça pra baixo, dando cambalhota. E não rola nem uma siriricazinha. Fala sério! E também acho o conceito de vulgarização extremamente moralista, machista pra caramba!

  25. Pois é Yume, contraditório não? Essa é a mesma pergunta que me faço a muito tempo. A argumentação de que “o corpo é da mulher e ela faz com ele o que quiser”, contradiz a luta contra o machismo na mídia, pois de acordo com esse pensamento, como julgar uma mulher fruta ou mesmo as assistentes de palco com suas bundas na cara do povo brasileiro diariamente? Ou vamos julgar apenas quem usa desse artifício para ganhar ibope? Não nos esqueçamos de que essas mulheres são bem grandinhas para saber que denigrem a imagem da mulher no Brasil, então será que são só vítimas do machismo, ou autoras dele?

  26. Eu não sei por qual motivo as pessoas tentam relacionar as letras de funk com a posição política/ social de quem canta.
    Ao analisar uma poesia do Pessoa, por exemplo, levar em consideração a atitude do autor no real é uma análise absolutamente pobre. Ninguém sai por aí pensando que Fernando Pessoa era um guardador de rebanhos como Caeiro é.
    Outro exemplo são as músicas de Chico Buarque que não expressam a visão do autor sobre determinado assunto, as letras são construções poéticas e a finalidade, se houver alguma finalidade, com certeza não é a de ser espelho do real.
    Há letras do Chico que fazem alusões claras à época da ditadura, mas se o texto der base para outra interpretação também será válida.
    O que quero dizer é que não dá para relacionar, tão radicalmente, a vida pessoal do autor, suas opções políticas com a arte que o mesmo cria.
    O caso da Valesca é ainda mais difícil fazer essa relação, visto que a cantora já declarou que o seu empresário, ex-amante e pai do seu filho, o pardal, é o verdadeiro autor das letras.
    Segundo a cantora ela não é boa de escrita e declarou que deve a sua carreira toda ao Pardal, porque ele quem criou as letras.
    Então, meus amigos, quando Valesca canta “Eu dou pra quem quiser que A porra da buceta é minha”, “ai que piroca boa” essas frases não fazem da Valesca a nova cara do feminismo, mais parecem as cantigas de amigos, lá da idade média, há a voz feminina, mas o funk da popozuda, assim como as cantigas, são escritos por um homem e as letras ressaltam a importância da presença masculina na vida de uma mulher. Não há nada de novo, é medieval.
    Beijinho no ombro

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