Armário para quê? Armário para quem?

*Por Clara Fraga

Pode parecer muito fácil conceituar o que é um armário, mas sua carga histórica e o que nos foi colocado como armário é uma construção complexa. Na idade média, acredita-se que entre o século IX e X, surge a função do armário, sendo o lugar onde se guardava os armamentos. Trazendo para sua utilização atual, o armário pode ser aquele móvel de madeira, aço ou quaisquer material, com ou sem prateleiras e com porta, que serve para guardar objetos em geral. Armário ainda pode ser o lugar onde as crianças se escondem, com medo, devido geralmente a algum ato realizado que para um outro não é satisfatório. E mais, pode ser o lugar onde se escondem os monstros, como o que nos foi ensinado durante a nossa infância e como nos foi contado em histórias.

No caso da criança, quando ela se esconde, o intuito é se resguardar de algo externo que lhe deixe em situação de vulnerabilidade, sendo este, o único lugar seguro naquele momento. Já quando falamos neste monstro do armário é fácil visualizar algumas características rápidas do motivo que faz ele estar no armário.

Esse monstro é visivelmente reprimido e excluído do quadro social, e é colocado no armário para proteger toda a sociedade, que se sente atacada por ele (mesmo que esse ataque não ocorra), e ainda mais, ele é colocado no armário por um grupo com certo poder e que, julga essa medida protetiva como importante. Comportamentos repetitivos, específicos,”inadequados” e que podem significar uma ameaça, podem tirar o bicho do armário.

Um último significado ainda é possível ser definido para esse termo. O público LGBT utiliza a expressão armário como o local onde os Lésbicas, Bissexuais, Gays e Transgêneros “estão” antes de assumirem publicamente sua orientação sexual.

Ato do 8 de março de 2013 em São Paulo. Foto: FdE)

Ato do 8 de março de 2013 em São Paulo. Foto: FdE)

Fazendo uma análise dos significados é possível e também é visível algumas ligações entre estes. Estar no armário para o público LGBT, ao mesmo tempo em que é a barreira de proteção para o preconceito, como a criança que se esconde da vulnerabilidade, também é estar na mesma posição do monstro que agride a heteronormatividade e ainda, do ser que é reprimido e excluído do quadro social por isso.

É necessário fazer a reflexão que ninguém se coloca no armário, mas sim, é colocado no armário pela normatividade e, ao mesmo tempo que o armário é utilizado como barreira de proteção, ele se torna proporcionalmente uma barreira de isolamento e exclusão social. E ainda é possível ir mais longe e caracterizar o armário como a própria heteronormatividade, ou seja, se não houvesse a necessidade social da estereotipação, classificação e valoração sexual não haveria a necessidade do armário, figura que protege e que reprime as sexualidades que não fazem parte do “padrão”.

Esse padrão sexual e de gênero nos é imposto desde o momento em que o médico avisa o sexo biológico para a família e somos automaticamente classificados como homem e mulher, e vai aumentando através da divisão sexual de cores, roupas, sapatos, brincadeiras, presentes, tarefas de casa, atividades de família. Na escola vão sendo reafirmados os valores que nos colocam cada vez mais dentro de um molde a ser seguido, padrões de comportamento, divisão de jogos, banheiros, filas.

A cada grupo social que começa-se a fazer parte mais padrões obrigatórios são adicionados, até chegar à divisão dos parceiros sexuais segundo a heteronormatividade e começar os questionamentos para as meninas e para os meninos apresentarem seus parceiros/as e as imposições de como exercer sua sexualidade. Então, essas pessoas que foram moldadas desde o útero passam a ter que assumir ou resguardar sua orientação sexual se ela não estiver nesse molde. E mais uma vez o público LGBT é colocado em situação de violência. Caso assuma, a pessoa pode sofrer com a repressão, exclusão, violência psicológica, violência física, abandono, depressão e outras tantas formas de violência diárias.

Ao  não assumir ocorrem as mesmas formas de violências, que incidem de maneira diferente e que são praticadas por outro público, ou seja, a lógica da heteronormatividade, do sexismo, e do patriarcado é violentar tudo o que fuja do molde, rompendo com o direito a livre escolha, matando e estuprando jovens LGBT’s.

O armário nos foi colocado como maneira de privação, de reclusão e de exclusão. Não corroborar com essa imposição significa aceitar que o diferente existe e que O LUGAR DA DIVERSIDADE NÃO É NO ARMÁRIO imposto pela heteronormatividade … DEVE ser onde quiser!

*Clara Fraga é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Londrina.

Comments

  1. Adorei o texto. Mas me surgiu uma dúvida: a marcha das mulheres vai ser a favor da diversidade principalmente entre as mulheres de nascença e as mulheres transexuais? Isso não foi esclarecido, pois vcs falam muito da diversidade mas num site voltado para marcha das mulheres vcs não falam a ligação ou não da marcha com o excelente texto sobre armário. Bjs, Carol (mtf, mas ainda no armário)

  2. para o armário nunca mais!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: