Falando do invisível, ou, da violência contra a mulher

Por: Clarice Ferreira Menezes*

Eu nasci em uma casa onde não vi violência entre meus pais, então, não conseguiria dizer o que é a violência contra a mulher, certo? Errado. Eu nasci em uma família formada apenas por mulheres, por isso, nunca poderia falar o que é a violência contra a mulher, certo? Eu nunca vi minha mãe, irmã, tia, prima ou amiga machucadas ou marcadas pelas mãos de seus maridos, parceiros, pais, irmãos, filhos, tios, primos ou qualquer que seja o grau de parentesco. Algumas delas têm depressão, ou as chamadas “crises”, porque os maridos falam atrocidades, mas isso não é violência contra a mulher, certo? Errado.

Em pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Data Popular com 1501 pessoas de 100 municípios do Brasil, 54% responderam que conhecem ao menos uma mulher que já foi agredida pelo parceiro. Para 70%, a mulher sofre mais violência dentro de casa do que em espaços públicos no Brasil. Eu poderia desfilar mais várias porcentagens e estatísticas, mas você pode consulta-las aqui.

Fonte: 94 FM.

Fonte: 94 FM.

Se a agressão contra mulheres é o crime mais recorrente no Brasil (a cada 15 segundos uma mulher é espancada), apontamos para a necessidade de campanhas de conscientização paulatinas, de forma que fique claro para as vítimas de violência doméstica que marcas, como as ao lado, não são demonstrações de carinho, mas de agressão, e por isso devem ser denunciadas. O medo é grande: de denunciar e de retaliação. Porém o silêncio, como mostra a pesquisa, não parece ser um caminho: ele pode levar à continuidade da violência e ao assassinato das mulheres.

Mas, espere aí, ele nunca me deixou assim, lembra? De vez em quando ele fala umas bobeiras, ou então, grita comigo na frente de amigos e parentes, mas ele é assim, explosivo… E você vai tem que aceitar, certo? ERRADO.

É por isso que o artigo 7º da Lei nº 11.340/2006 estabelece que a violência psicológica, ou qualquer forma de comportamento que deixe a mulher fragilizada emocionalmente, com diminuição de autoestima, impedindo que ela possa se desenvolver plenamente e fazendo com que perca o controle sobre suas ações e se sinta humilhada, constrangida e manipulada TAMBÉM É VIOLÊNCIA e, portanto, passível de denúncia. Tá aqui, ó.

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Fonte: Alagoas 24h.

Mesmo que tais formas de agressão não contem nas estatísticas acima, o conceito de violência contra a mulher é, por lei, mais abrangente. Violência não são apenas os “tabefes” recebidos – que “todos” condenam e alguns acham que a mulher deve denunciar – mas também aquela troca de palavras, nada dóceis, que, dia a dia, martirizam as mulheres.

A respeito desse tipo de violência, alguns percebem e outros tantos dizem apenas que “ela deve ser boba mesmo, se não fez nada até agora”. O que é isso minha gente?! E é fácil ir contra o invisível? E, olha, olhares de reprovação não ajudam em nada se não for para tomar uma atitude. É muito difícil para a mulher que enfrenta esse tipo de violência se dar conta do significado daquilo que ela sofre. A princípio, a linha entre uma briga como as outras e a violência psicológica é tênue. Com o passar do tempo, notamos que a mulher fica mais e mais fragilizada emocionalmente, se torna mais introspectiva e, na maioria dos casos, não comenta sobre seus sentimentos. Quebrar o gelo e conseguir ter uma conversa sobre o assunto é o primeiro passo. É preciso demonstrar que ela não está só e não precisa aguentar aquela situação.

É pelas que sofrem agressões, sejam físicas ou verbais, que devemos soltar um BASTA. Nós mulheres não fomos feitas para levar tapinhas (seja onde for), muito menos para sermos diminuídas com palavras. Devemos lutar, sim, por um mundo em que sejamos iguais. Se quiserem me “xingar” de feminista por isso, esse é o único xingamento que aceito, e com orgulho.

E aí, minha amiga, por mim, por você, por ela e por todas as que virão, espero que você meta a colher, sim. Caso perceba esse ou qualquer tipo de violência, tente aconselhar sua filha, mãe, tia, sobrinha, prima ou amiga sobre as ações a serem tomadas, e esteja com ela quando for necessário. Porque, onde tem violência contra a mulher, a gente mete a colher!


Clarice Ferreira Menezes é militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio de Janeiro.

Comments

  1. EXCELENTE…DIDÁTICO!

  2. Robson Rodrigues says:

    O não entendimento do por quê dessa violência, tão desumana contra as mulheres, pode ser compreendido através do livro DAF: A “Essência Perdida” de I. di Renzo, que aponta a origem e a provável causa desses comportamentos agressivos contra a mulher.
    Este livro está em ebook no site da Amazon.com.

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