Por que o senhor atirou em mim?

Por: Thandara Santos*

Douglas Rodrigues tinha 17 anos, era estudante e morava na Zona Norte de São Paulo. Um menino como tantos outros nas periferias das grandes cidades, e no dia 27/10,, Douglas se juntou a tantos outros meninos das periferias no número de pessoas mortas pela polícia no Brasil.

Eram 14 horas de um domingo quando um agente do Estado atirou no peito de um menino desarmado. Naquele mesmo dia, estima-se que a polícia tenha matado mais 4 pessoas, além de Douglas. Seus nomes, no entanto, não tomaram as capas dos jornais de grande circulação, assim como foram esquecidos os nomes das centenas assassinadas em 2006 nas mesmas periferias da cidade.

Vídeo da campanha "Por que o senhor atirou em mim?".

Vídeo da campanha “Por que o senhor atirou em mim?”.

Em São Paulo, policiais em serviço foram responsáveis pela morte de 5.591 pessoas entre os anos de 2001 e 2011, o que representa uma média de 508 pessoas assassinadas por agentes do Estado por ano, segundo os dados do Núcleo de Estudos de Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP). Só em 2012, 1.890 pessoas foram mortas pela polícia no Brasil, o que representa uma média de 5 mortes provocadas por armas do Estado por dia.

Nesse mesmo ano, 89 policiais civis e militares foram mortos em serviço em todo o país, o que nos diz que para cada policial morto foram assassinados 21 civis, 21 cidadãos, meninos como Douglas. Organizações internacionais de defesa dos direitos humanos consideram aceitável a taxa de 10 civis mortos para cada policial em um contexto de paz, ou seja, em um contexto em que o país não esteja tomado por uma guerra civil ou envolvido em confronto internacional.

O Brasil, oficialmente, não está em guerra, mas ainda assim convive com taxas de letalidade policial que nos remetem aos contextos de guerras civis e que colocam nosso Estado de Direito democrático em risco. A Polícia Militar e, principalmente, sua estrutura e cultura militarizada são resquícios do período em que o país convivia com a supressão de direitos, com as torturas, seqüestros e assassinatos daqueles que ousaram lutar contra o regime.

A democracia brasileira, ainda recente, foi conquistada pela luta de homens e mulheres que não se curvaram diante dos desmandos da ditadura militar e é incompatível com a cultura militar que se baseia na ideia da guerra e do inimigo. É incompatível com a persistência de um modelo de polícia militarizado. É urgente mudá-lo, e reconstruí-lo a partir da sociedade, em um modelo que seja pautado pela defesa da cidadania, pela garantia de direitos e pelo repúdio aos abusos.

Não podemos mais tolerar que Douglas seja só mais um.

Não podemos tolerar mais nenhum.

* Thandara Santos é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo e cientista social.

Assista ao vídeo da campanha:

Participe do ATO pelo fim do genocídio da juventude negra e pobre e pela desmilitarização da polícia.

Quando: Quarta-feira, 13/11, às 18h (saída do ato às 19h)

Onde: EE Professor Victor dos Santos Cunha – Rua João Simão de Castro, 280 na Vila Sabrina/Zona Norte

Compartilhe o evento do Facebook.

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AS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA NO BRASIL TEM COR E ENDEREÇO: SÃO MAJORITARIAMENTE NEGROS(AS), JOVENS, DE PERIFERIA

Em 2010, no Brasil, 49.932 pessoas foram vítimas de homicídio e 70,6% das vítimas eram negras. Desses quase 50 mil assassinados, 53,5% eram jovens de 15 a 29 anos e 74,6% dos jovens assassinados eram negros.

Só na cidade de São Paulo, 624 jovens foram vítimas de homicídio em 2011, 57% dos jovens assassinados eram negros e 98% das vítimas eram homens.

Os números de homicídios no Brasil são equivalentes a números de guerra. E se verificados a partir da variável racial, é possível afirmar que presenciamos um genocídio negro no Brasil.

A VIOLÊNCIA TAMBÉM TEM ORIGEM: A POLÍCIA

Em 2012, 1890 pessoas foram mortas pela polícia no Brasil, uma média de 5 mortes por dia.

A PM paulista mata mais que a polícia de todo os EUA.

70,1% da população não confia no trabalho das diversas polícias no Brasil.

Com o atual modelo de segurança pública, os estados gastam muito e de forma ineficiente. Investimentos mal planejados, duplicidade de funções e carreiras mal estruturadas compõem um quadro de crise da política de segurança pública no País e em São Paulo.

O INIMIGO É O OUTRO

A Polícia Militar é uma herança da ditadura militar.

A cultura militar traz consigo a ideia da guerra e de inimigo. Mas quem é o inimigo da policia, afinal?

A Polícia Militar age politicamente e perpetua a lógica que privilegia e protege a mesma elite que a criou há 400 anos. Preserva o patrimônio dos ricos e declara guerra aos pobres!

Só em São Paulo, em 2012, 546 pessoas foram mortas em decorrência de confronto com a Polícia Militar.

A MORTE DO JOVEM DOUGLAS

O jovem Douglas é apenas mais uma vítima. Levou um tiro “por acidente”. A tentativa da PM é enquadrar o caso como homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e diminuir a pena do policial. Contudo, há indícios claros que os procedimentos operacionais padrões foram desrespeitados e nesse caso é preciso que o caso seja considerado homícídio doloso, com intenção de matar, e que o PM seja punido com rigor. Não apenas o policial precisa ser punido, mas o Secretário de Segurança Pública e o Governador do Estado de São Paulo precisam ser responsabilizados, pois se trata de uma política de estado operada pelo seu braço armado.

Ao ser atingido, Douglas perguntou: “Por que o senhor atirou em mim”? E pensamos, por quê? Por que vocês atiram em nós? O chefe de estado faz a política, a direção ordena, o comando treina e a tropa obedece. Até quando?

PELA APROVAÇÃO DO PL 4771/2012

Em 2011, o número de mortes classificadas por autos de resistência apenas no Rio e em São Paulo foi 42,16% maior do que todas as execuções promovidas por 20 países em que há pena de morte.

O registro dos “Autos de Resistência” (morte em confronto com a polícia) com o objetivo de maquiar homicídios cometidos por policiais civis e militares é uma prática comum, conhecida e amplamente utilizada pelos serviços de segurança pública em todo o Brasil. Em tramitação em Brasília, o PL 4471/12 pode significar o fim da ‘licença para matar’, pois prevê a investigação das mortes e lesões corporais cometidas por policiais durante o trabalho. É um enorme avanço, mas não é o suficiente, já que os crimes serão investigados pela própria polícia!

PELA DESMILITARIZAÇÃO DA POLÍCIA

Hoje, os militares não respondem como civis. Se cometem crimes, eles são submetidos a um tribunal especial, o Tribunal Militar.

A polícia brasileira é repressora e violenta. É uma instituição que cerceia direitos dos cidadãos – entre eles, o direito a circular e viver a cidade, e o direito à própria vida!

Uma polícia diferente é possível! Uma polícia democrática deve ser cidadã e garantir direitos!

E os próprios policiais concordam: 70% dos soldados, cabos, sargentos e subtenentes da Polícia Militar são a favor da desmilitarização. Entre os oficiais, 54% são a favor de transformações do modelo atual.

PELO FIM DO GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA E DE PERIFERIA! A FAVOR DA DESMILITARIZAÇÃO DA POLÍCIA – PORQUE O ESTADO NÃO PODE CONTINUAR MATANDO NOSSOS JOVENS!

Participam desta campanha:

Todos os artistas que gravaram voluntariamente

Mães de Maio

UNEAFRO – Brasil

Articulação Política das Juventudes Negras

Levante Popular da Juventude

Coletivo Arrua

Marcha Mundial das Mulheres

Quilombaque

Círculo Palmarino

Fórum em defesa da vida – Zona Sul

Comunidade Santos Mártires

TV Doc Capão

Associação Frida Kahlo

Instituto Brasileiro de Aliança Socio Ambiental

Projeto Batukai

Rede Ecumênica da Juventude

Bocada Forte Hip Hop

Campanha Eu Pareço Suspeito?

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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