Crônica de uma morte anunciada, ou, “por que o senhor atirou em mim?”

Por: Sarah de Roure*

“(…) Ele foi andando pela rua enquanto imaginava o que faria nas férias de fim de ano. As aulas estavam perto de acabar, e depois da prova de Matemática estaria livre. Tinha que trabalhar, mas seria ótimo se pudesse só ficar empinando pipa. Ah a vida não tava fácil pra ninguém… Na quebrada o bagulho é doido, e tinha que se virar como podia. Falou para o Marcelo na semana passada, ‘você vai ver, ano que vem minha vida vai mudar’ (…)”.

Essa poderia ser a narrativa do dia de Douglas ou de qualquer outro jovem da sua idade. Da escola para casa levando a mochila cheia de sonhos. Mas acontece – aconteceu – que ele, como muitos outros, era negro e vivia na periferia de São Paulo. Lá onde 624 jovens foram vítimas de homicídio em 2011, e 57% deles eram negros . 98% eram homens.

“ Nossa! Mas parece uma guerra”.

E é. A quantidade de assassinatos coloca o Brasil lado a lado com nações em guerra. Tem um exército solto nas ruas chamado Polícia.

Mas se tem um exército, contra quem ele está lutando?

Só em 2012, 1890 pessoas foram mortas pela polícia no Brasil. A maior parte da população não confia nessa polícia que foi criada na Ditadura Militar para proteger um pequeno grupo e preservar o patrimônio da elite.

Flora Matos também está na campanha "Por que o senhor atirou em mim?".

Flora Matos também está na campanha “Por que o senhor atirou em mim?”.

A polícia não é a única responsável em toda essa história. Ela obedece a um comando que está submetido ao governador. Esses também precisam ser questionados, porque o Estado continua matando os jovens negros da periferia. Porque são coniventes com a violência contra as mulheres, em especial as negras, que são maioria nos bairros de periferia e, portanto, mais atingidas pela ausência de serviços públicos. O capitalismo, que é racista e patriarcal, precisa de um braço armado para manter o muito que pertence a poucos, e para garantir que os muitos que vivem nas periferias continuem tendo pouco.

É urgente um modelo de segurança pública em São Paulo e no resto do país, em que a polícia seja refundada, e ao povo seja garantido o direito a circular e viver a cidade: o direito à própria vida!

A próxima página da sua história de Douglas ficou em branco, terminou mais ou menos assim…

¨Era melhor andar rápido, tinha alguma coisa estranha com aquele carro que tava chegando perto. O barulho da porta e….. ele virou pra olhar. Tum, Tum. Um ardor no peito, era bala. Olhou pra baixo, nem acreditou. Olhou pra frente, bem nos olhos do moço vestido de farda e disse ‘Por que o Senhor atirou em mim?'”.

Pela desmilitarização da polícia, também estamos estamos em marcha, até que todas e todos sejamos livres do capitalismo racista e patriarcal.

* Sarah de Roure é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo e historiadora.

Leia mais: Por que o senhor atirou em mim? – Por Thandara Santos

Participe do ATO HOJE em São Paulo!

Ato pelo fim do genocídio da juventude negra e pobre e pela desmilitarização da polícia

Quando: Quarta-feira, 13/11, às 18h (saída do ato às 19h)

Onde: EE Professor Victor dos Santos Cunha – Rua João Simão de Castro, 280 na Vila Sabrina/Zona Norte

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